SUBLIMAÇÃO

Sento para escrever este texto. A vizinha, que não conheço, coloca para tocar:

Bem pior que eu, você
Que não deixa ela e nem deixa de viver
Bem pior que eu, você
Desconta sua raiva em duas horas de prazer
Eu venho porque eu não tenho nada a perder…
Já você…

Eu paro tudo pra cantar e rodar na sala, e depois me sento de novo. Se o momento fosse outro, a minha reação seria a mesma. Mas hoje, é diferente.

Você virou saudade aqui dentro de casa…

Nunca fui muito de sertanejo; mas ela me conquistou. Só no meu círculo de amigas, conto múltiplas que passaram pelo mesmo, e nem consigo imaginar mais quantas pessoas tiveram suas vidas tocadas pelo contralto inconfundível de Marília Mendonça.

Marília conquistou o Brasil inteiro, virou Patroa e foi coroada Rainha da Sofrência. Seu primeiro hit, ‘Infiel’, foi a primeira música sertaneja da qual me lembro que trazia uma voz feminina não apenas na interpretação, mas também na narrativa – e a artista tornou isso um padrão para a sua carreira, em um estilo musical tão permeado por homens cisgêneros heterossexuais, os quais não tinham (e imagino que continuem não tendo) qualquer pudor ao expressar suas ideias machistas em letras que as mulheres fãs do sertanejo buscavam não prestar atenção pra não passar raiva.

Se ele não te quer, supera!
De mulher pra mulher, supera!

Marília chegou chutando a porta e, junto com artistas como Simone e Simaria, Nayara Azevedo, Maiara e Maraísa, entre outras, consolidou o “feminejo”, que é muito mais que simplesmente a música sertaneja cantada por mulheres. O feminejo é o empoderamento da mulher sobre suas narrativas românticas. Ele desconstroi cada estereótipo de mulher já pensado pela monogamia machista: a amante, a esposa, a corna, a piranha, a apaixonada, a ex louca vingativa, entre tantas outras. Cada uma delas encontra, nas canções dessas artistas – em especial, nas de Marília -, uma voz, um espaço para sentir, para ser mais que estereótipo. A meu ver, esta é uma realização extraordinária.

(a vizinha desligou a playlist, estou ligando aqui de novo)

Como tudo no mundo, é claro que o feminejo (e, consequentemente, o trabalho de Marília Mendonça) dá margem para críticas e questionamentos morais, especialmente quando consideramos o alcance massivo das músicas sertanejas e o reforço de valores heterossexuais e monogâmicos. Mas isso é papo pra outra hora. O feminismo sempre foi sobre direitos iguais, e Marília foi pioneira em tomar para si o direito de fazer o que os homens do sertanejo já vinham fazendo há décadas – e fazer ainda melhor que eles. Eu, não-monogâmica e definitivamente não-heterossexual, por muitas vezes, encontrei em Marília a representatividade da qual eu precisava; e sei que não sou a única.

Se quem tava comigo era ele, a culpa é dele
Quem fez essa bagunça na nossa amizade é ele
Eu não vou deixar de ser sua amiga por causa de um qualquer
Que não respeita uma mulher

Não bastando ter revolucionado seu nicho artístico, Marília se mostrou extremamente humana e extremamente forte durante toda sua carreira. Frente à gordofobia que sofreu durante boa parte de sua vida pública, frente à transfobia que cometeu e à qual se endereçou da forma mais digna e humilde possível, frente ao seu emagrecimento e aos comentários maldosos que vieram disso, a artista foi exemplo para toda uma geração. Carregando noções de sororidade e de fortalecimento em seu trabalho e em sua vida, Marília tocou ainda mais cada um que a ouviu.

Só por ser uma mulher jovem – ora, tínhamos quase a mesma idade -, com um filho pequeno para criar, com toda uma vida pela frente, a perda de Marília já seria uma dor profunda; mas a beleza que habitava a artista era muito maior que apenas sua jovialidade ou seu sucesso e reconhecimento a nível nacional.

Ao receber a notícia do acidente, eu soltei um berro. Literalmente. E entrei em estado de choque. E acho que, na verdade, eu ainda não consegui processar o fim dessa carreira e dessa vida. Marília já era estrela brilhante em vida, e vai permanecer sendo inspiração para sempre. Tornou nossas vidas um pouco mais sublimes, e permanece em sublimação mesmo após partir.

A nossa saudade vai ter que aprender a tomar um rumo na vida, infelizmente. Descanse em paz e em glória, querida.


Carol Cadinelli é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama.


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