FENOMENOLOGIA DO DESASTRE

Numa célebre passagem do ensaio “Experiência e pobreza”, Walter Benjamin comunicava uma mutação na capacidade narrativa das pessoas, especialmente dos soldados chegados da guerra. Se antes era possível encontrar em histórias a transmissão de experiências de um para outro, os combatentes do pós-guerra eram tomados por um nada a dizer. Apesar da multiplicidade de acontecimentos singulares, sua narratividade havia empobrecido. “Mais pobres em experiências comunicáveis, e não mais ricos”[1].

As questões talvez mais discutidas a esse respeito é pensar: de que forma uma certa “riqueza” em vivências pôde desaguar em perda da capacidade de transmissão de sentido? Ou ainda mais, como pode um acontecimento em escala mundial ter ressonâncias em modalidades tão elementares para o fluxo da tradição – a nível individual? Fato que atesta como a linguagem é mais do que um recurso informativo, mas a própria tecitura da nossa experiência no tempo, cujo esgarçamento é também o encolhimento da vida.

Essa descrição bastante acertada é reforçada por Benjamin em outro sentido: aquele que resta dessa pauperização é impelido sempre para o recomeço, para frente, sem olhar para os lados. Como se a “barbárie” pudesse, de certo modo, ser producente, nos empurrando adiante. Mas para nós isso vem a significar algo mais profundo. Algo como uma relação entre o acontecimento e o tempo que vem; entre aquilo que não cessa de vir e aquilo que cessa de não vir.

O de mais próximo dessa noção que podemos nos lembrar agora é o conceito de trauma. O trauma é justamente aquilo que, ao mesmo tempo, sempre reaparece, e que também acontece como de uma vez. Nesse sentido, se existe uma mudança radical com relação a o quê a guerra, por exemplo, representa para nosso imaginário social é a maneira como somos forçados a reorganizar nosso horizonte de expectativas ante o traumático. Ou seja, na forma como enxergamos o acontecimento que de repente perfura toda defesa e subitamente colapsa qualquer forma imediata de simbolização, que também implica uma certa resistência inconsciente que aponta para de onde vem tal Coisa traumática.

Podemos dizer que uma psicodinâmica do desastre seria algo assim. Mesmo a guerra é o produto da desastrosa colisão entre duas ordens distintas, um impacto premeditado, mas que, no nível individual, faz a psique desastrar. Isso porque o desastre é uma forma de colocar à prova a real natureza de nossas sensibilidades, bem como experimentar sua transformação. A pandemia da Covid-19 pode ser chamada de um desastre. Para perceber isso bastaria percebermos a reinvenção forçada de nossos afetos e narrativas a respeito do que nos é necessário…

No entanto, se quisermos tatear a real transformação derivada de um acontecimento como esse, devemos nos permitir uma inversão lógica dessa análise. Quando se fala na famosa “Fenomenologia do Espírito” de Hegel, somos tentados a interpretar tal título como se nós fôssemos os espectadores dessa coisa-em-si chamada Espírito. Mas o gesto aqui é seu exato oposto: não somos protofenomenólogos, prontos para acompanhar o movimento invisível, porém sensível do espectro do real presente na ordem social; mas sim seres que aparecem de determinada forma para o Espírito, que por sua vez nos observa.

A pergunta é: se ousássemos ver o que há na impenetrabilidade do olhar do desastre, o que veríamos? Quem somos nós diante do desastre? O que o trauma, essa força abissal e disruptiva vê quando nos olha? Pois o desastre não comporta apenas a potencialidade destruidora dentro de uma ordem. Um desastre é a extrusão das vias em direção ao que havia de acontecer, um disforia brutal. Resta saber quem rumos tomamos mediante o olhar que ainda nos abisma.


[1] BENJAMIN, W. Experiência e pobreza (1933).


Micael Correia tem 23 anos e é um escritor não-autorizado. Tem experiência em Psicologia Clínica e se interessa pelas áreas de Psicanálise, Filosofia e cultura popular.


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