A ESCRITURA HOMOERÓTICA NAS FOTOGRAFIAS DO SÉC. XX – PARTE I

Este trabalho busca investigar, através de retratos feitos pelos artistas Alair Gomes, Andy Warhol e Robbert Maplethorpe, a escritura homoerótica na fotografia e como ela pode ser concebida. A arte, em geral, vem sendo percebida por meio de discursos heteronormativos, e mostrar uma outra forma de percepção e leitura ajuda a transformar e ampliar o entendimento do espectador.

A história da arte não se constrói exclusivamente através de discursos heteronormativos. Neste sentido, reforçar a homoerotização do corpo masculino na fotografia contribui para perturbar as políticas consideradas protótipos e abre uma brecha para ressignificar a leitura de imagens associadas à sexualidade.

O corpo masculino enquanto objeto, em si, contesta uma naturalização opressiva. A exploração do corpo do homem na arte, em especial na fotografia, ainda é bastante restrita; basta um olhar atento ao nosso repertório de imagens para nos darmos conta que o corpo-objeto feminino foi construído e esmiuçado de todos os ângulos possíveis, sem nenhum pudor, ao longo da história, enquanto o masculino não.

No século XX, há um desenvolvimento de automação da própria máquina fotográfica, além de uma acessibilidade ao aparato. O aumento populacional, as grandes descobertas científicas e tecnológicas e o crescimento das cidades também são fatores indispensáveis para alterarem a forma de vida das pessoas, as quais, de acordo com Alexandre Santos (2002), passaram a cultuar fotos de esportistas semi-nus, além de fotos dos leading men, muitas vezes em trajes mínimos, e fotos de beefcakes, que seriam o equivalente masculino da pin up feminina. Há, portanto, no século XX, um fomento da presença do homoerotismo nas imagens.

Para percebermos que a presença do erotismo nas produções imagéticas não é algo recente, Afonso Medeiros (2008) propõe uma rápida digressão sobre os três clássicos Davis na escultura renascentista. O primeiro David (1430-40), de Donato di Betto Bardi (1386-1466), apresenta todos os traços de um corpo infantil: sem pelos, musculatura frágil, cabelos longos e um rosto de menino que olha para baixo, mostrando timidez. O segundo David (1473-75), de Andrea del Verrochio (1435-88), já mostra estar em plena transformação física: musculatura surgindo, cabeça erguida, olhar confiante, ostentando uma pose exibicionista. Por último, o David (1501-04), de Michelangelo Buonarroti (1475-1564), é um jovem no auge de sua beleza, revela toda a sua virilidade, confiante e pronto para o ataque. Quando o David de Michelangelo foi instalado na praça central de Florença, mesmo os florentinos já estando acostumados com inúmeras representações de nus, a população ficou chocada com a nudez do herói. Isso porque a nudez que expõe toda a musculatura e virilidade do último David está repleta de sensualidade e erotismo, traços pouco verificados nos Davis que o antecederam. De acordo com Medeiros, se traçamos um fio condutor que parte do humanismo até o cientificismo, percebemos que artistas, filósofos e cientistas contribuíram, cada um com as restrições de sua área, para a exploração do erotismo na história da iconografia, em especial a iconografia cristã, na qual santos e anjos encarnam uma sensualidade de nuances diversas, em um jogo de revelar/esconder, mas sempre evidenciando que o corpo é o principal objeto.

A representação do corpo de santos e divindades, apesar de uma não tão rara sensualidade, jamais chega às raias do obsceno. Se a configuração de corpos encarnou-se inclusive em cenas religiosas, não podemos negligenciar o fato de que o erotismo entranhou-se em outras paragens, ainda sob a égide do mito e da alegoria (MEDEIROS, 2008, p. 42).

Dessa forma, buscando descrever essa junção entre o homoerotismo e a fotografia do século XX, tentamos mapear um corpus que aproxime características e traços artísticos – nem sempre há consenso entre eles – em diálogo com as premissas expostas sobre o homoerotismo. O corpus é formado pelos retratos realizados por Alair Gomes, Robert Mapplethorpe e Andy Warhol. Julgamos importante frisar que há muitos outros artistas que, com idêntica competência, estão inseridos na homoarte[1] e perscrutam o mesmo tema por diferentes prismas.


[1] Sobre o termo, ler GARCIA, Wilton. Arte homoérotica no Brasil: estudos contemporâneos. Revista Gênero, Niterói, v. 12, n. 2, p.131-163, set. 2012.


Ihan de Abreu Leite Peixoto é graduando em Letras Português/Espanhol da Universidade Federal do Ceará (UFC) e integrante do Grupo Visada.


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