DE POETA PARA POETA: Padre Correia de Almeida, Belmiro Braga e um “velho” dicionário de rimas

Em 20 de outubro, comemora-se o Dia do Poeta. Se, para muitos, a data não encerra um significado necessariamente festivo, ao menos me faz acionar múltiplas memórias. Dentro desse repertório memorialístico, ocorreu-me a ideia de escrever sobre um volume raro da Biblioteca do Museu Mariano Procópio. Trata-se de uma publicação do século 19, dotada de pequenas dimensões (14 x 10 x 2,5 cm), intitulada Dicionário de Rimas Luso-Brasileiro, de autoria de Eugenio de Castilho e editado em Lisboa, pela C. S. Afra & Cia. Editores

Essa publicação portuguesa circulou amplamente entre diversos escritores brasileiros. O autor, Eugênio de Castilho, nasceu em Lisboa em 1846 e faleceu em 1900. Atuou como escritor, poeta e amanuense da Biblioteca Pública de Lisboa. Aos vinte anos, ingressou na carreira literária, escrevendo o romance Miragens da Felicidade. Dentre os periódicos com os quais colaborou, destacam-se a Folha dos Curiosos e Diário Ilustrado. Em 1868, publicou Pátria contra a Ibéria. Seu pai era o português Antonio Feliciano de Castilho (1800-1875), o Visconde de Castilho, famoso latinista, poeta, prosador e escritor romântico que exerceu o cargo de Comissário Geral de Instrução Primária em Portugal, desenvolvendo o controvertido “método Castilho de leitura”. Apesar de nunca ter sido adotado oficialmente, seu método de “leitura repentina” foi propagado por diversos lugares, inclusive no Brasil-Império, onde chegou a visitar e fazer amizade com d. Pedro II. No Dicionário de Rimas Luso-Brasileiro, publicado por seu filho, ficou incumbido de elaborar o prefácio da obra.

Atualmente integrando a Biblioteca do Museu Mariano Procópio, o referido dicionário chama atenção pela assinatura a caneta contida em sua folha de rosto, sugerindo seu pertencimento a Correia de Almeida, um famoso padre-poeta satírico de Barbacena (MG), que, vivendo entre 1820 e 1905, deixou vasta produção literária em livros e na imprensa. Seus escritos alcançaram tanto os públicos leitores do Brasil quanto os de Portugal, onde, segundo Maria Marta Araújo (2007), teve suas obras apresentadas pelo próprio Visconde de Castilho, o pai do autor e prefaciador do dicionário. Outro registro a caneta, também encontrado na folha de rosto, informa que, posteriormente, o exemplar passou às mãos do poeta Belmiro Braga (1870-1937), que redigiu a seguinte mensagem de próprio punho: “Presente que me deixou o querido Padre Correia de Almeida ao morrer”. 

Em Dias Idos e Vividos, livro de memórias publicado pela editora Ariel, em 1936, o mineiro Belmiro Braga não se furtou a render homenagens ao padre-poeta barbacenense, reportando-se ao dicionário como uma espécie de símbolo/vestígio material dessa relação de amizade e de trocas literárias: “O Padre Correia de Almeida deixou-me em testamento, uma obra preciosa: – um dicionário de rimas velhíssimo, da primeira à última página todo acrescido de novas rimas por seu próprio punho. Almas boas como a desse querido amigo é que me fazem crer que o céu existe…”.

Apesar de pertencerem a faixas etárias muito distintas, Belmiro e Padre Correia estabeleceram próximas relações e dialogavam, em alguma medida, com tradições literárias em comum. O primeiro contato de ambos data do final do século 19, quando Belmiro atuava como comerciante em um armazém na estação ferroviária de Cotegipe (MG), distrito de Juiz de Fora (MG). Além de trocarem livros e correspondências, Belmiro comentava na imprensa sobre a produção do amigo, como demonstra o texto que publicou no Jornal do Comércio de Juiz de Fora, em 29 de novembro de 1903: “[…] De outro grande amigo e grande mestre – o venerando padre Correia de Almeida – recebi também o seu último livro – Rabugem Inaderente – uma coleção de quadrinhas espontâneas, nas quais o Tolentino Brasileiro passa mais uma tunda nos nossos costumes. […] a lira do meigo velhinho de Barbacena não falta ainda nem uma corda e está afinadíssima, apesar dos seus oitenta e quatro anos. Estro espantoso, velhice fecunda”.

