OS AUTÓGRAFOS NO MUSEU MARIANO PROCÓPIO

Um dos primeiros itens do acervo documental do Museu Mariano Procópio com o qual tive contato foi uma correspondência assinada por Napoleão Bonaparte. Inicialmente, o objeto chamou minha atenção pela assinatura que carrega. Em seguida, sua presença na instituição aguçou minha curiosidade, pois se trata do único documento desse personagem sob a guarda do Arquivo Histórico. Ao buscar informação sobre o item, constatei que ele faz parte da seção de “Autógrafos” do arrolamento dos bens artísticos, históricos e científicos do museu, realizado em 1944, após o falecimento do seu fundador e primeiro diretor, Alfredo Ferreira Lage.

A coleção de autógrafos do Museu Mariano Procópio, arrolada em meados da década de 40, é formada por diferentes tipos de documentos, produzidos entre os séculos XVI e XX. Tratam-se de  cartas, cartões, cartas patentes, poesias, composição musical, desenho e outros, elaborados por personagens brasileiros e estrangeiros, conhecidos nas áreas de história, letras, artes e ciências. Dentre os autógrafos da coleção, constam os de d. João VI, José Bonifácio, rainha Vitória, Solano Lopez, Giuseppe Garibaldi, Gonçalves Dias, José de Alencar, Eça de Queiroz, Victor Hugo, Cabanel, Léon Bonnat, Mendelssohn, Liszt, Martius, Agassiz e Emil du Bois-Reymond. Alguns deles despertam interesse pela antiguidade, como o de Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico no século XVI. Outros pela autoria, conteúdo ou forma como foram registrados. Os itens listados na seção de “Autógrafos” do arrolamento de 1944 constituem o núcleo que deu origem ao Arquivo Histórico do museu, criado em 1939.

Autógrafo de Carlos V, datado do século XVI, e detalhe com a assinatura

Autógrafos de Arthur Napoleão e d. Pedro II, respectivamente

Mas, afinal, o que são os autógrafos? Para a maioria das pessoas, a palavra “autógrafo” encontra-se associada à assinatura de uma personalidade. Entretanto, a definição do termo vai além, já que qualquer item escrito por alguém é um autógrafo. Cartas, documentos, dedicatórias, desenhos, mapas, pensamentos, frases literárias ou musicais manuscritas compõem o universo dos autógrafos, que podem ou não ser assinados.

Durante o século XIX, a prática de colecionar autógrafos se difundiu nos países da Europa e nos Estados Unidos, e a partir do início do século XX, o comércio desses itens se consolidou. Para adquirir uma peça, os colecionadores avaliavam fatores como autoria, temática, data, raridade, procedência e estado de conservação do documento. O colecionador atento se interessava não apenas pela assinatura em si, mas pelo conteúdo do item documental.

Ao lançarmos um olhar mais cuidadoso sobre o autógrafo de Napoleão, pertencente ao museu, observamos que tanto o remetente quanto o destinatário da correspondência, marechal Berthier, foram indivíduos notáveis. Napoleão Bonaparte destacou-se durante a Revolução Francesa (1789-1799), movimento que modificou não somente a história da França, mas do mundo ocidental. Teve papel fundamental no chamado “Golpe do 18 de Brumário”, ocorrido em novembro de 1799, caracterizado pela dissolução do Diretório e pela instituição do Consulado, forma de governo com poder centralizado nos militares e composta por três representantes – sendo Napoleão um deles. Em 1801, tornou-se primeiro cônsul e, três anos depois, imperador da França, recebendo o título de Napoleão I. Por sua vez, Louis Alexander Berthier participou da guerra de independência dos Estados Unidos da América e das guerras revolucionárias francesas (1792-1802), sendo o responsável pela proclamação da república em Roma e a prisão do Papa Pio VI, em 1798. Nomeado marechal por Napoleão, foi uma figura importante no império francês e nas “guerras napoleônicas”, relacionadas ao expansionismo do império e, também, à transferência da família real portuguesa para o Brasil em 1808.

