A PSICANALISE DO HALLOWEEN

Toda cultura suporta uma verdade. Isso não é o mesmo que o dizer antropológico de que o estamento simbólico de uma comunidade deve ser interpretado de acordo com o entendimento de “verdade” localmente pressuposto. Pois a verdade teria a característica de não se confundir com os enunciados a respeito do que é verdadeiro; esta estaria localizada justamente naquilo de mais difundido na cultura popular que aparece como a ficção simbólica tacitamente aceita entre o grupo – algo no nível da enunciação.

Por isso a cultura, e especialmente a “popular”, deve significar (para nós) também um objeto de reflexão. Talvez a aproximação com aquilo em que insistimos em tomar como mero efeito secundário ou desvio com relação ao erudito/pedagógico consista em lidar com os fundamentos do nosso laço social com uma desconfiança reverente. Levar a sério, por exemplo, os rituais e os apegos mais paradoxais que constituem nossa vida social. Que teríamos a dizer, por exemplo, daquelas festividades que combinam oposições que fazem tocar externamente princípios aparentemente intocáveis, como os binômios santidade x pecado, vida x morte, começo x fim?

Na véspera do dia em que se comemora o “halloween” (dia das bruxas ou dos mortos), vemos o rito de sair pelas ruas ou participar de festas à fantasia em busca de doces ser ensejado de forma bastante afetuosa, no esforço de sinalizar uma estética onde os signos do terror são tornados meio que bobinhos ou fingidos. No entanto, essa data comemorativa não é tão boba assim, tampouco banal: ela expõe elementos de ordem traumática de forma lúdica, combinando personagens desde o folclore, estórias tradicionalmente conhecidas ou mesmo do mundo do cinema, como que assumindo sua parte na composição do corpo imaginário da sociedade.

Isso de imediato parece não constituir nenhum problema. Mas desde que pontuemos que a categoria dos monstros, assombrações e presenças aterrorizantes tem alta densidade traumática, deveríamos passar a rever o que essas personagens culturais representam, e qual seria sua ontologia. Na estética e na literatura, o campo conhecido como o da monstruosidade tem matrizes históricas. Os famigerados zumbis, tão consagrados no universo cinematográfico, inclusive, devem sua aparição à uma experiência real: um jornalista americano em expedição no Haiti, na procura de relatar um tipo de feitiçaria que supostamente fazia cadáveres voltarem a andar, é levado a testemunhar com os próprios olhos aquela presença; só que, para sua estranha surpresa, ele é esclarecido por um antropólogo da região de que aquela presença se tratava, na verdade, de haitianos explorados em troca de entorpecentes e sob o efeito de drogas, que lhes dava uma aparência fisicamente anormal[1]. Essa informação constitui um importante indício sobre o que era percebido primeiramente como algo terrífico ou sobrenatural, pois naquela experiência a diferença radical é posta sob a distinção do comum e do estranho, do eu e do outro que me assusta, me apavora. O zumbi, neste caso, assume a nomeação do que surge como alteridade para mim – um outro que é marcado seja pela diferença étnica, racial, de gênero, e por aí vai.

Ao seguir a aposta freudiana em torno do que há de universalmente estranho nos seres humanos, Mladen Dolar[2] aponta que “há uma dimensão específica do estranho que emerge com a modernidade”, uma dimensão que forçaria uma época presunçosamente desencantada a lidar com as aparições que não coincidem com a figura do humano no seio de seu humanismo. Como se justamente pelo fato de a modernidade ter abolido o lugar do inumano, este teria voltado com mais força sob a forma espectral de assombrações místicas nos porões da ficção e na despretensiosa cultura popular. Só que mesmo os zumbis teriam a função de figurar momentos da realidade muito mais acessíveis através da fantasia, onde aquilo que deveria estar “morto” ressurge com ainda mais perseverança, na medida em que não é simplesmente abatido pela morte, pois já é um morto-vivo.

Não faltariam exemplos de como o terror aparece de forma ficcional para nós: fantasmas, lobisomens, frankensteins… todas essas espécies do estranho compõem o limite de nosso senso de humanidade, pelo menos a princípio. Mas elas também podem ser tomadas como metáforas de um estado de coisas que acaba por nos afligir no campo social, como nos lembra o realismo capitalista estudado por Mark Fisher[3], para quem o castelo dos vampiros, representante das categorias de aparente vítima, encoberta pelo desejo neoliberal de dropar a energia dos movimentos emancipatórios em favor dos interesses do grande Outro burguês, deve ser imediatamente abandonado… Se tomarmos o Halloween como esse momento da realidade expresso pela cultura popular, não perderíamos ao perceber que suas performances, metáforas e figuras dizem muito mais a respeito do modo como socializamos a dimensão do estranho e da alteridade do que gostaríamos. Talvez estejamos na vez de perceber o que Lacan chamara de Real, essa externalidade absoluta que nos impele desde dentro. Pois no Real-loween, as monstruosidades e seus modos de entificação exigem a dignidade de quem quer ser tratado com certa atenção. Com razão, essas exigências poderiam muito bem ser justificadas, já que o cerne das contradições sociais impera precisamente nesse limite entre o humano e o inumano.


[1] Esse relato foi retirado da introdução do livro GONSALVES, R.; PENHA, D. Ensaios sobre mortos-vivos: The Walking Dead e outras metáforas, 2018. Leitura recomendada para algumas perspectivas contemporâneas sobre o tema.

[2] DOLAR, M. (1991) “Eu estarei com você em sua noite de núpcias”: Lacan e o estranho.

[3] FISHER, M. (2017) Deixando o Castelo Vampiro.


Micael Correia tem 23 anos e é um escritor não-autorizado. Tem experiência em Psicologia Clínica e se interessa pelas áreas de Psicanálise, Filosofia e cultura popular.


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