CONCEIÇÃO: VESTÍGIOS DE UMA TRAJETÓRIA

Taquara, Rio de Janeiro, manhã de domingo, 5 de maio de 2019. Eu e minha tia, Adélia Vicente, em seu novo apartamento. Habitar é preciso. Habituar-se também. Inevitável não sentir saudade dos tempos de outrora em Botafogo. Não é fácil desprender-se do local em que se viveu durante décadas. Mas outra saudade é mais forte: há praticamente quatro anos, Conceição nos deixara. Sobre a mesa da sala, resquícios materiais de sua existência. Um “montinho” de documentos indiscriminadamente guardados num envelope de papel pardo.

Naquela rápida visita à casa de minha tia, fui surpreendido pela doação daqueles papéis amarelecidos. Papéis que pertenceram àquela que foi a sua mais velha fiel escudeira e amiga em terras cariocas. Nascida em 13 de agosto de 1933, Conceição Costa tornara-se sua amiga na década de 1970, quando dividiram o aluguel de um apartamento na Visconde de Pirajá, em Ipanema, e, posteriormente, em Botafogo, na Rua São Clemente, onde acolheram o amigo Wilson e sua companheira, Zilá, grávida. Entre os anos 1980 e 2015, aquietaram-se naquele aconchegante cantinho da Vila Santa Clara, perto da Casa de Rui Barbosa. Solteiras, abraçaram de corpo e alma os filhos que a vida lhes deu: os filhos de Zilá e Wilson.

Em 2015, Conceição partiu desse plano. Por onde passou, deixou marcas de sua generosidade, sorriso espontâneo, simplicidade e espirituosidade, características que não anulavam a vaidade visível no cuidado com os cabelos, na escolha das roupas, nas bijuterias e na forma caprichosa com que mantinha em sigilo a idade. Católica confessa, mas também com grande afeição pela filosofia de vida Seicho-No-Ie, carregava no comportamento a leveza de espírito, o otimismo e a serenidade de quem passou por inúmeras experiências ao longo dessa longa e tortuosa estrada da vida.

Muito discreta, falava pouco sobre sua própria história. Entretanto, bisbilhotando aqueles papéis amarelecidos que herdei por intermédio de minha tia, fui capaz de descobrir sua faceta de bailarina na juventude, função que exerceu até o ano de 1973, oportunizando-lhe diversas viagens internacionais para Itália, Rússia, Japão, Chile, Argentina, etc. Assinou contrato com a antiga TV Tupi, colaborando com a fase inicial dos programas de auditório no Brasil. Nesse meio tempo, namorou um russo.

A partir de 1974, trabalhou como costureira. Depois, enveredou-se pelas profissões de balconista, ajudante de mesa e, finalmente, doméstica, tarefa que exerceu com afinco, responsabilidade, zelo, amor e dedicação. Não uma dedicação subserviente, mas respeitosa e elegante, de mulher que contornava as dificuldades, opressões e preconceitos com consciência e sabedoria, como um corpo que se equilibra, desafia e supera a materialidade do espaço e as leis da gravidade com a poesia dos movimentos. Talvez tenha sido este um dos grandes legados que a arte da dança lhe deixou…

Conceição partiu, mas mantendo em nossas mentes aquele sorriso jovial, calmo e generoso de quem sempre abraçou a mim e aos meus irmãos como “sobrinhos do coração”, adotando, inclusive, minha irmã, Aninha, como afilhada. Sua última visita à minha casa na roça, em Simão Pereira (MG), data de 1º de maio de 2015, por ocasião da ordenação sacerdotal de meu irmão, Fernandinho. A solenidade ocorreu no dia de São José e na Igreja de Nossa Senhora da Glória, ambos contemplados em sua singela coleção de santinhos, reunida naquele envelope de papel pardo que estivera sobre a mesa.

Gratidão! Não pode ser outra a palavra para designar o que senti ao ver minha tia confiar a mim aqueles papéis tão carregados de valor simbólico. Ao meu ver, um ato tão grandioso quanto os corações dessas duas aguerridas mulheres que tenho como referência em minha vida. Tratei logo de organizar aqueles documentos e acondicioná-los. Mais do que “objetos velhos”, eles são para mim “objetos biográficos”, um dos especiais “lugares de memória” que ajudei a constituir e conservar. Rememorar a existência de quem passou pela vida terrena, deixando um pouco mais de “alma” em nossas mentes e corações, é um prazer de valor inestimável.

Conceição representa a luta da mulher. Não a de qualquer mulher: a da mulher brasileira, negra, solteira, pobre e trabalhadora multifacetada, com suas qualidades, força, fraquezas, franquezas, contradições e complexidades, que abraçou com bravura a decisão de sair da terra de origem para enfrentar a vida na grande e desigual “Cidade Maravilhosa”. Como “bailarina viajada”, profissão que hoje carrega certo glamour, somos talvez levados a pensar que este tenha sido o momento mais confortável e exitoso de sua vida. Não podemos nos esquecer, porém, do preconceito que recaía sobre essa profissão em tempos de ditadura. Se, até hoje, a mulher brasileira – sobretudo negra – ainda é vista pelas suas “qualidades físicas” ou como o “produto de exportação” mais valioso do Brasil, imagina o quão difícil era, àquela época, para as artistas mulheres (no caso, as bailarinas) conquistar o respeito e o lugar social que tinham por direito. Artistas da “velha guarda”, que viveram na mesma época ou em tempos um pouco mais recuados – algumas delas ainda vivas e consagradas – têm muito a nos contar a esse respeito.

A “herança” que me legou, portanto, deixa-me entrever informações acerca de sua trajetória biográfica, como filiação, data de nascimento, atividades profissionais exercidas e fotos, individuais e em grupo, nas quais estão representados momentos importantes que vivenciou (talvez bons momentos), tanto no Rio de Janeiro como nas diversas viagens internacionais.

É possível observar nos documentos detalhes ricos historicamente, como a passagem de 1ª classe para a Europa, a bordo do navio Itapage; a intimidade com a câmera, revelada pela espontaneidade das fotos; sua preciosa coleção de selos postais, cuja maioria é oriunda da antiga União Soviética (atual Rússia), que fazem alusão a elementos bastante interessantes e emblemáticos em suas representações, como a “corrida espacial”, astronautas e satélite; o passaporte da década de 1970, contendo um carimbo proibindo viagens de cidadãos brasileiros à “Cuba comunista”. Em tempos de Guerra Fria, de polarizações, é sempre bom lembrar que o regime civil-militar e ditatorial brasileiro situava-se ao lado dos Estados Unidos, cujo capital financiou a ditadura que nos mergulhou em tempos sombrios e tenebrosos.

Conceição, portanto, tem arraigada à sua história de vida um pouco da luta de muitas mulheres negras e pobres nesse país. Nesse mês de novembro, em que se comemora o Dia da Consciência Negra, minha homenagem lhe é destinada, mas é extensiva a todas as “Conceições” desse país, em que as flores ainda precisam lutar pela sobrevivência e exalar sua beleza e perfume por entre as trincas de um concreto armado. Que sua força e energia venham a se somar à força e energia de vários “viveres” e “existires” que lutam pela sobrevivência numa sociedade recalcitrante na preservação de seu patriarcalismo, machismo, ideologia senhorial, racismo e exclusão.


Sérgio Augusto Vicente é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.


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