Além do remetente e destinatário da carta, outros pontos merecem destaque. Em primeiro lugar, o local e a data do documento, produzido em Wagram no dia 11 julho de 1809, poucos dias após a derrota do exército austríaco na batalha de Wagram: a vitória da França sobre a Áustria representava o avanço do império francês e de seus ideais pela Europa. Foi nessa ocasião que Berthier recebeu o título de “Príncipe de Wagram”. Ademais, vale ressaltar que no ano seguinte, Berthier foi incumbido por Napoleão de fazer o pedido oficial de casamento a Maria Luísa, filha do imperador austríaco recentemente derrotado. Lousion, que se tornou a segunda esposa do monarca francês, era irmã da futura imperatriz do Brasil, d. Leopoldina. Por fim, a etiqueta localizada na parte inferior do documento sugere que o item foi adquirido em leilão. Na década de 1930, documentos de Napoleão Bonaparte podiam ser vendidos por preços superiores a quadros de artistas renomados.

Autógrafo de Napoleão Bonaparte e detalhes

Nesse caso, o autógrafo de Napoleão corresponde exatamente a sua assinatura. No entanto, o Museu Mariano Procópio possui, também, documentos autógrafos e assinados: ou seja, manuscritos e assinados por uma mesma pessoa. Em uma carta endereçada a Alfredo Lage, datada de 1905, o autor relatava o envio de “uns versos de Castro Alves por ele escrito e que levam sua assinatura”. O remetente, Miguel de Teive e Argollo, informava ainda a procedência do documento: “Foram eles me oferecidos por sua distinta irmã D. Adelaide de Castro Alves Guimarães”. O poema é intitulado “A uma atriz” e foi dedicado a Eugênia Câmara, artista portuguesa com quem Castro Alves manteve um relacionamento, cheio de altos e baixos, entre os anos de 1866 e 1868. Por ter falecido aos 24 anos de idade, os autógrafos de Castro Alves são raros. Dessa forma, o documento escrito e assinado por ele se destaca pela autoria, conteúdo, data, procedência e raridade.

Autógrafo de Castro Alves

Para formar sua coleção de autógrafos, Alfredo valeu-se de compras em leilões e recebimento de doações, procurando reunir documentos aos quais poucas pessoas teriam acesso no Brasil. Todavia, se naquele momento o documento era pensado de forma isolada, como uma peça rara, curiosa ou “sagrada”, hoje ele é compreendido como um objeto gerador de conhecimento. Por isso, torna-se necessário interrogar o documento e as narrativas nas quais ele se insere: foi feito por quem e pra quem? Quando? Em que contexto? Por que foi incorporado ao museu? Como? Qual o uso que a instituição fez e faz dele? A preservação de uma coleção documental se justifica pela necessidade de pesquisá-la e comunicá-la aos diversos públicos e às gerações futuras. Ao ser pesquisada e comunicada, a coleção é, ainda, preservada. Eis aí um grande desafio que deve ser enfrentado pelos museus da atualidade: preservar, investigar e comunicar seu acervo, de modo que ele possibilite a construção do conhecimento.


Referências:

LAGO, Pedro Corrêa do. Documentos autógrafos brasileiros. Rio de Janeiro: Salamandra, 1997.

PREFEITURA MUNICIPAL DE JUIZ DE FORA. Arrolamento dos bens artísticos, históricos e científicos do Museu Mariano Procópio, 1944.

PROCÓPIO, Rita de Cássia de Andrade. O Arquivo Histórico do Museu Mariano Procópio: de Carlos V a Arthur Arcuri – Cinco séculos de história. Juiz de Fora, 2002. (Monografia, Funalfa/PJF).

RAMOS, Francisco Régis. A danação do objeto: o museu no ensino de História. Chapecó: Argos, 2004.


Priscila da Costa Pinheiro é graduada e mestre em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professora da Secretaria Municipal de Educação de Juiz de Fora. Atua como historiadora na Fundação Museu Mariano Procópio, dedicando-se à pesquisa e difusão do acervo arquivístico e bibliográfico da instituição.


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