ROADTRIP [POEMAS ESCREVINHADOS À BEIRA DA ESTRADA]

A Pedra [a partir de uma frase de Wolfe em um jantar na Bourgogne] 

Tentar outra vez
Tentar até exaurir a parede da veia que pulsa
isto é
Que insiste em estar viva 
E errar melhor
Errar copiosamente bem
Porque o homem é um animal que tropeça
Porque a pedra não é a exceção, senão a regra
Porque o poema não é um acerto,
senão um tropeço executado em passo de dança
Stone Tree (2021). Henrique Grimaldi. Nanquim s/ Papel (Negativo).
Súbito [limpar a sombra dos olhos é mais simples em Auvergne]

Desabotoar a manhã
Inaugurar a poça
Colher a neblina
Deixar arder - os dedos - no ar azul
Capturar o oxigênio como se a última vez
Nomear apenas as folhas mortas da amoreira
Retificar a antiguidade da pedra
E a mudez do bicho - no pátio - 
Traduzir o canibalismo das aranhas
E o dialeto que se faz, quando em brasa, a madeira lamenta
Perceber
Súbito
Que a saudade é o único direito inalienável
E que te faz falta o grão da primeira neve
Que cessa antes mesmo do primeiro pouso
Onde há carne, há [subitamente] moscas (2021). Henrique Grimaldi. Nanquim s/ Papel (Negativo).
Noturno com telescópio [Bretagne, no outono]

Veja bem como a figura do santo esfarela
Ao traço do primeiro mapa cosmológico 
E logo retesa a chaga
Em tez imaculada 
Própria da tensão
Que se ensaia
Entre credulidade e incerteza
Própria
De quem acompanha a queda
do último argonauta
e a calvície da última árvore
Própria a quem declara
Ser chegada a hora do sossego
Própria de quem toca a ferida aberta
Na palma da mão 
De Deus
Própria
De qualquer Deus.
O Bretão (2021). Henrique Grimaldi. Nanquim s/ Papel (Negativo)
Ne m'appelle jamais Honey Boo Boo [tarde na Normandia]

A menina ruiva esculpe castelos instantâneos a cada recuo do mar. Dois pra lá, dois pra cá. É uma dança, a menina a onda e o granulado ardente do saibro que poderia bem ser testemunho da pedra em que São Tomé recostou-se após roçar a ferida aberta de Deus. Um senhor beberica pela vigésima primeira vez e sem vontade a mesma taça de vinho apenas para afastar os garçons que miram com voracidade de urubu. Dedica-se, no espaço entre cada gole, a milimetrar o crescimento das cutículas. Uma senhora de setenta e tantos anos separa em círculos concêntricos a clara de dois ovos fritos. Come somente os aros ímpares da massa branca e as gemas, as oferece a um cachorro. Um policial recostado em uma viatura retira todas as balas de sua arma, as deposita em sua perna e as toca suavemente com a ponta do indicador, nomeando-lhes atentamente. No vão entre cada projétil sabe que deve rezar uma ave-maria ou cantarolar billie jean de michael jackson. Um pintor de paisagens dá ao céu um vermelho que não existe. Por quatro minutos encara a tela e suspira. Em um normando muito antigo dá-se por vencido, ‘de irreal basta o mundo’ e cobre o rubro com o cinza mais feio. Dizem que todo ano ao menos um bicho é pego pelo solo lodoso de Saint Michel e que este é o preço que o fantasma do monge cobra para manter limpa a efígie do santo. À beira da estrada duas mocinhas de mãos dadas aguardam  - solenes - um carro que as possa levar a qualquer lugar próximo de casa. Já não é época da apanha das maçãs e nos pomares apenas as insistentes [les oubliés]. Eles, os homens, como bem o fazem, ignoram que todo fruto, sobretudo os tortos, absolutamente os tortos, sobejam em lucidez.
Le Pendu [antigo campo de batalha na Aquitânia]

ali as árvores, 
antigas e truculentas árvores, 
reconhecem - sem detença, e de memória -
o peso 
dos homens 
Le Pendu – Jeu  (2021). Henrique Grimaldi. Nanquim s/ Papel (Negativo).

Dans une terre grasse et pleine d’escargots

ROADTRIP [POEMAS ESCREVINHADOS À BEIRA DA ESTRADA] é composto por escritos desenvolvidos como cartografia afetiva do autor durante algumas viagens de carro pelo interior da França (2021).


Henrique Grimaldi Figueredo é Doutorando em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, Brasil) e pesquisador visitante na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS, França). Atua como editor executivo do periódico Todas as Artes, sediado no Instituto de Sociologia da Universidade do Porto (UPorto, Portugal).


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