A ESCRITURA HOMOERÓTICA NAS FOTOGRAFIAS DO SÉC. XX – PARTE IV: EROTISMO E VITALIDADE [18+]

AVISO DE CONTEÚDO: Este trabalho contém fotografias de nudez sem censura.

O erotismo, apesar de seu sentido estar predominantemente relacionado ao ato sexual em si, pode referir-se também à sexualidade ou a qualquer tipo de excitação e atividades que mantenham nossa vontade de viver. O erotismo, assim, remete “ao desejo do ato, à vontade de tocar, ao prazer de olhar, ao momento compartilhado, à excitação que aflora” (OLIVEIRA, 2012, p. 40). Se pensamos a linguagem como um sistema de signos ordenados que transmitem determinada informação, podemos falar sobre uma linguagem erótica. É na combinação de elementos sígnicos e na articulação desses elementos que a linguagem erótica se insere. O erótico é um discurso que tem como objetivo a comunicação, o diálogo entre sujeito-sujeito, por isso um papel de importância é atribuído ao espectador. Se essa relação for encarada de outra forma, seja sujeito-objeto ou objeto-objeto, trata-se de pornografia (CAMARGO; HOFF, 2002, apud OLIVEIRA, 2012).

Desse modo, sem despir completamente seus modelos e sem insinuar atos sexuais, Alair consegue capturar gestos que compõem um fetiche erótico e que fogem de sua representação mais tradicional (poses de heroísmo, virtuosismo, etc). O banal é transformado em único e especial. O simples caminhar dos rapazes gera inúmeras interpretações. Bruno Pereira (2017) cita o artista Flávio Colker, que comenta sobre a obra de Alair Gomes em um texto do Blog Olhavê, no dia 29 de março de 2010:

Ela começa fundada na perversão, em imagem apropriada de um desconhecido, na multidão, imerso em cena casual… a sua presença é atribuída então um sentido erótico, a despeito de seu conhecimento. Apropriação em imagem dos gestos de rapazes que flanam pela praia. A transformação desses gestos em fetiche erótico. Alair Gomes recorta a circunstância e cria outra identidade para os atores involuntários. Perversão de sentido. […] Alair era um erudito, conhecedor da história da arte e sabia que a construção transmuta o fetiche em obra. Na perversão, a imagem é tabu e seu usufruto, um gozo impotente. Na arte, a imagem é enigma e seu deciframento gera potência: conhecimento. Alair flagrou cenas em que rapazes flanam pela calçada, fazem ginástica, batem papo. Sem conhecimento, tornam-se atores de uma outra cena (gay) mais complexa que inclui um apartamento onde o personagem principal, o voyeur, está oculto, capturando. Na imagem, os rapazes estão despudorados, indiscretos e são inseridos em uma narrativa lasciva. Estão inconscientes, são objeto de um olhar que perverteu o sentido dos gestos, da cena e da paisagem. O voyeur recorta a circunstância, institui uma outra, erótica. Agora, os gestos têm um projeto lascivo. O voyeur se deleita em incorporar a cena em sua narrativa particular. Por mais criativa que seja essa operação, por maior que seja o salto para um outro território de sentido, não há lugar para esse olhar a não ser em um ritual privado de fetichização: uma coleção particular de ampliações fotográficas. Alair ainda é escravo da imagem (COLKER, 2010, s.n apud PEREIRA, 2017, p. 84).

Barthes (1984) argumenta que a fotografia pornográfica é uma fotografia unária, ou seja, uma foto ingênua, sem intenção e sem cálculo, pois mostra objetivamente aquilo que ela quer mostrar: o sexo, “como uma vitrine que mostrasse, iluminada, apenas uma única joia” (BARTHES, 1984, p. 67). E, para se opor à essa imagem homogênea, o autor cita o artista Robert Mapplethorpe que, segundo Barthes, faz grandes planos de sexos passarem do pornográfico ao erótico, “fotografando de muito perto as malhas da sunga: a foto não é mais unária, já que me interesso pelo grão do tecido”.

