PRIMEIRA ORAÇÃO

Os anjos da guarda me acompanharam por toda a vida. Este é o ritual da minha família: quando uma criança está prestes a nascer, cada mulher a presenteia com uma minúscula estátua de resina de anjinho. Alguns estão ajoelhados rezando, outros louvam os céus com as mãos levantadas e existem os mais raros que tocam harpa. 

Nas mais de quinze mudanças de casas que fiz durante os anos, os levei comigo. Alguns perderam pedaços de asa e outros ficaram pela metade, uns sem cabeça, outros sem os pés. Ainda assim, sempre encontrei um lugar para expô-los nos abafados apartamentos onde morei. As visitas chegavam e sempre os descobriam em alguma prateleira. São assustadores, as amigas mais próximas costumavam me alertar e eu concordava — protegem só dos medrosos.

Na última semana, quando finalmente me arrumei na moradia nova — que de nova talvez tivesse apenas a minha televisão comprada em 2012 — mamãe veio me visitar com uma amiga. Nos sentamos à mesa para o café sob olhar divino dos anjos ainda disfarçados entre as plantas no canto da sala. Antes de ir embora, Deca foi à janela e descobriu as estátuaszinhas. Não sabia que sua filha era religiosa, Madá, és religiosa, menina?

Os quadros não estavam nas paredes ainda, de forma que a pergunta ficou ecoando pelos dois cômodos, batendo no quarto e voltando à sala. A semana inteira. Nunca pensei nos anjos como expressão de minha religião. Até porque eu não tenho nenhuma e se existe um deus (perdão, Deus), ele (ou Ele?) está chateadíssimo com a minha falta de educação de sequer agradecer pela vida e pelo dia de hoje  — que, por sinal, foi péssimo, ainda assim a gente precisa agradecer? 

Aquelas estátuas de resina me encaram com os olhos perdendo a tinta e brilhando no breu do apartamento escuro. Ainda que não à toa eu esteja viva e elas estejam por perto, como quem procura explicação divina para cotidianos, só consigo olhar para elas e ver mulheres. A maioria já morreu. Sobraram duas tias — das onze — e mamãe, que quebrou o protocolo e também quis me presentear no nascimento. 

Eu certamente não sou uma pessoa de fé. Não acredito nos padres ou nos políticos ou nos médicos. Sempre espio eu mesma o meu exame de sangue e causo certo pânico nas clínicas porque levanto da maca de ultrassom durante o procedimento para analisar meu corpo por dentro na tela. 

Nos anjos, também não acredito. Quando ando numa rua escura e sinto a aproximação de um homem nas minhas costas, não seguro na mão de anjo da guarda nenhum. Mas penso em mamãe. Ela me ensinou alguns golpes para me defender. Coloque as chaves entre os dedos e esteja pronta para correr, o primeiro ensinamento da vida na cidade.  Quando criança, até rezava com vovó, mas abria os olhos para tentar descobrir como ela conseguia mudar a voz e de onde tirava aquelas palavras que eu nunca tinha ouvido. Talvez não sejam os anjos os protetores da história. Eles não fazem nada, são estátuas destruídas pelo tempo e pelo descuido. Mas insistem no convite de botar fé nas sutilezas (como dizem os primos mais novos a quem também presenteio com anjos). E eu aceito sem reparar: boto uma fé teimosa na lembrança das mulheres mais velhas. Elas me aproximaram do mistério e é sob seus olhares que eu permaneço a caminhar.


Fernanda Zeloschi é estudante de Psicologia, escritora teimosa e acredita nas faíscas do afeto através do @fazerafetar


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