VIDAS ALIENADAS

Caminhar pela cidade em um solilóquio urbano desde o qual se observam passivamente os sinais das ruas e galerias tornou-se uma rotina. Agora, construir e dar unidade ao que se observa, dar sentido e estatuto à cidade, transformou-se em uma tarefa árdua. Há muitos sinais e em tempos de alta polução visual e sonora muita coisa se exclui quase que automaticamente. Parece que muitas coisas perderam realidade, multiplicidade, sentido. Observamos detidamente as coisas que nos cativam, outras passam sem provocar nenhum efeito. Essas outras coisas eram parte de uma paisagem cativante, mas a força da sua presença se reduziu drasticamente e não sobrou muita coisa. Agora cada coisa pula em seu próprio ritmo de sobrevivência e o tempo em que elas compunham uma sinfonia urbana harmônica e rica, parece não ter mais lugar. E aqui não se trata do resgate de um passado melancólico, senão das possibilidades de dar sentido presente em função das possibilidades que abre todo um passado.

A fragmentação do real deixou um quebra-cabeça incompleto, há vazios, coisa não junta com coisa. Algumas peças desapareceram. Só ficaram cacos do real e não há como formar uma figura que valide todas as diferenças na legítima unidade da sua multiplicidade. As relações entre as coisas foram sequestradas e sua composição no real passou a ser objeto de projetos de inclusão e exclusão. Sistemas que eram abertos foram diminuindo a sua permeabilidade: corte e fluxo, passa ou não passa; acolhe ou descarta. Sem muito pensar, seguimos as sinalizações da vida na cidade.

O real se transformou em um projeto do capitalismo onde todas as relações são antecipadas para produzir um percurso controlado. Porém, nos múltiplos sinais em concorrência, não há nada que não possa ser quebrado, recortado, manipulado para torná-lo uma nova realidade. É romântico pensar que ainda há um real sagrado, um materialismo imóvel, uma vida sem sobressaltos. As rupturas, as revoluções, os consensos, todos esses elementos que sempre existiram como manifestações que deram estabilidade ao homem, hoje são a matéria prima daqueles que sabem que nada permanece imóvel e que no fluxo do devir pode-se antecipar e realizar muita coisa.

As vidas podem ser orientadas de muitas maneiras. As derivas, por exemplo, são apropriadas mediante o sequestro das relações que compõem que dão sentido às rotas. Aqueles que produzem o real sabem que se trata de um projeto de relações: o estável ou o essencial não é mais referência para comprimir o fluxo do devir e estabiliza-lo em um ser inalterável. A referência é a mudança, e a mudança do real tornou-se um negócio lucrativo: se lucra compondo e produzindo o sentido e percurso do real.

Talvez George Orwell nos alertasse para esse fato. Em 1984 a ideia de um estado totalitário, de um único olho, de uma única voz, de um rosto superior que define o real, representa um retrato dos tempos da guerra fria (foram os próprios ocidentais que associaram o romance ao stalinismo soviético). Poderíamos pensar que o totalitarismo denunciado na obra de Orwell consiste mais em uma oportuna narrativa epocal do que um entendimento daquilo que realmente interessa na sua escrita: a farsa do real; a possibilidade de mudar toda a história de modo que ela se transforme na verdade que interessa, no real que interessa. Saber quem exerce esse poder não é tão relevante como conhecer as operações que permitem manipular a história. A farsa do real era parte de um projeto, aliás, de um projeto técnico, onde o estado de falsidade era a condição produtiva do projeto social orwelliano.

Nesse sentido, a operação interessa mais do que o resultado, pois ao total se chega só retorcendo os fatos, porque os fatos em si já são doadores de consistência e estabilidade no fluxo de um devir que sempre é aberto. Trata-se de relações; é através delas que os fatos tornam-se significantes ou insignificantes. Na interpretação tradicional do romance de Orwell é mais significativo denunciar o fantasma do totalitarismo do que a operação que o produz. Para produzir um total é sempre necessário estar anulando, corrigindo, deturpando. Se algo se estabiliza é porque se traça uma linha que dá consistência a um devir que não se cansa de mudar, portanto, para produzir o equilíbrio e a estabilidade de um real totalizante, há que corrigir os desvios.

Na temporalidade do devir, no tempo do ser – essa linha temporal e histórica na qual estamos lançados –, o real extrai sua realidade de um campo de indeterminações que se encontra estabilizado, mas não de maneira finalística. Sempre há muita potência por realizar e desse campo aberto de indeterminações o puro devir também extrai realidade; com efeito, exatamente do mesmo lugar de onde as linhas estabilizantes extraem a sua. Estabilidade e instabilidade emergem do mesmo lugar. Corta-se ou deixa-se passar algo que nasce do mesmo lugar. O real passa ser a composição desses cortes e fluxos. Por isso Orwell é mais significativo se colocado de frente aos procedimentos que reconhecem essa plasticidade e operam tecnicamente para manipular os fluxos e suas relações, que no fundo, são a historicidade do ser: Orwell interessa porque mostra que aquele fluxo temporal de onde o ser extrai sua realidade pode ser antecipação, projeto. Mas do que uma sociedade disciplinar ou de controle, habitamos uma sociedade de projetos.

