CAFÉ COM CANELA

Os fundos do postinho de saúde do bairro são um só ao pé do morro do Marmelo. De boba, essa construção não tem nada: se prende à única montanha daqui para se proteger do vento. O Grupo da Loucura se reúne às quartas pela manhã, quando a Zélia, a enfermeira, está passando o café e os cachorros ainda estão dormindo no sono profundo.

Entre alguma conversa do grupo, João me pergunta quem me ensinou a prender o meu cabelo em tranças. Ele queria aprender também. O assunto devia ser algo próximo a isso porque enquanto me organizo para falar, sinto o silêncio me pinicar. Vó Gegê me ensinou. Era doida também. As vozes preenchem a roda novamente, sorte estarmos no pé do morro porque ao longe ouço o vento assobiar exibido, mas eu sigo em silêncio. O chão me olha firme e as rachaduras desenham o rosto dela, minha vózinha, e eu pergunto se ela esteve sempre ali. Obviamente, não recebo respostas. 

No enterro dela, pouca gente foi. Eu, o vizinho Gustavo, com quem ela dizia que ia casar e nosso cachorro, Joaquim, que achou o caminho do cemitério sozinho. Durante horas, ali diante do corpo sereno da vó, não se fez sequer um ruído. Até os insetos se mantiveram calados, imóveis, em respeito. Eu de um lado, aquele homem de outro, e Joaquim deitado na entrada. Pouco antes de ir embora, Gustavo falou. Antes de perceber o que dizia, percebi sua voz macia, coisa que devia agradar minha vó que sempre falou grosso sem querer. Eu e Gê nos encontrávamos todas as noites, não sei se você sabia. 

Meu pai chegou pouco depois com as duas irmãs, eu já estava sozinha com o cachorro e a vó, as lágrimas secas, um certo gosto bom na boca me deixando viver. Eles não olharam para ela e também não me abraçaram, sequer fizeram um carinho em Joaquim. Achei rude da parte deles, papai me disse algumas coisas, mas nada disso me alcançou naquele momento. Tudo em mim era fortaleza: vó Gegê vivera um amor. 

Só em casa, naquela noite, calçando as pantufas de vovó e tomando chá, fui ouvir o que meu pai tinha dito mais cedo. Essa mulher ruim me deixou um monte de problema. Me lembrei de uma fala pigarrenta, não sei se pelo cigarro ou pela emoção. Inclusive você, que foi morar com ela e enlouqueceu igual. Tive a impressão de que ele achava que eu iria pedir para morar com ele e a nova família, de que eu não daria conta de mais nada, mas eu dei, eu enviei uma mensagem a ele naquela noite dizendo eu vou ficar aqui sozinha, fique tranquilo paizinho. 

Nunca me perguntaram, aqui no postinho, quando foi que comecei a ouvir as vozes – o que acho bastante confortável, já que eu também não sei e não tenho vontade de procurar. Vovó ouviu por grande parte da vida. Acho que quando meu pai e minhas tias ainda eram pequenos, ela era mais agressiva, não sinto que a raiva seja em vão. Mas eu não conheci a mesma mulher e me sinto sempre incendiada por essa possibilidade de ver, num mesmo corpo, outra pessoa e outros afetos. 

Vó Gegê aprendeu a lidar com as vozes. Tomava a medicação todos os dias junto com chá de camomila do quintal e nunca faltava às consultas. Mas além da bioquímica da coisa, ela tinha feito amizade com a loucura e tomado para si esse título. Não acho que eu escute por influência dela. Acho que, por influência dela, eu goste de quiabo e arroz doce. Também por crescer com ela eu sei fazer trança e sambar, cultivar plantas e pular amarelinha. Também com ela aprendi a costurar meus próprios vestidos. Por influência dela, eu tomo café com canela, e acho isso a herança mais bonita que uma pessoa pode deixar. Quando olho para o mundo, vejo um pouco dela em quase tudo e sei que solidão nenhuma me acompanha mais — vó Gegê me apresentou a mim. 

A gente tem o mesmo nome, eu e minha vovó, sabia? Eu cochicho ao João. Ele me olha e ignora o tempo entre minhas sentenças, perseverando um gentil interesse e eu sei, numa refrescante certeza, que eu e a loucura também fizemos amizade.


Fernanda Zeloschi é estudante de Psicologia, escritora teimosa e acredita nas faíscas do afeto através do @fazerafetar


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