DO LEITOR DESESPERADO E OUTROS ROMANTISMOS INSANOS

Abrimos um espaço de resenhas na cassandra. E você deve estar se perguntando: “e daí? tanta revista faz resenha! qual é a novidade disso?”

Mas o que seria resenha? Pois bem, segue excerto ctrl c ctrl v do dicionário:

resenha
re·se·nha
sf

1 Ação ou efeito de resenhar.
2 Descrição minuciosa e pormenorizada.
3 Enumeração cuidadosa; contagem, verificação.
4 Jorn. Sinopse geral das notícias, em um noticiário.
5 Jur. Notícia analisada em todos os seus aspectos, com detalhes e pormenores do fato.
6 Jorn. Análise crítica de um livro ou de um texto; recensão.

Como acredito ser um tanto óbvio, a resenha literária se enquadra na última acepção. Trata-se do texto de um terceiro, que não o autor da obra em questão, escrito sob perspectiva crítica. Para escrever uma resenha é necessário: 1) ler o livro; 2) pensar sobre o que a leitura proporcionou.

Sou ávida leitora de resenhas, adoro ler a leitura (sim, ler a leitura) que outros dão a livros que eu já li. Lembro de resenhas que modificaram minha visão sobre o livro ou acrescentaram muitos elementos em que eu não havia pensado à minha leitura. Diversas resenhas já me fizeram voltar ao livro, reler trechos ou tudo, principalmente no tocante a poesia.

Lembro de outras resenhas, por sua vez, que não passaram de elucubrações acadêmicas altamente tediosas dando voltas num novelo de enche-linguiça. E ainda outras que apenas resumiram a obra, com uma quantidade ensandecida de spoilers (não para menos eu só leio resenhas sobre livros que eu já li, vai que).

E é aqui que eu retorno ao meu questionamento. Bem, o que é resenha já sabemos – e não me arrisco, na minha humilde pequenez, a indicar fórmulas para boas resenhas ou a dizer o que é certo e o que é errado na “arte de resenhar”. Nem acho que qualquer autor, por mais especializado, seja capaz de indicar o que é melhor ou pior, certo ou errado, pois acredito que absolutamente todo ser vivo nesta Terra seja parcial e que sempre exista um elemento de gosto pessoal em tudo que fazemos, por menor que seja. E é por isso que eu falo do ponto de vista do que eu gosto mesmo e pronto, sem me pretender a dona de nenhuma verdade que não a minha própria.

Então, se posso modificar minha indagação, “o que é uma boa resenha?”, e se posso inserir na resposta um cunho altamente pessoal, “é a do leitor que ” (note-se o itálico).

Nenhum romantismo nisso. Desta que vos escreve podeis esperar não mais que insanidade e talvez por isso o que vem adiante possa não fazer o mínimo sentido. Nenhum empirismo nisso também, pois parto de uma opinião completamente enviesada pela minha emotividade excessiva, bem mais excessiva do que o leitor provavelmente cogita. Desta que vos escreve podeis esperar não mais que intensidades emocionais poeticamente arquitetadas para parecerem ainda mais exageradamente intensas.

Afinal a seriedade é um prato ruim num restaurante caro e minha avó dizia que segurar o riso ou o choro dava câncer, o que é mentira, mas sustenta a minha argumentação.

Como leitora compulsiva desde basicamente quando aprendi a ler, mergulho em vários livros por vez, releio o mesmo livro quantas vezes achar que devo, risco, faço orelha, marco, anoto, escrevo, ando com o livro na bolsa por um dois vinte meses, leio na fila do banco, na fila do ônibus, na fila do mercado e na fila do banheiro químico no carnaval. Se você me viu sem um livro então você não me viu inteira.

Por ler assim copiosamente há tantos anos, arrisco dizer pela maior parte da minha vida, nunca leio um livro apenas, mesmo quando estou completamente dedicada a apenas um exemplar. Isso porque a minha leitura de um exemplar específico é sempre entrecortada por referências de outros que li anteriormente. E essas ligações, em cada vez mais quantidade conforme a lista de já lidos aumenta, são inevitáveis, insistentes, por vezes incômodas, porém sempre enriquecedoras.

O leitor que a que me referi não é apenas um cara que pega um livro e lê. É bastante óbvio que contém ironia, afinal todo leitor lê. Esse leitor de que falo é aquele que com paixão, voracidade, anotando elucubrações escalafobéticas nos cantinhos com caligrafia estranha que talvez ele mesmo não entenda depois porque a experiência de passar por um livro é intensa demais para deixar as bordas limpas.

Esse, o leitor que mergulha de cabeça na cara e na coragem num livro sem saber se a água é rasa mas sem medo de bater a cabeça no fundo, esse, o leitor que se entrega a um livro sem medo de ter alguns pedaços de si mesmo lacerados no processo. Esse é o leitor que . Não o que completa o livro e fecha a quarta capa para cumprir um protocolo. O que . Com a paixão dos desesperados.

É a pessoa que entrecorta sua leitura de outras leituras: de livros, de discos, do mundo, do estado de coisas, da sua dor pessoal, da infância, da condição humana, da sua posição no mundo, do universo e tudo o mais (42!). E com tudo isso escreve um texto que percebe aquela obra resenhada não como um livro estanque, mas como um objeto com um conteúdo e uma história que fazem parte do mundo, como algo que tem um lugar e um papel no mundo e no seu tempo.

Tenho lido poucas resenhas de leitores assim ultimamente. Sinto que o gênero resenha se perdeu num academicismo que às vezes me irrita (como este texto pode estar te irritando, o que tudo bem. Ler na força do ódio é também uma leitura emocionada.) Diversas vezes tenho deparado com resenhas escritas de modo protocolar.

Eu, como leitora de livros e como leitora de resenhas, e como criatura intensa que ri chora e se debate ao mesmo tempo, quero um coração dilacerado na minha frente. Quero sentir que aquele que está escrevendo passou pela mesma experiência que eu e ainda está tentando respirar depois de voltar à superfície. Quero me sentir menos sozinha.

Abrimos um espaço de resenhas na cassandra. Um espaço de entrega.


cassandra é um grito. revista de artes e literaturas feitas por, de e para mulheres.

Milena Martins Moura é poeta, editora, tradutora e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Publicou os livros Promessa Vazia (Multifoco, 2011), Os Oráculos dos meus Óculos (Multifoco, 2014) e A Orquestra dos Inocentes Condenados (Primata, 2021), além do plaquete de poesias Banquete dos Séculos (edição da autora, 2021). É editora da cassandra e integra as equipes de colunistas da revista Tamarina Literária e de poetas do portal Fazia Poesia.


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