DOS DELÍRIOS JOSEPHCLIMBERIANOS DE UMA EDITORA INDEPENDENTE

Como autora, sempre fui descrita por “niilista”. Como ser humano habitando a face desta Terra há 35 anos, por “amarga” ou “ladra das energias positivas do jovem místico que só lembra de falar sobre saúde mental de maneira protocolar em setembro”.

Acho que não sou, afinal, nada disso. Apenas enxergo o real sem floreios reconfortantes.

Por isso mesmo, achei que a cassandra seria uma bela flopada. Afinal, já tem tantas revistas independentes, tantas já voltadas para autoria feminina, tantas no Medium, tantas, tantas, tantas! E essa seria só mais uma, so why bother?

Mas a minha descrença estava enviesada por outro aspecto, esse não tão realista nem muito racional.

Mulher autista que sou, passei a vida sendo taxada como um grande erro latejando no coração do universo, megalomaniacamente metafórica, apenas por não ser capaz de oferecer o padrão de comportamento e cognição que era esperado de mim – tão próxima da neurotipia e apenas diagnosticada na vida adulta, eu era a esquisitinha, a lerdinha, a mal-educada que não dá nem um beijo na tia. Cresci, pois, acreditando estar constantemente fazendo a coisa errada, sempre em dúvida do que seria correto. Mais do que isso, naturalizei diversas formas de abuso psicológico, das quais o gaslighting é o pior e o mais frequente ainda hoje. Um grande neurocapacitismo estrutural latejando no coração da sociedade do qual apenas quem o sofre se arrisca a falar.

Então, entendam, quando criei a cassandra – mesmo aos 34 anos, já diagnosticada e versada nas diversas formas de capacitismo e abuso que uma pessoa como eu pode sofrer –, os flashbacks de terror da infância me voltaram. Sou um erro, a retardadinha que não acerta nunca, a nerd que sabe tanto de algumas coisas mas não consegue jogar uma bola direito pra coleguinha. Como algo que sai de mim pode dar certo?

cassandra começou como um chute no escuro, com medo e com desconfiança, mas começou. Aprendi que esse tipo de pensamento intrusivo, afinal, não passa disso mesmo, intrusivo, e que devo arriscar. Às vezes eu me ferro, mas ossos do ofício; às vezes também acerto que é uma beleza. Joguei no escuro essa ideia e muitas minas compraram. Assim surgiram as nossas colunistas, insanamente me seguindo nessa loucura e fazendo a revista todo mês na base do amor, que ninguém tá ganhando nada com isso. Cansaço, no máximo.

O fato de onze mulheres fodaças e talentosas terem topado a minha pretensa insanidade deveria ter sido o primeiro sinal de alerta pra mim, mas eu sou como o Joseph Climber e sempre insisto em diminuir minhas próprias ideias e atitudes.

Todas, absolutamente todas, as vezes em que tive de convidar alguma autora, simplesmente tremi na base pensando que eu nunca fui ninguém na fila do playtoy e por isso mesmo levaria um não seguido de uma gargalhada irônica ou que nem sequer uma resposta me seria dada. Apenas duas autoras recusaram, ambas por questões pessoais e dizendo que gostariam de ser convidadas novamente em outro momento. Nunca fui ignorada. Nesses nove meses, tivemos convidadas grandiosas, o que deveria ter sido o segundo sinal de alerta.

Inclusive, fechamos parcerias com diversos projetos de arte independente. Tivemos, por exemplo, uma edição especial apenas com autoras do portal Fazia Poesia e temos esta coluna aqui. O que certamente deveria ter sido um grandessíssimo sinal de alerta, diga-se de passagem.

A cada nova chamada para algo, seja divulgação, seja resenha, seja a chamada propriamente dita que abrimos em novembro e terminou há pouco tempo, sempre recebemos uma demanda que não soubemos nem pudemos endereçar, de tão gigante e grandiosa. Precisamos parar várias vezes e rever os projetos na revista, porque não acreditávamos que…, bem, acreditassem tanto na gente. Só na primeira chamada de resenhas a caixa de entrada sucumbiu. Recebemos tanto material na nossa chamada semestral de submissão que nem sei. É muita gente querendo participar, querendo enviar livro, querendo divulgar seu trabalho. E toda essa gente procurando uma revista de apenas nove meses deveria ter sido um baita sinal de alerta.

Mas não foi. E eu continuava taxando internamente minha própria revista de algo menor em comparação com outras, uma revista secundária, mesmo que eu tenha todos esses meses trabalhado incessantemente pelo nosso crescimento, como todas as minas que fazer parte dessa insanidade chamada cassandra ao meu lado.

Estamos indo para nossa oitava edição e: tivemos maravilhosas convidadas; nossas colunistas são um grupo lindo e unido de apoio mútuo, sempre com uma qualidade textual fodência (não acho palavra melhor); abrimos um listão mensal que recebe tanta indicação a ponto de não caber em um mês só; recebemos tanto livro pra resenha que não estamos dando conta, tem sido um tempo de trabalho grande por aqui; temos um nível de leitura ótimo, cada vez mais acessos e cada vez mais interesse dos nossos leitores; nossa chamada semestral de submissão foi simplesmente um sucesso e estamos ansiosas para terminar a curadoria e anunciar as artistas selecionadas.

Ano que vem tem mais, tem muito mais e, se tudo der certo, ainda vamos estar por aqui por muito tempo, divulgando o trabalho artístico de autoria feminina. A ficha pra mim vai caindo aos poucos de que esse projeto não é mais um plano louco saído da minha cabeça chegada a mirabolâncias.

O ano está acabando e resumo da ópera: a cassandra é enorme. Admito que eu fui, curiosamente, a pessoa mais cética em relação a ela e que agora, olhando em retrospecto, encho meu coração de uma satisfação quentinha por tudo que realizamos. Eu não acreditava que chegaríamos tão longe depois de apenas nove meses, eu nem acreditava que chegarí. Eu muito mal e porcamente botei fé que che. Em certo momento até c pareceu demais pra um projeto saído da minha mente acostumada à autocrítica autodestrutiva limitante degoladora de autoestima.

Mas a cassandra valeu a pena cada noite de trabalho, cada desespero ao ter que contatar uma autora, cada e-mail quilométrico, cada susto porque a deadline é amanhã e faltam três publicações pra editar, cada branco na hora de lembrar as tags do mês passado, cada choro infantiloide na frente da tela porque eu sou uma negação com tecnologia e o Medium é feio chato e bobo, cada. segundo. dedicado. a ela. A cassandra é mais que um sonho, ela é real.

Não foi um erro. Foi a coisa mais certa que eu já fiz.


cassandra é um grito. revista de artes e literaturas feitas por, de e para mulheres.

Milena Martins Moura é poeta, editora, tradutora e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Publicou os livros Promessa Vazia (Multifoco, 2011), Os Oráculos dos meus Óculos (Multifoco, 2014) e A Orquestra dos Inocentes Condenados (Primata, 2021), além do plaquete de poesias Banquete dos Séculos (edição da autora, 2021). É editora da cassandra e integra as equipes de colunistas da revista Tamarina Literária e de poetas do portal Fazia Poesia.


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