SOBRE A EFEMERIDADE DAS RELAÇÕES

A palavra efêmero, de acordo com o dicionário, significa tudo aquilo que é breve, passageiro, transitório ou temporário. Originário do grego “ephḗmeros” o termo significa “o que dura um dia”. Bom, sabemos que um dia é o equivalente a 24h, o que para alguns pode significar muito tempo e para outros o mesmo que um sopro. Mas, afinal de contas, quanto tempo é tempo o bastante?

Existe uma antiga lenda da mitologia japonesa que conta a história de Konohana Sakuya Hime, conhecida também como a Deusa do Monte Fuji. Segundo a história, Sakuya era dona de uma beleza inigualável e sua figura é acompanhada por um vasto simbolismo de cura, longevidade e compaixão.

Mas, para além disso, a deusa também representa o efêmero e tem como um de seus principais símbolos a flor de cerejeira, famosa por sua floração que dura apenas uma semana após germinar. Há várias histórias envolvendo a flor de cerejeira e em sua maioria elas falam sobre a importância de se aproveitar as experiências da vida de forma intensa, sempre destacando a efemeridade das relações.

Desde sempre, os contos de fada e os filmes românticos nos contam histórias que tendem a terminar com o famoso “e viveram felizes para sempre.” Nos é vendida uma ideia de que grandes amores duram anos e enfrentam as barreiras do tempo. Eu poderia discorrer sobre a ingênua ideia de felicidade eterna, como se a felicidade significasse uma constante e não um sentimento que vai e volta, e vai novamente. Mas eu gostaria de me atentar para a ideia do “para sempre”, o conceito de eternidade que em sua grandeza é tão superestimado, como se um grande período de tempo fosse sinônimo de qualidade.

A volatilidade das situações muitas vezes reforçam a necessidade, que acreditamos ter, de que algo em nossas vidas dure para sempre. Dessa forma, nos apegamos a ideia de eternidade porque em algum âmbito ela pode ser reconfortante.

Por exemplo, os amores ao meu redor sempre foram transitórios, nunca duraram tempo o suficiente, pelo menos, não pra mim. Mas às vezes eu penso que esse sentimento, de que nada dura tempo suficiente, é fruto de uma construção do eterno que faz parecer que o tempo que temos nunca é o bastante e que sempre precisamos de mais. É engraçado pensar que muitas vezes vivemos a vida buscando por algo eterno, sendo que a própria vida não passa de uma fração.


Por outro lado, eu sempre fui fã de grandes histórias, de amores que duram uma vida, de amores que dão significados a vida, mas a noção do efêmero, tão poético em seu dizer, ressignifica o conceito do amor, sendo assim, um tipo de benção amaldiçoada que ao mesmo tempo que encanta dói.

Na maioria das vezes não é fácil se despedir de alguém que durante um tempo foi tanto em nossa vida, não é confortável reaprender uma rotina que não envolve mais esse outro, tampouco é agradável deixar partir.  Ao mesmo tempo é incrivelmente bom se permitir ao novo, se abrir para novos toques, novas formas de sentir e quem sabe, até mesmo amar. O efêmero é um dos deuses do tempo e talvez ele seja um dos mais complexos, pois ele permite que sejamos junto com o outro mas que continuemos a ser quando estamos sós, pois nós também somos momentos.

É um deus que se manifesta entre um encontro e outro, sempre nos ensinando que tudo é passageiro. O efêmero é a única certeza que temos antes da morte e tentar negá-lo, é de certa forma, negar a vida que acontece ao longo dos nossos encontros e desencontros.


Camila Wendling tem 24 anos, é redatora e graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Amante dos romances e das boas histórias. 


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