matisse: um apaixonado das cores

< Há duas maneiras de exprimir as coisas: uma é mostrá-las brutalmente, outra evocá-las com arte> H. Matisse

Gostava de retocar a obra, em busca de revelar a essência do objeto ou do modelo, incluindo reconhecer nele a condensação das suas sensações. Essas, que representavam o seu espírito. As cores, inventadas. Vai se colocando “até ficar parecido” (ARTE, p.42) ou, ainda, que o objeto do interesse estivesse tão profundamente pulsando em todo o seu ser, de modo a deixar a mão ir, leve, despreocupada, ligeira, fluindo em direção a “não precisar mais saber desenhar” … (ARTE, p.322).

Platão dizia algo como: “O novo é aquilo que possuímos de mais antigo. Pois a novidade não existe. O que existe é a recordação” (CALASSO, p.169).

Matisse reconhece que o artista capta o novo na repetição, manifestando, assim, a sua capacidade de criação. Pois uma vez que o novo é aquilo que possuímos de mais antigo, a sua criação se dá a partir do que já está em sua interioridade, isto é, todas as emoções e sentimentos do mundo!…

O que explica em grande medida, à parte a sua esplêndida técnica, ele ter se tornado um interminável inventor de cores.

Pensar, mas, principalmente, sentir. A exatidão não é verdade. Ela se exprime muito mais e melhor pelo caráter do artista que dá vida ao desenho, através da paixão em seu espírito.

Como por exemplo: “conceber o corpo de uma mulher que dança por conta da visão anterior do movimento e da graça esbelta de uma bela acácia” (ARTE p.113).

A recordação inconsciente do artista, que se enriquece e se constrói a partir do que está em seu campo visual, faz com que o novo nunca deixe de fluir à consciência, tornando o pintor um poeta da criação, por meio de um colorido tão inexaurível quanto o leque de emoções de onde ele nasce.

Esse processo se traduz numa constante busca para encontrar o segredo da expressão pela cor, na organização das sensações e emoções, a partir da relação da alteridade com o artista. 

O segredo da música ouvida do coral das cores entrando pela ampla janela, roteiro de passagem entre o cenário exterior e a paisagem interior, um dos temas preferidos de Matisse.

A verossimilhança não tem importância, mas sim o espírito do objeto sob o qual o artista dedica a sua mais profunda atenção, penetrando-lhe tão singularmente, que as cores surgem como expressão desse caráter ou essência, encontrados como um segredo sussurrado por um conjunto de cores em sintonia com as emoções mais exatas.

De tal forma que o autor, então, se deixa improvisar, pois o objeto contemplado já se tornou parte dele. A mão já pode ir ao encontro do desenho, da figura e da composição, deixando fluir o colorido que expressa o espírito partícipe daquela obra, que é ele mesmo….

Basicamente, as cores, para Matisse, são como a expressão do seu espírito. A linguagem do seu inconsciente. Como a habilidade visual singular traduzida numa comunhão com o objeto representado, que se transforma em parte do seu espírito, fonte da sua emoção.

As cores não têm fim. Como não têm fim seus sentimentos, sua paixão pela vida e seu amor pelas coisas:

“O pintor deve estar à frente do modelo sem ideias preconcebidas. Tudo deve chegar-lhe ao espírito como numa paisagem lhe chegariam todos os seus odores: da terra, das flores associadas aos jogos das nuvens, aos movimentos das árvores e aos diferentes ruídos do campo”. (ARTE, p.169).

A cores têm uma beleza que é delas. Elas têm o poder de expressar as emoções, sem serem, necessariamente um elemento de descrição de algo ou de alguém.

Nas palavras de Matisse falando aos jovens artistas: “O futuro pintor deve (…) ser uno com a Natureza, identificar-se com ela, incorporando-se nas coisas (…) que estimulam as suas sensações.

(…) Se o desenho deriva do Espírito e a cor dos sentidos, há que desenhar para cultivar o espírito e ser capaz de conduzir a cor pelos caminhos do espírito.

(…) É só depois de anos de preparação que o jovem artista tem o direito de tocar nas cores

– não nas cores como meio de descrição – mas como meio de expressão íntima”. (ARTE p. 321)

O artista deve conquistar a coragem de ver as coisas como se fosse a primeira vez, pois a criação se inicia na visão. Colocar em andamento o processo de ver as coisas na sua verdade, na sua expressão mais genuína, o que se configura num esforço continuado de expressar o seu interior, os sentimentos, a partir dos elementos que o mundo exterior oferece, até que este se torne um com o artista…

Ver o mundo com os olhos da criança. Olhar virgem de preconceitos, de imagens repetidas como sombras das originais.

Uma vida singular de alguém que vive de forma a encontrar a maneira mais verdadeira e própria de expressar os sentimentos de alegria, e beleza através das cores, de modo a “tornar doce tudo que é amargo” (DRUMMOND, p.62), numa eterno embate entre o seu mundo interior e a necessidade de organização em seu processo criativo.

“Matisse rebatia as acusações de que sua arte era meramente decorativa, por acreditar ser esta uma qualidade essencial de uma obra de arte, não algo pejorativo. Queria que seu quadro emanasse, por meio das cores, alegria que deixasse o ambiente mais leve, da mesma forma expressiva que um buquê de flores” (DRUMMOND p. 62)

Viveu buscando ser fiel a sua própria essência, na medida em que praticou, em seu exercício de criação, apresentar a natureza daquilo que representava em suas obras, encontrando a cor exata dos sentimentos ali expressos.

Isso dignificou o seu espírito, pois era através dele que filtrava as mais diversas emoções, e se fundia ao objeto encontrado ali, nas suas telas, que muito mais do que decorativas, eram e são fonte de felicidade, bem-estar e beleza que só quem tem coragem de olhar a vida com a atenção necessária, deixando-a entrar por todos os poros das emoções, transformando-as em sentimentos coloridos no tom certo e sem erro de cálculo, pode ser chamado de Artista, verdadeiramente….

Esse prazer usufruímos quando diante das suas obras. Percebemos, mesmo que intuitivamente, que o colorido tem uma personalidade que não é fugaz, que expressa algo de próprio, de duradouro, de verdade intrínseca, que até hoje comove e nos convida a fazer parte dessa amizade que Matisse dedicava às coisas do mundo.

Como resultado, a obra de Matisse foi uma ode de amor à vida na sua variedade e pertinência. Como uma mensagem de paz e entrega dos seus mais caros e íntimos sentimentos para todos nós, apreciadores da arte como sinônimo de fruição da existência no que ela tem de mais generosa e espontânea…


CALASSO, Roberto. As Núpcias de Cadmo e Harmonia. trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo. Edições Cotovia. Lda., Lisboa, 1990.

DRUMMOND, Maria Rita. É preciso ver a vida com olhos de criança.

Revista Getúlio n.18 (2009); Ano 3 – novembro/dezembro.

MATISSE, la reinvención constante. Punto al Arte. Disponível em: Puntoalarte.blogspot.com/2016/matisse-la-reinvencion-constante.html. Acesso em: 23 Out. 2021.

ARTE mueve tus emociones y no te deja indiferente. Estes Escritos e Reflexões sobre arte. trad. Maria Teresa Tendeiro. Editora Ulisseia Lda, 1972


Marina Alexiou é mestre em Filosofia pela PUC/SP e estudiosa das Artes. Escritora de prosas poéticas desde 2009, participou do livro “Coimbra em Palavras”,  lançado em Portugal em 2018. Gosta de colecionar belas imagens, pois elas a levam para o seu mundo simbólico inspirando a sua escrita.


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