UM DIA, ELE VOLTA

Desde bem pequeno ele precisava lidar com uma maldição estranha. As pessoas diziam sempre, “Vai Sebastião, você consegue”, ou então, “Meu filho, como você é abençoado! Nada nessa vida há de faltar”. E ele ia, conseguia até, mas o fim era sempre muito parecido. Com a faca e o queijo na mão, faltava fome ao Sebastião. Não pensem que isso fazia com fosse triste, não. De modo semelhante, ele também não era feliz. Sebastião era normal, absolutamente mediano e concretamente vulgar. Mesmo tendo feito anos de terapia, nunca foi capaz de se curar de si, da mesma forma que não o curaram. Sempre me pareceu mais uma coisa de astrologia que de genética. Vocês vão concordar comigo.

            Para começar, nasceu em agosto, no dia dezessete. Meio do ano? Não, mas também não é início nem final. Que é que se deu em dias dezessete e que valha a pena? O Combate da Roliça? A primeira reunião dos narcóticos anônimos? O nascimento de Elba Ramalho, de Zezé de Camargo, de Diogo Antônio Feijó? Pessoas de alguma forma até importantes, mas não importantes demais. Veja só, ninguém questiona o padre Feijó ou a Roliça, mas o mundo poderia ter passado sem eles, o Brasil poderia. Sebastião estava no limite.

            Se era bonito eu também não sei, e digo isso menos por pudores masculinos do que por desajeito de visão. Ele tinha o rosto assim meio gordo, mas com ossos aparecendo nas bochechas. A pele era clara, mas aqui e ali apareciam olheiras e outras marcas de tempo e de sol. Quando sorria, podíamos ver que tinha todos os dentes na boca, só que eram amarelados. Ria um riso nem muito alto, nem muito baixo, e o que mais chamava a atenção era como um lado do rosto – o direito – ria mais do que o outro. Sebastião tinha um riso torto, uma boca torta, mas acredita que eram harmoniosamente tortos?

            Gordo ele não era também. Olhando de fora eu daria uns setenta quilos, mas o Sérvulo, do açougue, tinha certeza de que seriam uns oitenta e sete. Pois é, como todos no bairro conheciam o Sebastião, mas não o suficiente, era comum quando ele passava, que nós ficássemos apostando e tentando adivinhar alguma coisa sobre sua vida, o período que serviu o exército, seu casamento – se é que foi casado. As principais discussões eram sobre banalidades como o peso, o tamanho da pica, o número de calçado – todos sabem o quanto estes dois itens se relacionam -, se ele namorou ou não aquela morena que mora na rua da esquina com o colégio. O mais interessante, pensando aqui, é que mesmo nesses momentos jamais alguém dizia coisas exageradas sobre ele. Nunca uma suspeita de morte, de crime, de fuga espetacular. Ele estava ali, morava por ali, passava por ali.

            A impressão que me dava era de que Sebastião era todo contado. Cada pedaço seu era o suficiente para que não faltasse, e também para que jamais sobrasse. No tempo em que os deuses eram muitos e outros, em que eram mulheres também, tenho a sensação de que ele seria um sacerdote de Nêmesis. Amor demais? Melhor cortar. Dor demais? É justo que se acalme. A medida é a salvação do gozo, e só sofre quem quer demais, por isso, como uma espécie de procurador da justiça distributiva, qualquer desmesura estaria fora. Comer demais constrange os famintos, namorar demais incomoda os feios, dormir demais ralha com os operários. É muito mais seguro estar ali no meio, balançando os quadris de um lado para o outro como quem segura um bebê que precisa cochilar no colo – se for em duas dimensões – ou como quem mete com ritmo – se for em três. Importante é deixar uma pontinha de cada lado a cada vez. Esse é o homem.

Aconteceu, no entanto, que um dia ele deixou de passar na rua, como era o costume. Pouco foi preciso para que o desregulamento do Sebastião bagunçasse todo o Sagrado. Em cada rua alguém esperava que iriam encontrá-lo saindo da banca, da quitanda, da farmácia… Provavelmente teria um resfriado, nada demais, ou naquele dia resolveu cuidar das plantas que ficavam no corredor lateral da casa. Ele deveria estar por ali sim, era uma questão de olhar com jeito. Um homem que fazia o mesmo caminho há mais de trinta anos, um herói da mesura e do recalque, Sebastião era um exemplo na comunidade. Em algum momento ele iria aparecer com um guarda-chuva nas mãos dizendo que não tinha saído ainda porque estava em dúvida se iria ou não chover. Todos ririam daquele homem de meia idade com um capote nas mãos enquanto o dia era claro e quente.

