O QUE NÃO FOI

Me ensinaram que, se quisesse escrever uma boa história, precisava seguir uma linha narrativa. Sabe isso de você dar intenção? Não palavras jogadas soltas; coisas organizadas. Pensamento estruturado. Uma intenção calculada. Estou sempre tentando. Não chego; porque este presente que você não conhece me
afeta. Transforma em linha aquilo que não agarro. Este é meu falso poder: sofro com cada verbo a mais. Sofro com tudo aquilo que não foi. Busco ser outra para ver se me aguento. Mas sou feito água: quando seguro um braço, ele já é outra coisa, foi-se. Então, me repito.

Tenho algo em mim que é sempre mais do mesmo, e que em variáveis só modifico a forma em linha. Todas as vezes, escrevo o mesmo texto. Se o decorar assim de cá para lá, quem sabe eu encontre essa coisa que falta – e que de algum modo, mesmo que você nunca tenha me dito: sei que é assim para você também. Se nada me vier, ficarei parada, e amarrei na minha linha nem que seja o intragável. O corpo que se decompõe é sincero: ninguém diz que não está morto. Quando se é só ausência, se é. Não poder ser outra coisa é o que te torna alguma coisa. Frase errada.

Coloquei o putrefato a um só gole na garganta. Eu cuspo. Tomo água. O gosto não sai. Não devia ter aberto a porta, mesmo que ela nunca estivesse trancada. Não devia escrever coisas que preocupam; “é, eu li; vi pelos teus textos que a situação era preocupante’’. Como eu explico que era ali, na paz do pus branco amarelado, que eu vivia? Como eu explico que nos meus silêncios de dentes abertos, morri meses intoleráveis? Que preciso me sangrar e sentir o cheiro ocre para ver aqueles tais contornos no céu?

Por que não me mostraram a casa antes? Seis quartos. Chão de madeira. Camas brancas “deite à vontade’’. Que casa linda! É bem maior que a minha. Quem era aquela vó que eu nunca vi? E aquele homem? Barriga avantajada sentada nessas cadeiras de tiras verdes de plástico em frente a televisão… Se tivessem mantido o hábito de conversar em alemão, seriam a Oma e o Opa. Não falavam; o português se incrustou nas mentes. Esqueceram a língua materna, de uma mãe que nunca fui deles. Mentira. Não me eram próximos, se eu soubesse algo dessa língua de limpar gargantas seriam Großmutter e Großvater. Não nos conhecíamos. Não éramos próximos. Me tiraram a imagem da casa. Era para eu rememorar sem
lembrança. Sabe isso de conhecer desde sempre? Como uma coisa só tua. O teu lugar. Seguro. Alinhavado na ficção de tuas memórias. Não era meu. Nenhuma terra me foi.

Passei anos a seis quilômetros de distância dali, longe de uma parte minha; escondida sem saber que me escondiam. O pai não podia voltar; se aparecesse, matavam ele. Dessas mortes honrosas. Quem deve não presta, e quem presta não deve. Alguma coisa estranha nessa ordem. Será que se sente a falta daquilo que nem se sabe que existe? Com quantos anos uma criança sabe que vó são duas e vô são dois? Será que isso que pulsa deslocado é mais daquilo que ainda não sei e deveria ter sabido?

Do vô da cadeira, não recebi um único abraço. Eu gostava de olhar a barriga dele: o umbigo era saltado. Narrava na mesa as notícias dos sete jornais que assistia por dia. Da televisão da sala para a do quarto com parabólica, o alcance genuíno entre o regional e as notícias dos estados que importam. Uma das últimas coisas que me disse, pouco antes de morrer foi: “se está no jornal é verdade, você vai saber disso, Luiza’’. Nunca nenhum jornal me contratou, então não sei. Por certo que sim.


Luiza Possamai Kons é mestre em Artes pela Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), no ano de 2021, e graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no ano de 2017. Entende a literatura e a fotografia como ferramentas políticas para refletir as relações e os vínculos. Em seu processo de criação discute gênero, pertencimento e as imagens que não foram.


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