Tal perspectiva não nos leva a pensar que estamos voltando a 1984 ou que hoje é 1984. As invariantes estão nos processos que operam sobre a temporalidade. Orwell nos permite constatar que qualquer temporalidade do ser pode ser manipulada tecnicamente e com isso, devemos entender que o alerta que foi feito diz respeito primeiro à técnica, e depois à política como techné regia. A historicidade do ser é constituída tecnicamente e nos tempos de uma sociedade altamente tecnologizada, não se volta a 1984, se caminha sobre um real cada vez mais flexível, composto de uma materialidade mais plástica, configurável, programável.

Ir e vir; ler, escrever, aprender os significados; aprender a fazer, se preparar para a vida do trabalho, trabalhar. Formar família, reproduzir por amor ou prazer nossa espécie, cuidar, repetir os ciclos de uma deriva que, embora pareça autêntica, não é propriamente nossa: aprendemos a ser assim ou assado, somos adestrados. A margem de deriva dentro de um sistema que manipula os símbolos e suas relações é pequena. As chances de parecermos com outros são grandes. As chances de nos identificarmos com um nós abstrato são também grandes. No jogo das identidades, as relações sobre o real estão estabilizadas e ficam a mercê dos negócios da identidade. Alternativo, por exemplo, é outro nome para os negócios da alteridade. Por outro lado, as diferenças são sufocadas: há um embargo, um bloqueio sobre os territórios da diferença. Se eles servem para os negócios identitários, bem-vindos; mas, se configuram autopoiésis, não servem; a novidade ajuda os negócios do capitalismo (a chamam de inovação), mas a autonomia atrapalha.

Trabalhar e trabalhar. Fomos condenados eternamente ao castigo de Zeus. Ao final, para muitos, tudo depende de ter emprego; seja esquerda ou direita, a questão é que sempre se deve estar trabalhando. Trata-se de conseguir dinheiro para alimentar a prole; estudar para ser alguém na vida. Os desvios que convidam a sair do roteiro são perigosos: arrisca-se à rejeição e ao ostracismo social. Não estudar significa ser um diferente indesejável. Todos devem ser adestrados, educados e absorvidos em formas sociais pensadas e planejadas para manter a estabilidade da ordem social que escolhemos ter. Isso mesmo, que escolhemos ter.

Sem pensar e esgotados pela força de relações tecnicamente forjadas, nossa capacidade de encontrar significado aos sinais do real se reduzem. Conscientemente, democraticamente – ainda quando os sem sabores da democracia desanimem e façam pensar ‘tanto faz, vamos ter que trabalhar do mesmo jeito’ – escolhemos representantes e agimos como se a vida tivesse um único sentido. No futuro obscuro do capitalismo só faz sentido que todos devem trabalhar porque todos devem contribuir para manter essa ordem. Quem não trabalha é vagabundo.

Esse recorte do sentido não se faz em um par de anos de governo neoliberal. O Estado que garante o controle da ordem social, há muito tempo não produz autonomia. Sua lerdeza comunicacional e operativa está neutralizada e sempre é objeto dos ágeis abutres que retorcem os fatos para oferecer novas narrativas que enganam os dóceis cidadãos. Aí podemos ver claramente Orwell apagando da história as relações dos que outrora foram inimigos e rescrevendo o passado de onde surge uma antiga amizade: a dos novos amigos da democracia. Não faltam relações para dar sentido a essa nova realidade transvestida de dever democrático.

Governa-se em base a políticas de identidades, ora de inclusão, ora de exclusão; ora de amizades, ora de inimizades. Governa-se mediante temporalidades constituídas através de narrativas flexíveis que são as formas operativas nas quais nos encontramos lançados. Os significados são adequados para nos fazer aterrissar no real que interessa. Não é a alienação do trabalho o que nos coloca nesse dilema político: o que foi alienado é nosso desejo, nossa vida toda: vidas alienadas. Ela não mais nos pertence. As forças do trabalho e do descanso já não nos pertencem. Ingenuamente acreditamos sermos os donos de nos mesmos, de nosso ócio, de nosso prazer; mas toda nossa capacidade produtiva está à mercê das limitadas possibilidades produtivas que nos foram dadas. A nossa vida está em mãos da governança técnica que caracteriza nossa época e que hoje, mais do que nunca, toma a forma de um algoritmo: a governabilidade é algorítmica.

