CONSTRUINDO OS DIAS DE GLÓRIA

2021 foi um ano permeado por dias de luta em excesso e dias de glória em escassez; até onde percebo, essa foi a realidade de todas as pessoas. Se essa não foi a sua realidade, olha… deixo aqui o meu inofensivo sentimento de inveja, e o desejo honesto de que seu próximo ano seja tão bom quanto este.

Acho que nada neste país aconteceu como esperávamos; a pandemia não acabou, 13 milhões e meio de brasileires seguem desempregades [1], 19,1 milhões de nós passam por situação de fome [2]. No âmbito público, não bastasse o desapontamento com a política ineficaz contra a crise, também temos a indignação com os crimes cometidos pelo governo e seus associados, com o descaso frente às necessidades da população, com a priorização de um lucro e de um moralismo criminoso em cima de políticas elaboradas em nome da preservação de vidas e de recursos. No âmbito pessoal, continuamos perdendo pessoas que amamos para a COVID-19, nossas rendas foram reduzidas; boa parte dos nossos empregos foi embora e nunca mais voltou. Não tenho provas, mas tenho convicção de que somos, hoje, uma população mais doente do que éramos antes de 2020, devido a toda essa situação… Se serviu de algo, porém, é bom pensar que tanta gente que já precisava bem antes começou a fazer terapia diante de toda essa avalanche.

Apesar de pensar que tudo de pesado do ano pode servir de aprendizado (não só para cada um de nós no âmbito pessoal, mas também para nós no cenário social e para os governantes que forem eleitos em 2022), confesso que, muitas vezes, penso que eu preferiria ter permanecido burra (rs). Termos sobrevivido é um milagre, e aqueles que têm alguma perspectiva para o próximo ano são raros. É claro que isso também é uma realidade para a Trama.

Nosso terceiro ano de publicação foi complexo, para dizer o mínimo sem entrar em detalhes. Você, que nos lê e acompanha, esteve em contato com as nossas conquistas: o registro do ISSN, a renovação da identidade visual, a criação de novas colunas, a remodelação do podcast, o trato com temas essenciais da nossa cultura e da nossa arte; tudo isso nos enche de orgulho, sim! Mas é que você nem imagina todo o trabalho e tentativas frustradas por trás de tudo isso. Novamente, aquela questão do aprendizado; mas se formos bem honestos, esperamos de verdade que o ano que vem seja melhor. E há de ser. A Trama é feita de pessoas; além de nós, editores, cada autor e cada artista que submete seus trabalhos à nossa curadoria é parte essencial do que idealizamos: um espaço democrático para que pessoas de diversos níveis de formação, de diferentes espaços da cultura, de prismas múltiplos em seu olhar sobre o mundo, possam trazer sua arte, possam falar de suas percepções sobre a arte e a cultura, possam trabalhar sua criatividade de conteúdo e forma, possam dialogar e construir. E quanto melhor estão as pessoas, melhor fica aquilo a que elas se dedicam.

A Trama não para, e frente a essa perspectiva de 2022 ser um ano menos difícil, temos novos planos para a nossa publicação. Ainda são segredo! Vamos contando para vocês aos poucos. Conforme a vida de cada um de nós vai se ajeitando, a Trama também se fortalece na retomada de antigos projetos, na criação de novos, na disseminação da arte e da cultura para cada vez mais pessoas.

Os dias de luta parecem que nunca vão acabar, e enquanto humilhados, esperamos a exaltação nos dias de glória. Nós, as carinhas por trás da Trama, porém, estamos nos organizando para criar esses dias de glória, com a ajuda de cada pessoa que nos lê. Estamos abertos a receber e a dialogar com quem quer que deseje ser exaltade conosco. Precisamos e desejamos cada um de vocês nesse espaço.

O ano foi difícil, mas graças a vocês, leitores e autores, passamos por ele firmes, e ainda nos resta ânimo e esperança para continuar. Pessoalmente, a Trama é um dos maiores orgulhos da minha vida, e eu não tenho palavras o suficiente para expressar a gratidão que sinto por cada um que vem a nós com suas criações, suas reflexões, sua atenção e seu tempo.

E que 2022 possa vir nos exaltar em seus dias de glória!


[1] Dado da Folha de São Paulo, de novembro de 2021.

[2] Dado da Rede Brasil Atual, de outubro de 2021


Carol Cadinelli é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama.


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