Nascido em 1946, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, Mapplethorpe é um dos grandes nomes quando se fala de fotografia homoerótica. Como afirma Jozelia de Moraes Silveira (2009), o artista é conhecido por usar a nudez de forma transgressora, com certo teor agressivo, provocando um desconforto no espectador, pois é uma nudez que, muitas vezes, remete a práticas sexuais ditas não convencionais, rechaçadas pelas leis morais vigentes em nossa sociedade e que pode motivar instintos de defesa no observador.

Figura 9: Jim e Tom, Sausalito. Robert Mapplethorpe. Fonte: LACMA Collections (1978).

Um exemplo do que estamos falando pode ser visto na obra Jim e Tom, Sausalito, de Mapplethorpe. De acordo com Silveira, essa é uma de suas fotografias mais rechaçadas pela opinião pública. Na imagem aparecem dois homens em vestimentas sadomasoquistas, na qual um deles urina frente à boca do outro. O ambiente onde os homens se encontram parece ser um lugar sem muita higiene, a parede e o chão estão sujos, há uma escada no canto esquerdo indicando não ser o local propício para o ato sexual. Esse lugar misterioso onde se encontram os personagens remonta aos locais destinados a práticas sexuais não-tradicionais que despontam na década de setenta.

Além da ambientação, essa fotografia evoca também transformações ocorridas neste período. A questão da homossexualidade, por exemplo, não ser mais ocultada e disfarçada, mas em inúmeros momentos afirmada e exaltada. Quando um artista com grande destaque na sociedade, mesmo recebendo muitas críticas, utiliza com naturalidade o homoerotismo como ponto principal em seu trabalho, certamente acaba por induzir o olhar e consequentemente levantar uma discussão em torno do assunto.

As roupas de couro vestidas por Jim e Tom, de acordo com Silveira, definem o grupo gay que toma conta de boates neste período, que acabam por definir um perfil gay masculino marcado pela virilidade. Essas roupas de couro também aludem à cultura sadomasoquista, muito explorada por Mapplethorpe em suas fotografias. São imagens que abordam o prazer, contudo um prazer marcado por relações em que dor e satisfação se complementam.

 Figuras 10 e 11: X Portfólio. Robert Mapplethorpe. Fonte: LACMA Collections (1978).

As figuras 10 e 11, retiradas de sua série X Portfólio, são exemplos de registros de práticas sexuais existentes no universo sadomasoquista e são práticas incomuns aos padrões ditos aceitáveis da sexualidade. Ao nos depararmos com tais imagens podemos nos perguntar por qual motivo Mapplethorpe registraria instantes que são vistos por muitos com ojeriza. O artista, para Silveira, tinha a intenção de abordar a sexualidade de modo amplo, intenso, sem a necessidade de dissimular ou ter de se submeter aos paradigmas morais.

Não era suficiente que alguém chegasse ao orgasmo – ele queria que o orgasmo fosse produzido por algum ato “criativo”, como por exemplo um cateter, ou uma agulha, introduzido no pênis (MORRRISROE, 1996, p. 170 apud OLIVEIRA, 2009, p. 57).

Dessa forma, a abordagem da sexualidade ou homoerotismo abordado por Mapplethorpe toca em inúmeros aspectos que desejam ser ignorados por boa parte dos espectadores. Ao exibir tais imagens, o artista faz com que o público se coloque, não só na posição de espectador, mas como ser atuante no universo sexual. Ou seja, ao sermos colocados frente a essas possibilidades sexuais não-convencionais, somos convidados e de certo modo inseridos inevitavelmente na sua atmosfera erótica. Universo o qual somos instruídos a evitar.


Ihan de Abreu Leite Peixoto é graduando em Letras Português/Espanhol da Universidade Federal do Ceará (UFC) e integrante do Grupo Visada.


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