A FÊMEA E A FÚRIA (OU: POR QUE PUBLICAMOS MULHERES EM CASSANDRA?)

Como uma artista feminista, eu preciso confessar: estou constantemente furiosa. Percebo a cada resultado de chamadas abertas, a cada nova onda de publicações de autores contemporâneos, a cada pequeno ato de reconhecimento, que somos uma minoria constante.

Por vezes, entre 25 selecionados, figuram 4 mulheres. Por vezes, sinto, somos meramente decorativas.

O impulso de fazer parte da revista cassandra veio muito dessa fúria, do desejo de inventar um mundo novo onde fôssemos prioridade, subvertendo a lógica imposta pelo mercado editorial, seja ele o das grandes companhias ou de novas iniciativas literárias. Se nos recusam o espaço, por que não inventá-lo?

As escritoras mulheres no Brasil tem sido reitaradamente reduzidas em sua força criativa. Há temas que nos são permitidos e temas que nos são impedidos. Mesmo as mais estabelecidas entre nós vivem dilemas que seriam absurdos para homens. Lembro sempre de duas histórias emblemáticas: Orides Fontela, poeta excepcional, que cometeu o pecado capital máximo para mulheres, o de nascer feia numa sociedade que nos valoriza apenas por nossa habilidade de ficar bem numa fotografia. Orides morreu como indigente num hospital, reiteradamente recusada em sua poesia – mais experimental, bonita e potente que muitos cânones masculinos que lemos na escola. A chamavam “megera”. Mas não se engane, as belíssimas também não escapam safas e ilesas. Lygia Fagundes Telles, potencialmente a maior contista do Brasil, conta que em dada ocasião quiseram lançar uma coletânea sua com uma fotografia imensa na capa. Ela, no auge de sua dignidade, pergunta ao editor se fariam o mesmo com um homem. Queriam estampar-lhe a cara, bonita, acreditando que essa venderia mais livros que a maravilha de sua prosa. Ela vetou. Conta também que no início de sua carreira, quando conheceu Clarice Lispector, ouviu da ucraniana-radicada-carioca que era preciso evitar fotografias sorridentes caso quisesse ser levada a sério como escritora. Imagino que nenhum homem artista precisa se preocupar com esses mínimos detalhes. Sobra mais tempo para a arte.

Além disso, os homens ainda são pouquíssimo responsabilizados pelos trabalhos reprodutivos, aqueles de manutenção da vida doméstica e dos filhos. Para muitas de nós, o tempo criativo é o que sobra entre dias conturbados tentando manter vivas e alimentadas as crianças, tentando manter a casa habitável, tentando pagar todas as contas. O gargalo macho-centrado das publicações é apenas mais um dentre nossos muitos problemas. Na ideia de sanar, ao menos em parte, esse problema, pensamos cassandra como uma vitrine que permita às mulheres expor seus trabalhos artísticos sem amarras temáticas ou de formato. Nosso interesse é na produção real dessas mulheres, nosso desejo é que suas vozes sejam amplificadas. Nosso sonho é conseguir, através disso, que mais e mais mulheres se sintam livres, a vontade para se colocar como artistas nesse universo que ainda nos evita tanto. Bem vindas, fiquem a vontade, tomem seu tempo: em cassandra quem diz o ritmo somos nós.

Vivas e gritando, seguimos.


cassandra é um grito. revista de artes e literaturas feitas por, de e para mulheres.

Cecília Lobo veio ao mundo em uma sexta-feira 13, em Belo Horizonte, cidade que atravessa muito sua produção literária. Não se lembra de um mundo antes de aprender a ler. Escreve desde sempre, mas é escritora há menos tempo. É poeta, escritora, mãe, professora de inglês e desenvolve trabalhos de tradução e revisão. Gosta de estudar por conta própria, é uma leitora voraz e resenhista inconstante. Seu primeiro livro, Inflamáveis, venceu o prêmio Poesia Incrível de 2019 e foi lançado em dezembro do mesmo ano pela editora Crivo em parceria com a Fundação Municipal de Cultura da Prefeitura Municipal de BH. O segundo, Labiríntica, foi escrito no início da pandemia de Covid-19, e selecionado no edital de publicações literárias da Lei Aldir Blanc no âmbito do estado de Minas Gerais. É editora da cassandra e faz parte da equipe de poetas do portal Fazia Poesia. Foi publicada na revista da editora Trevo, nas revistas digitais Mallarmargens, Contempo, Contexto, Desvario, e na revista impressa Chama.


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