A ARTE DO ENCONTRO

“Se
nem
for
terra
se
trans
for
mar”

Leminski (2013, p.142)

Eu tentava insistentemente abafar os pensamentos que se passavam como nuvens em minha cabeça. Quanto mais eu tentava abafar, as nuvens se tornavam mais escuras e a chuva barulhenta dos meus pensamentos ecoavam no silêncio ensurdecedor do ambiente e do meu ser. Eu me rendo.

Nesse últimos meses eu estava me vendo como essa nuvem escura, que apenas chovia. Chovia muito. E apesar de gostar de chuva, não conseguia enxergar a beleza daquele momento caótico. A ambiguidade dos sentidos não me permitia enxergar a luz por detrás da escuridão. Em meio ao choro e a tristeza, que parecia não ter fim, fui convidada pela vida a levantar, porque a luz estava logo à frente, mas eu me recusava a caminhar.

Comecei a caminhar com a cabeça baixa e os olhos caídos. Fui para um lugar mágico, que nem sempre é tão mágico assim, mas, sem dúvidas, é um lugar de transformações. Nesse lugar, recheado de pessoas, eu diria, iluminadas, fui obrigada a levantar o olhar, fui obrigada a encarar meus medos de frente, fui obrigada a olhar nos olhos.

Que olhos lindos eu encontrei. Sempre gostei desse tipo de pessoa. Sim, essas que olham nos olhos e não tem medo de se despirem para o desconhecido ou compartilhar o que há de mais profundo no âmago da essência e da existência. Essas pessoas que não tem medo do encontro, que buscam aprender a arte do encontro em tempos de tantos desencontros.

Encontrei um par de olhos castanhos que me deixava intrigada, mas que não deixavam os meus olhos caírem. Olhos ímãs? Talvez. Não sei… Só sei que eles me buscavam. Também não sei o motivo de me buscarem, só sei que eu já não conseguia olhar para o chão. Queria descobrir mais sobre esse universo ainda tão desconhecido.

Para a minha surpresa, quanto mais esses olhos castanhos buscavam o meu olhar, eu buscava, mesmo que desatentamente, a olhar nos olhos de outros universos. Percebi o quanto eram diferentes, únicos e irrepetíveis. Sabemos que somos únicos, mas será que sabemos? Sempre achamos que existem universos melhores, enquanto a verdade é que existem universos. Nem melhores, nem piores. Apenas universos.

Esses olhares que escondiam universos, me mostraram a luz que existia dentro de mim. Ela estava ali o tempo todo tentando aquecer outros corações e o meu próprio coração, mas eu não deixava a luz passar. Hoje meu universo é mais complexo que antes. Sim. Eu sei que existem os dias ensolarados. Assim, como não tento afastar as nuvens escuras. Tem algumas semanas que chove muito, mas descobri a beleza do arco-íris. Como seria chato ser apenas luz, quando podemos ser luz, chuva e arco-íris. Não seria possível enxergar tanta diversidade se eu continuasse agarrada a momentos, que passam tão ligeiros. Dói deixar esses momentos passarem. Acho que o que dói mesmo é a saudade de encontros que se desencontraram.

Bom, esse primeiro olhar que iniciou minha transformação foi de um pequeno menino, que de pequeno não tinha nada. Esse foi o meu primeiro encontro depois de permitir me reencontrar. Esse lugar mágico onde essas mudanças de perspectiva começaram a acontecer é conhecido como escola: um lugar de imaginação, elevação e um convite a voltar a ser criança. Esses universos que me convidavam a ser menos dura e aceitar a complexidade do meu universo foram as crianças, que também me aceitaram e amaram o meu universo particular.

Não acredito que sou um ser humano melhor depois dessas experiências e enfrentamentos, mas, sem dúvidas, sou um ser humano em transformação tentando praticar a autotranscedência e o amor ao próximo. E, não posso esquecer, tentando encontrar outros olhares e perspectivas em cada universo colorido em que me deparo. Tentando procurar mais olhares que buscam se encontrar. Tentando encontrar mais afeto em cada olhar.


Referência: LEMINSKI, Paulo. Toda Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


Lívia Rinco é amante de uma boa caminhada sob a natureza, estudante de Psicologia, gosta de levar a vida inspirada em notas musicais e poesias.


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