A SINA DO “MENINO MAIS BONITO DO MUNDO”

The Most Beautiful Boy in the World” (2021) inicia como um filme de horror, com travellings pelos corredores sombrios e abandonados do Grand Hôtel des Bains, na ilha veneziana de Lido. O antigo hotel, que serviu de cenário para Morte em Veneza (1971), do cineasta italiano Luchino Visconti, como recriação de um ambiente de fin de siècle, hoje lembra o Overlook de O Iluminado (The Shining, dir. Stanley Kubrick, 1980). Uma figura de preto cruza seus corredores, nosso guia em uma narrativa íntima e pessoal.

Exibido em Sundance, o documentário de Kristina Lindström e Kristian Petri conta a vida de Björn Andrésen, o ator sueco que se tornou um dos rostos mais famosos da sua geração. Sua vida mudou após estrelar o filme de Visconti, adaptação da novela homônima do alemão Thomas Mann. Björn tinha apenas quinze anos. A beleza clássica e seu porte físico, de presença marcante, embora precoce, impressionavam à primeira vista. Logo, Björn virou o menino dos olhos do diretor italiano. Não só ganhou o papel de Tadzio como foi proclamado por ele “O Menino mais Bonito do Mundo”.

Mann foi um dos célebres hóspedes do Grand Hôtel, cujas luxuosas acomodações em estilo Art Nouveau o inspiraram a conceber Morte em Veneza (1912), que ocuparia a mente de Visconti por vários anos, décadas mais tarde. A novela acompanha Gustav von Aschenbach, um renomado escritor de meia-idade, no outono da vida. Ele busca a beleza pura, que enfim encontra em Tadzio, um adolescente de família polonesa.

Tadzio é a personificação do belo, mas em sentido clássico. De acordo com essa concepção, o belo consiste em um arranjo de partes que formam um todo coerente, isto é, harmônico, simétrico e de noções semelhantes. Contudo, essa é uma concepção europeia de beleza, incorporada na arquitetura, na escultura, na literatura e na música. A ideia central do Renascimento italiano, por exemplo, era a da proporção absoluta. Para Tomás de Aquino, a beleza depende de três requisitos: integridade, proporção e clareza.

Gustav sente forte atração por Tadzio, cujas feições estáticas e angelicais se enquadram nos padrões clássicos de beleza. Nesse sentido, o menino seria a materialização e um reflexo temporal da beleza pura, que o artista desejava eternizar. Mas o sentimento de Gustav, que a princípio não passa da contemplação do ideal platônico de beleza, aos poucos ganha nuances mais sensuais e obsessivas.

Visconti persegue semelhante ideal de perfeição estética. E foi em um menino loiro, frio como estátua de mármore e de olhos cinza, da “cor do mar” – conforme a descrição de Mann –, que encontrou seu Tadzio. Margareta Krantz recorda a visível agitação do cineasta no momento em que Björn Andrésen entrou na sala. Nas palavras da diretora de elenco, o jovem sueco era extraordinariamente bonito, com um rosto de incrível fotogenia e carisma raro. E logo aquele rosto viraria um ícone mundial.

Em sua turnê pelo Japão, o astro juvenil recém-lançado ao estrelato ofuscou Masatoshi Sakai, incrédulo que alguém tão belo pudesse de fato existir, sobretudo por haver “algo misterioso em sua feição”. “Havia nele um brilho”, disse o produtor musical para a câmera. “Mas, ainda que fosse apenas um adolescente, eu também podia sentir um lado sombrio. Isso dava a ele um apelo tridimensional”. Por sua vez, Krantz destacou a fragilidade aparente do menino, tão marcante no celuloide. Tais atributos davam a Björn uma aura magnética, fazendo-o sobressair entre tantos concorrentes ao papel.

Na definição de Visconti, numa das inúmeras imagens de arquivo do documentário, Morte em Veneza é uma história de amor perfeito e idealizado, que não é sexual ou erótico. Mas devemos lembrar que também é uma tragédia, pois o vislumbre da beleza pura, para o protagonista de meia-idade, é o beijo da morte. No fim da novela, Gustav vê Tadzio no mar. O menino, então, dá meia-volta e encara seu admirador, que se ergue da cadeira de praia a fim de retribuir o aceno, mas cai morto. De fato, com os olhos brilhantes, os cabelos dourados e a figura fantasmagórica quase onipresente, envolta em mistério, o menino não parece totalmente humano. Parece mais o anjo da morte.

Por ironia, Björn foi marcado desde cedo pela morte e por uma série de tragédias pessoais, que o ator, hoje com mais de sessenta anos, recorda no documentário. A vida fez dele um Lobo da Estepe, um homem magérrimo e de longos cabelos brancos, sombra taciturna e melancólica, e um sobrevivente de ciclos infindáveis de autodestruição. A beleza radiante da juventude virou uma sina que o perseguiu feito maldição. O filme conta a história dessa alma atormentada, de forma tocante e intimista. Também nos leva a pensar nas problemáticas convenções de beleza, à medida que se tornam ditames estéticos da branquitude, bem como na voracidade vampírica da indústria cinematográfica.


Referências

Beauty (verbete). In: Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/beauty/. Acesso em: 15 out. 2021.

MANN, Thomas. Morte em Veneza. Trad. Herbet Caro. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

REIS FILHO, L. Björn Andrésen: a morte tem cara de anjo, Projeto Ítaca. Disponível em: https://projetoitaca.com.br/artigos/bjorn-andresen-a-morte-tem-cara-de-anjo/. Acesso em: 15 out. 2021.

ROSENFELD, Anatol. Thomas Mann. Campinas, SP: Editora Perspectiva, 1994.


Lúcio Reis Filho é Doutor em Comunicação, historiador, professor e cineasta. Dedica-se, principalmente, às relações entre Cinema, História e Literatura, com ênfase nos gêneros do horror e da ficção científica. É criador do Projeto Ítaca, sobre mitologia e suas representações na cultura pop.


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