“ESCREVER É MUITO DIFÍCIL”: ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE A MITIFICAÇÃO DA ESCRITA

Nas classes com as quais já trabalhei, do Ensino Fundamental à Graduação, “Escrever é muito difícil…” sempre foi a enunciação mais frequente. Nessa frase, concentra-se a descrença do aluno na própria capacidade de produzir um texto consistente. 

Embora diversos fatores contribuam para essa dificuldade de escrever – tais como a prática restrita da leitura e a falta de uma cultura da pesquisa no Brasil – acredito que um deles é essencial para que os estudantes concebam a produção textual como uma atividade extraordinariamente difícil: a mitificação da escrita. 

A essa mitificação, dirigem-se as reflexões[1] de Maurizio Gnerre: a aquisição da escrita seria o passo definitivo para que grandes massas mergulhadas nas culturas orais abandonassem valores e forma de comportamento “pré-industrial”, tornando-se mais disponíveis para processos de industrialização e cooperando, decisivamente, para a melhoria da sociedade.

A mitificação da escrita encontra suas raízes no papel assumido, no decurso histórico, por essa modalidade linguística: contribuir para a sistematização do saber. A escrita, cuja função primordial foi a preservação dos traços iniciais de produção científica, vem sendo sublimada em decorrência da própria sublimação da ciência, promovida a sustentáculo da sociedade contemporânea (portadora da qualificação precisa de sociedade científica), que elegeu a escrita como o prestigioso meio de conservação dos produtos da atividade científica.         

A atuação de um grupo específico de profissionais é determinante para a mitificação dessa modalidade linguística. Em determinados aspectos, o discurso desse grupo – composto por advogados, jornalistas e professores (principalmente, os de Português) – associa-se à concepção da escrita como um “patrimônio de iluminados”. Ao disseminar tal concepção, esse grupo de profissionais contribui para que não se perceba no aprendizado da escrita uma certa naturalidade que lhe é intrínseca. Como ocorre com várias outras atividades humanas, o aprendizado da escrita requer, fundamentalmente, concentração e exercício regular. 

Quando se mitifica o ato de escrever, essa visão objetiva do aprendizado da escrita é substituída pela crença de que escrever é para alguns iluminados, de que a produção textual cabe àqueles ungidos com o “dom de escrever”. A consolidação dessa visão mítica da escrita ocorre nas aulas de Língua Portuguesa, nas quais ainda se confunde a escrita proficiente com a escrita artística. 

É necessário esclarecer: ninguém precisa escrever literariamente para escrever bem. Os recursos para se elaborar um texto consistente estão desvinculados das estratégias de produção literária. Ao pronunciarem a célebre frase “Será que nessa classe há um novo Machado de Assis?”, os professores de língua materna reforçam a mitificação da escrita, mostrando-se desatentos aos alunos que escrevem proficientemente sem recorrer a meios de expressão literária.

Também sou professor de Português. Não quero depreciar a classe, já suficientemente submetida aos olhares severos de vários segmentos da sociedade. Estou, apenas, propondo um exercício de autocrítica, que nos leve a reconhecer nossa contribuição para que a escrita seja aprisionada numa “torre de marfim”, aprisionamento que dificulta consideravelmente o aprendizado da elaboração textual.  Não precisamos de novos Machados de Assis (um só já foi suficiente para revolucionar a literatura brasileira, nivelando-a com a melhor produção de Shakespeare, Dante, Cervantes, Goethe, Balzac e Tchekhov). Precisamos de professores que estejam dispostos a adotar uma nova mentalidade, que estejam determinados a difundir uma visão mais ampla da língua e a desmitificar a escrita.


[1] Cf. GNERRE, Maurizio. Linguagem, escrita e poder. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.


Saul Cabral Gomes Jr. nasceu em Belém (PA) e graduou-se em Letras (Licenciatura em Português e Inglês) pela Universidade da Amazônia (2001). Possui mestrado (2006) e doutorado (2011) em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Em 1998, obteve o 4º lugar no Concurso Nacional de Contos “Cidade de Araçatuba”. A produção do ensaio O romance regionalista: do panorama ao perfil lhe valeu o prêmio “Carlos Nascimento”, concedido pela Academia Paraense de Letras em 2002. Em 2020, publicou o livro Entre a História e o discurso: olhares sobre a obra de Gladstone Chaves de Melo.


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