A crise do discurso no evangelicalismo brasileiro que apoiou o atual presidente nas eleições de 2018

É curioso pensar performance (s). Num mundo conectado por redes, a expressão se torna um lugar de destaque para a adesão ou coesão quanto ao grupo que se faz ou pretende-se fazer parte. Se antes lidávamos com a ideia da relativização cotidiana, ou seja, opiniões passíveis a verificação e constatação de verdade/mentira, hoje encontramos um certo fenômeno sobretudo nos grupos de religiosos evangélicos que deram apoio ao atual governo. Explico.

O ideal criado em torno da figura política do presidente (nesses grupos em questão), foi alicerçado pela criação de um ambiente cuja perspectiva “unânime” seria o apoio coletivo a determinado tipo de narrativa política, a rigor, figuras relevantes na cena do evangelicalismo brasileiro usaram dos púlpitos, de suas mídias sociais, entre outros, para anunciar um apoio ao atual presidente. Entretanto, aos discursarem em seus longos textos e pregações, apresentavam justificativas distintas e, muita das vezes, conflitantes entre si; isso, em si, não é novidade, afinal, a própria figura do atual presidente e a construção de sua imagem enquanto representante plausível dentro de uma democracia mesmo defendendo o absurdo, sugere profundo conflito. A reflexão que aqui proponho é sobre a construção de um pressuposto político harmônico dentro um ambiente extremamente plural, que gerava coesão e sentimento de unanimidade quanto a tomada de decisão dos fiéis na esfera civil através do voto. Mais, um dos elementos que estabilizou tal perspectiva: a performance de homens e mulheres notáveis e respeitados dentro desse grupo religioso na justificativa de seus votos ao atual presidente ainda em 2018.

Suas justificativas, tão plurais quanto as pessoas a que se direcionavam, combinavam um ar de seriedade, equilíbrio e luta contra o que chamam de guerra cultural. Essa disposição fez com que a coesão em torno do apoio acrítico de setores da igreja evangélica viesse com contrastes: concedo meu voto a partir da justificativa que me parecer ser a “mais equilibrada”, “mais sensata”. Com a vitrine de justificativas ampla, a sensação de uma escolha coesa e em harmonia com os demais nomes de relevância do meio. Uma nova performance tem sido necessária para a manutenção dessas figuras com toda estima que carregam, afinal, não se pode negar as mais de 600 mil mortes (alguns o fazem) em território nacional devido a má gestão e, portanto, terrível resposta administrativa do governo federal durante a pandemia; mais, não se pode fechar os olhos para o avanço da desigualdade, para a crescente fome e miséria, entre outros. Há os que preferem distribuir responsabilidades, argumentando não ser culpa da gestão federal. Outros, performam, mais uma vez, com a pseudo estabilidade do discurso equilibrado, como se não tivessem dado o apoio, como se o passado fosse uma negação do discurso ou, até mesmo, apenas uma temporalidade vendida ao esquecimento. Assim, criam a ilusão de uma crise desconectada do número que apertaram e ajudaram a eleger com seus respectivos discursos em 2018. Normalmente, dizem: “Não tenho político de estimação e se fosse para tecer crítica ao atual presidente assim eu o faria. Inclusive, discordo dele…”.No entanto, não abrem mão da moral gerada em torno de tal discurso pois isso está, diretamente, vinculado a força de sua expressão, de sua performance e notabilidade. Admitir o erro jamais, afinal, isso significa abrir mão daquilo que os estabiliza. Desta forma, ignoram o passado e dizem “‘paz’ quando, na verdade, não há possibilidade alguma de paz, e quando labutam na construção de um muro fraco e tentam esconder sua fragilidade rebocando-o com argamassa e passando cal.” (Ezequiel 13:10). Seja considerado tolo aquele que assim o faz. Não há paz. Acredito, portanto, que a crise do discurso é também uma crise de passado.


Gyovana Machado é cristã, formada no Seminário Rhema Brasil, graduanda em História pela UFJF, bolsista no LAHES, interessada nas grandes áreas de teologia, política e feminismo.


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