METALINGUAGEM E HUMANISMO: PULSAÇÕES DE CLARICE LISPECTOR

A escritura de Clarice Lispector se caracteriza, essencialmente, por ser exegética. Em uma tentativa obstinada de interpretar a realidade humana, a autora entretece o místico, o mítico, o filosófico, o dramático, juntando-os em uma interpretação global do ser humano.

Na exegese empreendida por Clarice, sobreleva-se a constatação de que o indivíduo está preso em sua linguagem, que o condena a uma diminuta capacidade expressiva. As palavras das quais se utiliza o ser humano não abarcam sua intenção comunicativa, sufocada pelo dizível. Fora do alcance da linguagem, está o indizível, aquilo que o falante concebe, mas não consegue – dentro dos limites impostos por sua linguagem – expressar. O cerceamento expressivo, inerente à prática linguística do indivíduo, faz-se evidente para G. H.: “A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível”[1].    

Na camada externa do texto clariciano, demonstra-se a limitação expressiva do indivíduo, propriedade humana apreendida a partir de um constante exercício metalinguístico, intrínseco à produção literária da Terceira Geração modernista, à qual Clarice se vincula cronologicamente.

Na camada interna – particularmente na forma como a composição da autora está organizada – revela-se o meio encontrado por Clarice para, na condição de escritora, transpor a sua delimitação expressiva: a fusão entre a sua linguagem (de ficcionista) e a do leitor. Com o objetivo de efetivar essa fusão, a autora prioriza as entrelinhas, isto é, os espaços existentes entre as palavras expressas no texto, as lacunas em que a enunciação do autor, propositalmente vaga, é substantificada pela visão do leitor. Pode-se afirmar, portanto, que a linguagem clariciana se caracteriza pelo empreendimento da retórica do silêncio, isto é, pela exploração da ausência da palavra, que, na obra de Clarice, mostra-se e recolhe-se, deixa-se entrever buscando sempre se ocultar, em um contínuo movimento que visa à preponderância das entrelinhas.

Ao fazer das entrelinhas o constituinte primordial de sua escritura, Clarice atribui ao leitor o papel de completar o sentido da enunciação literária. Nessa perspectiva, a concepção clariciana de literatura se iguala à de Jean-Paul Sartre: “uma vez que o artista deve confiar a outrem a tarefa de completar aquilo que iniciou, uma vez que é só através da consciência do leitor que ele pode perceber-se como essencial à sua obra, toda obra literária é um apelo”[2].

Por se manter vinculada a essa concepção, a literatura clariciana apresenta um cunho eminentemente interativo. Evidencia-se tal caráter ao se perceber que é na ação conjunta entre Clarice e o leitor de sua obra que se baseia a construção dos sentidos no texto clariciano. A autora recorre, portanto, à consciência de outrem, em conformidade com a preconização de Sartre: “Escrever é, pois, ao mesmo tempo desvendar o mundo e propô-lo como uma tarefa à generosidade do leitor. É recorrer à consciência de outrem para se fazer reconhecer como essencial à totalidade do ser; é querer viver essa essencialidade por pessoas interpostas”[3].

Dessa maneira, a obra clariciana abre-se para o leitor, que participa diretamente na urdidura literária de Clarice. O espaço destinado à ação do leitor é um componente essencial da obra literária, conforme propõe Umberto Eco. Voltando-se às proposições do semiólogo, Maria Luíza Ramos explana: “[…] diz o autor que toda obra, ainda que apresente uma forma acabada e ‘fechada’ no seu organismo […], manifesta-se ‘aberta’, se se considera que pode ser interpretada de diferentes maneiras, sem perder, contudo, a sua configuração original”[4].

Na obra de Clarice, sublima-se a proposta de Eco, instaurando-se uma visão estética na qual, para o autor, importa exprimir, visto que o conteúdo da expressão seria procedente não da atitude do artista, mas da compreensão do leitor. Nesse sentido, verifica-se uma confluência entre a concepção estética da ficcionista e a de Fernando Pessoa: “O essencial na arte é exprimir; o que se exprime não interessa”[5].

A inclusão do leitor no processo de construção textual assinala a ficção clariciana, na qual se estabelece uma sólida inter-relação de autor e leitor, cujos desempenhos de sujeitos, na comunicação literária, asseguram a constituição do sentido. Atente-se à afirmação de André Niel: “Várias vezes já falamos de relação e de comunicação. Na verdade, tais termos evocam uma operação fundamental no processo da linguagem, pois é no campo da inter-relação(entre os sujeitos polos de pensamento) que se constituem sempre as sínteses de sentido”[6].

Ao reunir escritor e leitor em um processo de intercomunicação, a literatura clariciana assume um caráter essencialmente humanista, fundamentado em um permanente diálogo, como destaca Olga de Sá: “Seu leitor [o de Clarice] é sempre a mão que segura a sua, e isto sustenta a possibilidade de diálogo. A estrutura mínima de sua narrativa. Seu leitor não pode ser reduzido a um ouvido à escuta, mas tem de ser mão que tateia”[7].

Nesse diálogo, a universalidade das experiências profundamente humanas brota na sugestão empreendida pela autora e consolida-se no complemento proveniente da ação do leitor. É dessa universalidade que se impregna a obra clariciana, na qual sobressai o mais universal dos anseios humanos: a liberdade. Sartre afirma: “[…] quer seja ensaísta, panfletário, satirista ou romancista, que fale somente das paixões individuais ou se lance contra o regime social, o escritor, homem livre que se dirige a homens livres, tem apenas o único tema: a liberdade”[8].