Mas ele não apareceu, nem no primeiro dia, nem no segundo, nem no terceiro. Como sabíamos de cor a rotina daquele sacerdote da temperança, a polícia foi avisada, colocaram um punhado de cartazes lambe-lambe nos muros e postes: “Procuram-se Sebastião Ribeiro. Sujeito comum e de boa praça”. O texto foi escrito assim mesmo, com essa imprecisão do vernáculo, afinal, quem tomou as tintas imaginava que Sebastião nunca iria discordar de seus conterrâneos e por isso, procurar deveria concordar com o número dos que estavam atrás dele, e não do sumido. Um erro de concordância formal, mas questionável, afinal, todos concordavam que era fundamental encontrar o sujeito.

O primeiro lugar onde deveríamos ter olhado, é óbvio, seria a casa do Sebastião, mas por ser tão óbvio assim, foi o último. Olhamos nas igrejas católica e protestante, em um centro espírita que guardava as pessoas em uns quartinhos nos fundos, para que dessem santo – vai que Sebastião dava Oxóssi? Fomos também na beirada do rio do peixe, e nalgumas casas de facilidade ali da região, onde sabíamos que viviam mulheres nem tão bonitas nem tão feias, daquelas mesmas que sabíamos que ele gostava. Mas nada, em nenhum desses lugares havia sequer rastro do homem. Foi aí que decidimos arrombar a casinha dele.

Imaginem vocês uma casa bem pequena, nem dois quartos tinha. Janela de madeira, bem cuidada, ainda que descascada pelo tempo. Contornando as janelas da frente e a porta, uma moldura pintada em azul celeste. No corredor ao lado da residência, que dava para os fundos, algumas plantas bem cuidadas, mas sem flores. Dava para se ver no quintal dois varais, um com um lençol e outro com algumas cuecas. Tudo esticado, bem lavado, seguro. A multidão de fronte à casa do Sebastião estava agitada. E se ele estivesse morto ali dentro? Não estaria, porque o cheiro teria denunciado. Então ele foi sequestrado. Talvez tivesse sido, mas como saber? Será que um bandido experiente teria levado o homem sem família exatamente porque sabia que a cidade toda tinha o adotado? O resgate seria altíssimo, o que com certeza não se faria problema para nós.

Ali, diante da casinha hermeticamente fechada, a tensão no ambiente poderia ser segurada com as mãos. Sherlock Holmes não encontraria as pistas. Não existiam pistas. O Nicolau, filho do outro Sebastião, que foi o primeiro chaveiro da cidade, acompanhado pelo guarda e pelo vice-prefeito, primeiro abriu o portão de fora, com cuidado. A multidão se espremeu um pouco mais, enquanto ia sendo contida pelos gritos de alguém que falava “Devagar, devagar, primeiro as autoridades”. Ninguém ouvia, é verdade, mas se não falassem dariam falta. Enfim a porta estava aberta.

No interior da sala tudo bem arrumadinho. Sofá, rádio, uma samambaia presa no teto. Sobre o portal que dava acesso ao quarto uma bandeira do sagrado coração de jesus. Nenhum sinal de luta, de violência, de crime. O guarda foi quem viu que no quarto, ao lado da cama perfeitamente arrumada estava um pedaço de papel rasgado com vários rabiscos, como se o Sebastião estivesse brincando de riscar paredes. No verso, porém, quem estava lá dentro podia ler “Cansei”. É verdade que estava escrito “Cansei dessa merda”, mas a memória não saberia guardar um santo boca suja. Sebastião evaporou.

Chegou-se à conclusão de que não se matou, afinal, quando foram examinar seu guarda-roupa, a gaveta das cuecas estava vazia. As do varal eram poucas demais. Sebastião se desmaterializou com suas cuecas e meias.

Mesmo vivo a cidade fez luto. Bandeira semi hasteada por três dias, por ordem do prefeito. Sem família, o espólio da casa ficou para a municipalidade, que depois de alguns anos transformou o lugar em uma biblioteca infantil. Biblioteca Municipal Irmão Sebastião Vivente. Não era esse o sobrenome dele, é claro, mas era um desejo honesto. Aos poucos a lenda deu lugar às efemérides. A merda sumiu do bilhete, ficando só o cansaço. Uma dinâmica altamente seletiva, como deve ser. Desde então todos esperam que Sebastião volte, e isso já faz mais de quinze anos.

Um dia, conversando com um vendedor de bíblias que tinha vindo do Rio de Janeiro, ele me disse que em Portugal também esperavam a volta de um Dom Sebastião, e isso há mais de quinhentos anos. Se esperavam a volta de um Sebastião desconhecido por tanto tempo, que será do nosso? Foi quando me acomodei ao tempo desregulado…

Nosso sebastianismo é vivo até hoje. Um homem medíocre faz tanta falta. Olhar para quem anda sempre no meio, faz os dois lados parecerem menos piores.


Vinícius Lara é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.


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