As redes de interlocução e sociabilidades dos escritores contribuíam para a ampliação de seus acervos bibliográficos, além das compras realizadas nas principais livrarias da capital do país, onde se mantinham antenados às novidades que chegavam ao ainda incipiente mercado editorial brasileiro. Foi assim que Belmiro Braga constituiu uma significativa biblioteca em sua casa, em Juiz de Fora, no início do século 20. Em 1916, porém, devido à sua mudança de residência para o Rio de Janeiro, precisou vender parte desse acervo à Livraria Sampaio, de Juiz de Fora. Segundo O Pharol, de 13 de abril de 1916, o acervo vendido contava com mais de mil exemplares, muitos dos quais possivelmente lidos e/ou folheados pelo menino e futuro escritor Murilo Mendes, como este declara em seu livro de memórias, A Idade do Serrote: “[…] amigo de meu pai, tendo eu sete anos voluntariamente me ensina a rimar e metrificar, mais tarde me abre a caverna da sua biblioteca onde durante mil e uma tardes descubro Bocage, Antonio Nobre, Cesário Verde, Camilo, Fialho de Almeida, Eça de Queirós […]”. 

Diante do fato, faz-se necessário indagar: teria sido o dicionário de rimas também colocado à venda, juntamente com essas centenas de obras? É plausível supor que não. Devido ao seu valor afetivo, o exemplar parecia ocupar um lugar especial no acervo particular do poeta, integrando o conjunto de livros que o acompanhariam ainda por muitos anos. Não se sabe ainda “como”, mas o fato é que a “pequenina” publicação chegou às mãos de Arthur Tavares Machado, então funcionário do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, tendo-a doado ao Museu Mariano Procópio no início da década de 1970, juntamente com outros objetos e publicações do amigo do padre-poeta. O referido acervo integrou, em 1972, a exposição Centenário de Belmiro Braga, organizada pela então diretora da instituição, Geralda Armond.

Como se vê, o valor deste exemplar do Dicionário de Rimas Luso-Brasileiro não se encerra em seu conteúdo, mas se estende à maneira emblemática como exemplifica a aplicação dos conceitos de “objeto biográfico” e “biografia cultural do objeto”, ambos muito caros à história social do livro. O primeiro contribui para analisar a relação entre o livro e seus proprietários, demonstrando as influências que um exerce sobre o outro durante suas trajetórias, através das marcas pessoais deixadas pelos proprietários nas folhas e na encadernação da obra, e dos significados simbólicos que a obra possui para seus proprietários. O segundo conceito, por sua vez, contribui para refletir sobre a trajetória do “livro-objeto”, demonstrando os múltiplos contextos que percorreu, lugares por onde passou, pessoas e instituições a quem pertenceu, bem como os usos, abusos e significados assumidos em diversos momentos da história. Portanto, não seria forçoso reconhecer que o dicionário de rimas, sendo um “objeto biográfico” portador de uma “biografia cultural”, participou do processo de construção das “memórias de si” de seus antigos proprietários.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Maria Marta. Com quantos tolos se faz uma República? Padre Correia de Almeida e sua sátira ao Brasil oitocentista. Belo Horizonte: UFMG, 2007.

BARBOSA, Leila Maria Fonseca. Belmiro Braga: Sacrário (versos íntimos). Texto e avaliação. Dissertação (Mestrado em Teoria Literária) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1979.

BRAGA, Belmiro. Dias Idos e Vividos. Rio de Janeiro: Ariel, 1936.

GOMES, Ângela de Castro (org.). Escrita de si, escrita da História. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.

MORIN, Violette. L’objet biographique. In: Communications, 13, 1969. p. 131-139. Disponível em: http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/comm_0588- 8018_1969_num_13_1_1189.

PINHEIRO, Priscila da Costa; VICENTE, Sérgio Augusto. O livro no contexto museal: peculiaridades e potencialidades da Biblioteca do Museu Mariano Procópio. In: MELO, Elayne Luciana Leite de (org.). Encontro de Educadores do Museu Mariano Procópio. Juiz de Fora: Templo, 2015. p. 91-101.

VICENTE, Sérgio Augusto Vicente. Antônio Sales, Belmiro Braga e Pedro Nava: trajetórias que se cruzam. Revista Trama: arte, cultura e criatividade, Juiz de Fora, v. 104, 15 ago. 2021.

VICENTE, Sérgio Augusto. Teatro, crítica social e modernidade na produção do escritor Belmiro Braga (1870-1937):as peças de ‘gênero ligeiro’ na Primeira República. In: XIX Encontro de História da Anpuh-Rio – História do Futuro: ensino, pesquisa e divulgação científica. Rio de Janeiro: Anpuh-Rio, 2020.

VICENTE, Sérgio Augusto. Entre o interior e capital: a trajetória biográfica do literato mineiro Belmiro Braga (1872-1937). In: Anais do VIII Encontro de Pesquisa em História. Belo Horizonte: UFMG, 2019.

VICENTE, Sérgio Augusto. Biografia como problema, humor levado a sério: Belmiro Braga, um trovador popular na Belle Époque tropical. In: Anais da XIV Semana de História Política – Res Publica: caminhos e descaminhos da cidadania brasileira. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2019.


Sérgio Augusto Vicente é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.


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