Na escritura de Clarice, destaca-se a busca pela liberdade humana, assim como a reflexão sobre a própria escrita. A autora elegeu o ato de escrever como centro de suas elucubrações. Escrever torna-se, para ela, uma forma de compreender a própria vida. Olga de Sá expõe: “Em Clarice, escrever era uma forma de compreender a própria vida. Não era a vida que a levava a compreender o escrever. Era escrevendo que ela se compreendia”[9].

Ao refletir sobre sua literatura – ou seja, sobre sua maneira peculiar de praticar a linguagem – a ficcionista chega ao eixo linguagem/vida: “Talvez de agora em diante eu não mais escreva e apenas aprofunde em mim a vida. Ou talvez esse aprofundamento de vida me leve de novo a escrever”[10].

Assim, na produção literária da autora, propõe-se a interface vida X linguagem, proposição da qual partilha Mário Faustino, conforme se demonstra no poema “Vida toda linguagem”, principalmente nos versos finais: “Vida toda linguagem, / vida sempre perfeita, / imperfeitos somente os vocábulos mortos / com que um homem jovem, nos terraços do inverno, contra a chuva, / tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse / outra, imortal sintaxe […]”[11].

Vida e linguagem se amalgamam. Nisso reside a condição patética do ser humano, aprisionado no dizível.

Na visão humanista de Clarice, o único recurso do qual dispõe o indivíduo para suportar essa condição é a recorrência à palavra do outro, o diálogo, do qual emanaria um significado universal, a ser apreendido pela literatura: “A literatura deve ter objetivos profundos e universalistas: deve fazer refletir e questionar sobre um sentido para a vida e, principalmente, deve interrogar sobre o destino do homem na vida”[12].

Com o propósito de atingir os objetivos profundos da literatura, a autora atribui um caráter eminentemente introspectivo à sua produção ficcional. Pioneira da vertente intimista da prosa brasileira, a escritora conseguiu unir suas afinidades estilísticas com James Joyce e Virgínia Woolf a uma dicção extremamente pessoal, alcançando uma linguagem singular, que se mantém única em meio à produção literária em língua portuguesa.

Na literatura perscrutadora de Clarice, deixa-se transparecer a distinção entre existir e ser, exposta por Jean-Paul Sartre: “[…] a existência precede a essência. [Isso] Significa que, em primeira instância, o homem existe, encontra-se a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define”[13].

É a busca pela essência – ou seja, pelo ser – que propulsiona as tramas de Clarice e é dela que se imbuem as personagens da escritora. Essas, primordialmente, existem, situam-se no universo orgânico-social; em seguida, conscientizam-se da essência a ser alcançada e, procurando atingi-la, deslocam-se de um lugar para outro, entregam-se a aventuras (mesmo cientes de que podem resultar em desventuras), estabelecem laços com indivíduos de personalidades opostas às delas, enfim, praticam ações que materializam, propriamente, os enredos claricianos.

O percurso em busca do ser, hegemonicamente presente na produção ficcional de Clarice, integra-se ao âmago das tramas urdidas pela autora e constitui-se na força motriz das narrativas claricianas, nas quais se imprime a insígnia da introspecção.


[1] LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G. H.. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 176.

[2] SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? Tradução de Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Ática, 1989, p. 39.

[3] Sartre, op. cit., p. 49.

[4] RAMOS, Maria Luíza. A obra aberta. In: Fenomenologia da obra literária. 2. ed. Rio de Janeiro / São Paulo: Forense, 1972, p. 35.

[5] PESSOA, Fernando. Aforismos e fragmentos sobre a arte. In: Páginas de estética e de teoria e crítica literárias. 2. ed. Lisboa: Edições Ática, 1973, p. 4.

[6] NIEL, André. A análise estrutural de textos: literatura, imprensa, publicidade. Tradução de Álvaro Lorencini e Sandra Nitrini. São Paulo: Cultrix, 1978, p. 24.

[7] SÁ, Olga de. Clarice Lispector: a travessia do oposto. São Paulo: Annablume, 1993, p. 256.

[8] Sartre, op. cit., p. 52.

[9] Sá, op. cit., p. 256.

[10] Essas palavras de Clarice foram registradas por Olga Borelli (Cf. BORELLI, Olga. Clarice Lispector:esboço para um possível retrato. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p. 70).

[11] FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas de Mário Faustino. Seleção de Benedito Nunes. São Paulo: Global, 1985, p. 18.

[12] LISPECTOR apud BORELLI, op. cit., p. 73.

[13] SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Tradução de Vergílio Ferreira. Coleção “Os Pensadores”. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 5-6.


Saul Cabral Gomes Jr. nasceu em Belém (PA) e graduou-se em Letras (Licenciatura em Português e Inglês) pela Universidade da Amazônia (2001). Possui mestrado (2006) e doutorado (2011) em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Em 1998, obteve o 4º lugar no Concurso Nacional de Contos “Cidade de Araçatuba”. A produção do ensaio O romance regionalista: do panorama ao perfil lhe valeu o prêmio “Carlos Nascimento”, concedido pela Academia Paraense de Letras em 2002. Em 2020, publicou o livro Entre a História e o discurso: olhares sobre a obra de Gladstone Chaves de Melo.


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