UMA RELIGIÃO SEM DEUS

Terceira carta para Isabela

Minha filha, quero escrever para você a respeito do Natal. Jesus não nasceu em dezembro; tudo indica que tenha nascido entre março e maio, na verdade. Sei que essa, às vezes, é uma informação que pode parecer um tanto sem sentido, mas preciso dizer pra você desde já que esse Jesus do Natal não existe. O homem inventa seu deus, para que este invente um homem que dá conta de viver com menos sofrimento e tendo sempre um colinho de pai ou de mãe para se aninhar quando as coisas ficam duras demais.

Isso não quer dizer que um outro Jesus não tenha vivido no mundo. O que o pai está tentando falar é que aquele para quem você olha e sorri, no quadro pendurado no quarto de sua avó, loiro, de olhos azuis, ele não é real. Houve, sim, um galileu que encarnou os valores mais importantes de que tenho notícia, meu amor; que respeitou pessoas, ofereceu escuta, cuidado, afeto, ira. Um homem que ensinou sobre a revolta de viver numa realidade tão castigada pela dor e pela morte. Um homem que quebrou templos e acolheu prostitutas. Esse Jesus não era loiro; provavelmente era negro. Um homem entre tantos homens, como eu, seu avô, seu bisavô, com a única diferença de que foi transbordante de coragem. O que fizeram dele é outra história, porque, da cura, transformamos Jesus em veneno, pintando sua face de gente com o pó dos templos e das formalidades. Seu pai, Isabela, acredita num Cristo que dança, bebe, fala alto e tropeça na rua.

Te digo essas coisas para que você saiba que a vida precisa de pessoas assim como ele. Seus olhos são azuis, e desde cedo, mesmo que você não se lembre, essa cor no olhar te dá um privilégio tremendo no nosso país. Por isso, desejo que você seja forte e destemida para fazer da sua vida uma constante carta de indignação contra os excessos que separam pessoas pelo tom da pele, pelo tipo de cabelo, pela cor dos olhos, pela forma de amar e ser amado. Existe uma comunhão muito grande e bonita no mundo quando o outro, esse grande desconhecido, pode sentar-se na mesa conosco sem precisar ser adversário. Desejo que possamos nos lembrar sempre disso, porque do contrário, qualquer Jesus será só um enfeite inútil.

Também vou te falar um pouco a respeito da minha vida. Veja só um paradoxo, desses que deixam a existência irremediavelmente humana. O ano de 2021 seria um daqueles que, caso pudesse, eu apagaria do calendário. Tantas mortes, um tirano no poder, amigos que sempre considerei parte da minha alma demonstrando como são feitos de interesse, de covardia e de julgamentos, enfim, um ano que poderia ser perdido, não fosse a sua presença nele. Ter seu corpinho nos meus braços, e seu calor, são coisas que não consigo descrever sem me emocionar. Seu pai escreve esta carta no dia 19/12/2021, um domingo. Ontem você comeu ovo e passou mal; vomitou, ficou prostrada, abatidinha… daí fui ver você. Foi só chegar na sua casa – sua casa n°01, porque você precisa saber que a minha também é sua – e logo pulou para o meu colo, se aninhou, me vomitou inteiro e dormiu por quase duas horas. Naquele tempo, tudo podia acontecer; eu era seu abrigo e seria capaz de te proteger de qualquer coisa. Fica sempre na minha mente uma fotografia de como se sente segura em mim e, aí está o mistério.

Que me respeitem os religiosos e os tradicionalistas, inclusive, que me compreenda Jesus, mas meu Natal não cai em dezembro; ele acontece de agora em diante todo dia 14 de abril. Você é minha religião, filha, do Gênesis ao Apocalipse. Talvez seja difícil para alguém que não tem filhos entender esse sentido de coisas, porque não é sentimento. Um rasgo no tecido do tempo, e de dentro dele, saltando como se fosse uma represa de vida que rompe a casca do ventre da mãe, nasceu um pequeno tesouro. Nessa parte estou incluído também, porque me sinto o próprio Sísifo, rolando uma pedra gigante e rindo de orelha a orelha, já que quando ela desce a montanha faz o barulho do seu sorriso, e eu posso sentir suas mãozinhas fazendo carinho na minha nuca.

Já fui muito mais crente, Bebela, o que não desautoriza minha forma desconjuntada de olhar para cima. Talvez seu pai seja atualmente o ateu mais crente do mundo, ou o crente mais cético que você vai encontrar – o que só te apresenta mais uma das tantas contradições a meu respeito com as quais terá que lidar; mas não se preocupa, o amor de verdade torna todos os loucos mansos. Desse lugar em que brigo com deus por permitir no mundo tanta desgraça, ao mesmo tempo em que tento disputar com ele a função de olhar só para a frente, espernear e dizer “deus, você é péssimo!”, também me faz bem imaginar que ele gosta de mim, e de festa, e de cerveja, e de Gabriel Garcia Marquez. Seu pai, vê só, acha que deus é um grande histérico, e que coisa fantástica! O mundo se colore com ele, o que torna mais fácil para que as pessoas sejam só elas mesmas. Fuja de uma ideia de sagrado que te diga que você está salva, meu amor; ou nos salvamos todos, ou esse salvador é só mais um iludido.

Ainda assim, penso em José da Galileia, o pai daquele Jesus de quem eu te contava logo no começo da carta. Você vai ouvir muito falar sobre a mãe dele, Maria de Nazaré, mas bem pouco sobre o pai. Isso é natural: a mãe é algo místico em si mesmo, seu único momento de totalidade foi ali, dentro daquela barriga, e por isso sua mãe é também um pouquinho mãe de Jesus e vice-versa. O pai não, é um estrangeiro que se atravessa, que chega nesse um e faz dois, para depois fazer três. O pai é uma cunha inserida na madeira da alma. Todo pai é adotivo, meu amor, mesmo que seja consanguíneo, porque ele é o de fora capaz de te trazer para dentro, ele gera e pare no mundo.

Lembro de José da Galileia, já que ele foi esquecido. Santo padroeiro dos trabalhadores, está ali escondidinho nas anáguas da história, porque um pai humano talvez pudesse constranger um Pai divino. Vejo você no meu colo e penso quantas vezes não foi ele quem fez Jesus dormir, para que Maria descansasse. Imagino a angústia de fugir para o Egito e depois o medo de ver o filho tão intenso em seu movimento de indignação, viajando e tentando convencer as pessoas de que é possível fazer diferente. José passou pelo mundo sem entrar para história, é um silêncio presente. Gosto de me ver como ele.

É natal de mentirinha e você não estará nos meus braços, porque viajará com sua mãe. Há uma família imensa e festeira para conhecer da parte de lá da sua genética, são pessoas incríveis quase todos. Mas você volta e vai me contar entre sílabas soletradas ao acaso cada detalhe do que aconteceu. Vou escutar, e entender, porque temos a nossa língua secreta. Nosso mundo precisa resgatar a esperança, ele precisa de um Jesus que seja capaz de incomodar, revirar, tirar a calma das pessoas; mas ele precisa de Bebelas também. A cada bebê, uma nova humanidade resiste. Você é minha religião sem deus, por isso te peço sua benção, meu amor. Feliz 25 de dezembro!


Vinícius Lara é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.


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