A ESCRITURA HOMOERÓTICA NAS FOTOGRAFIAS DO SÉC. XX – PARTE V: CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nas fotografias mostradas e analisadas nas últimas semanas há, claramente, um enfoque no corpo masculino. Esse enfoque aponta para um erotismo como uma leitura inevitável. Os autores desenvolvem uma linguagem erótica potente, pois, uma vez que entramos em sua perspectiva, somos forçados a olhar o mundo com seus olhos. O homoerotismo na arte opera uma dimensão estética e política, mesmo quando a última não é encarada como cerne da obra por parte do/da artista que a produziu.

Enquanto o trabalho de Gomes e Warhol estão menos comprometidos com a política e mais com a estética, Mapplethorpe se vale da linguagem fotográfica para propor ao observador um olhar mais ousado sobre a sexualidade, afrontando ou, no mínimo, despertando incômodo por parte da sociedade. No momento em que o artista minimiza a exposição do belo tradicional para expor algo mais provocativo, o artista ressignifica o que se entende por sexualidade e também entre erótico e pornográfico. Medeiros cita Baudrillard para pensar as “fronteiras líquidas” do erótico e pornográfico:

Diz-se que o grande empreendimento do Ocidente é a mercantilização, de tudo entregar ao destino da mercadora. Parece, porém, que foi a estetização do mundo, sua encenação cosmopolita, sua transformação em imagens, sua organização semiológica. Estamos assistindo, além do materialismo mercantil, a uma semi-urgia de casa coisa através da publicidade, da mídia, das imagens. Até o mais margia, mais banal, o mais obsceno estetiza-se, culturaliza-se, “musealiza-se”. Tudo é dito, tudo se exprime, tudo toma força ou modo de signo. O sistema funciona não tanto pela mais-valia da mercadora, mas pela mais-valia do signo (2001, p. 23 apud MEDEIROS, 2008, p. 57).

A musealização da pornografia promove uma nova forma de pensar o desejo, já que a representação do sexo explícito ou a extrema erotização do corpo estão ali única e exclusivamente para serem contempladas. O erótico e o pornográfico, apesar das censuras, têm sido constantemente transformados em mercadorias pela indústria cultural. Assim, a coletividade e o status de obra de arte induzem o sujeito a desistir de sua satisfação libidinosa em troca de novos modos de sublimação.

 A escritura homoerótica, portanto, é um traço persistente na fotografia e, a partir do século XX, desponta com uma maior intensidade, seja como uma manifestação do desejo ou uma manifestação política.


REFERÊNCIAS

BARTHES, R. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

GARCIA, Wilton. Arte Homoerótica no Brasil: estudos contemporâneos. Gênero, Niterói, v. 12, n. 2, p.131-163, set. 2012.

GOMES, Aline Ferreira. A Fotografia de Alair Gomes. 2017. 196 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de História, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2017.

KING, Margery. Rostos Conhecidos, Órgãos Genitais, os Retratos e Torsos de Andy Warhol. Em FUNDAÇÃO BIENAL DE SÃO PAULO. Catálogo 23ª Bienal Internacional de São Paulo: Salas Especiais. São Paulo. 1996. vol.01, p. 40-53.

LEDDICK, David. The male nude. Köln, Tashen, 2015.

MEDEIROS, Afonso. O Imaginário do Corpo: entre o erótico e o obsceno. Goiânia: Funape, 2008.

OLIVEIRA, Adelaide Oliveira de. Imagens do Corpo e da Sensualidade na Arte Contemporânea Paraense: o erotismo masculino nas fotografias de Sinval Garcia e Orlando Maneschy. 2012. 109 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Artes, Universidade Federal do Pará, Belém, 2012.

PEREIRA, Bruno. Symphony of Erotic Icons: erotismo e o corpo masculino na fotografia de Alair Gomes. 2017. 199 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Psicologia, Universidade Estadual de São Paulo, São Paulo, 2017.

SANTOS, Alexandre. A indisciplina do desejo: corpo masculino e fotografia. XXII Colóquio Brasileiro de História da Arte, 2002, np. 16. Disponível em: http://www.cbha.art.br/coloquios/2002/textos/texto07.pdf; acesso em: 19 fev. 2018.

SILVEIRA, Juzelia de Moraes. Robert Mapplethorpe: diálogos e olhares sobre a sexualidade na arte contemporânea. 2009. 143 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Artes Visuais, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2009.


Ihan de Abreu Leite Peixoto é graduando em Letras Português/Espanhol da Universidade Federal do Ceará (UFC) e integrante do Grupo Visada.


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