Trabalho e prazer, tudo passa pelo crivo técnico. Tudo é calculável e, portanto, tudo pode ser colocado sob a perspectiva da representação. Nosso desejo é tratado com algo calculável: cortar ou deixar passar os fluxos de sentido. Constrói-se uma operação de significados para conduzir uma manada adestrada:

Para cada ser representado pela sua atividade e registro na massa dos big data (for s = 1 to n), verifique se um dado símbolo afeta; Caso afete, seduza um comportamento, oriente uma forma de consumo, ofereça reconhecimento identitário (if s = x then goto c). Faça isso enquanto exista vida (next s).

Na governança algorítmica da inteligência artificial somos produzidos em formas pensadas pela racionalidade daqueles que operam a maquinação do desejo. Os operadores técnicos pensam, ingenuamente, que estão a atingir novos patamares de desenvolvimento humano, mas só aceleram a miséria simbólica que nos afeta. A cada dia, os símbolos perdem mais e mais possibilidades de deriva. Sua cadeia significante é manipulada para sempre chegar ao mesmo lugar e na velocidade em que se calcula a vida, se atrofia o desejo.

Na temos tempo de digerir o sentido. Antes de desenvolver um fluxo, já somos forçados a adotar a direção para o próximo destino que irá satisfazer nosso desejo. O prazer sempre é diferido; a falta, produzida: o que enche o vazio da cadeia significante é planejado, pensado e operado para guiar o desejo em direção dos interesses do capital; puro projeto, pura manipulação técnica do tempo: o estado de aberto do devir se torna angustiante: fluir seguindo qualquer outra deriva se transforma em um bug, um equivoco na modelagem da espécie. Docilmente, ou aceitamos e multiplicamos o mundo que nos oferece o algoritmo, ou rejeitamos e neutralizamos as singularidades que escapam ao programa.

Aceitar ou rejeitar. Nessa lógica binária o que se transforma se faz sobre opções polarizadas; o desejável se converte em deriva legitima e o indesejável em transtorno, mas tudo se opera sobre opções pré-definidas. Por isso estamos sempre atentos às razões algorítmicas que nos oferecem prazer ou nos livram da angústia mediante recomendações de leituras, playlists, filmes, lugares, amores e todo que for possível transvestir de reconhecimento para nos aliviar do tédio, do sem-sentido de uma vida que não é produzida por nós: uma vida de prateleira, uma vida alienada. Não percebemos que estão nos alienando do nosso tempo, de nossa vida. Ser ou não ser não é mais uma disputa metafísica entre o ser e o nada; se transformou uma pressão quotidiana sob o controle das opções de escolha algorítmica. Sem exercitar a crítica e sem escutar os indesejáveis, os alheios, os outros que defendem suas diferenças, nos tornamos defensores da homogeneidade e, assim, nossa cidade se parece cada dia mais ao projeto urbano de um cidadão padrão, de uma figura que foi moldada a partir do sequestro da sua timeline e de seu histórico de navegação, promovendo um narcisismo perverso que infantiliza e conduz. Adestrados, esses cidadãos são alienados da sua própria capacidade de se tornar o que eles desejem ser. O cidadão só pode ser de acordo aos projetos hegemonizantes que o governam. Não se trata mais de um governo que representa os anseios da sua população; se trata de projetar uma forma de governança baseada em uma representação, no cálculo de um ser, um ser projetado: o cidadão de vida alienada.

Nossas diferenças se pasteurizam em função desses projetos e daqueles que os governam. Nossos corpos e os corpos dos outros são parte de uma psicopolítica que molda o cidadão como um ser governável, abolindo as diferenças e as possibilidades de deriva que possam desestabilizar o que já foi construído. Interrompem-se os fluxos, congelam-se as almas e se institui a vida como repetição de um roteiro que, na calma e tranquilidade que oferece, esconde a técnica que desvitaliza a nossa capacidade de divergir, de variar, de nos diferenciarmos e construirmos nossas derivas como se fossem simples e corriqueiros experimentos existenciais.

Talvez só se trate disso: de fazer da vida um experimento existencial que na sua singularidade é inalienável. O contra-algoritmo não é um muro em torno da privacidade; é a defesa da possibilidade de escolher os próprios caminhos; a defesa das possibilidades de invenção das nossas próprias vidas.


José Aravena Reyes é natural de Santiago de Chile. Músico popular e canta-autor na época, veio para o Brasil a cursar pós-graduação em Engenharia Oceânica. Professor Titular da Faculdade de Engenharia desde 2018, fez pós-doutorado em Filosofia da Técnica e da Tecnologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Atualmente ministra aulas de Engenharia e Sociedade e Gerenciamento de Projetos na UFJF. Na sua vida pessoal, é discotecário de músicas do mundo. Membro do grupo de Maracatú Estrela na Mata, divide suas pesquisas de Filosofia da Tecnologia com suas outras pesquisas musicais em discos de vinil do mundo que utiliza em suas mixagens e produções autorais de música eletrônica.


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