O DIA EM QUE A MEMÓRIA PAROU DE EXISTIR

Em um artigo de 1993 cujo título é “Entre memória e história: A problemática dos lugares”, Pierre Nora anuncia “fala-se tanto de memória porque ela não existe mais”. Segundo o autor, havia uma noção cada vez mais acelerada de um passado morto e, dessa forma, a construção de uma consciência de si sob o signo do fim de alguma coisa. Tradição, costume e ancestralidade estariam, se não mutadas, em repetição dado o sentimento histórico que restava. Nesse ponto, nota-se a diferenciação entre história e memória para o autor e, de fundamental importância, é a compreensão da memória vinculada e instalada no sagrado de grupos, ou seja, um elo de vida carregada de símbolos e alimentada por determinado grupo, enquanto a história seria laicizante por sua própria operação intelectual em observância da análise e discurso crítico e, com isso, teria vocação para o universal. A memória é um absoluto e a história só conhece o relativo (NORA, 1993, p. 9). A noção atribuída ao fim da memória, diz respeito, portanto, a história-memória como símbolo discursivo de grupos que buscavam tendências universais pelas suas próprias lembranças e esquecimentos. A história, ao contrário [da memória], pertence a todos e a ninguém (NORA, 1993, p. 9).

A este ponto do texto, talvez, você esteja se perguntando sobre os monumentos já produzidos em reflexo de memórias. Os chamados lugares de memória seriam, segundo o autor, prova de que não há mais meios de memória, ou seja, se habitássemos ainda nossa memória, não teríamos necessidade de lhe consagrar lugares (NORA, 1993, p. 8). Um outro questionamento, seria o meio pelo qual essas memórias ocupam os seus devidos lugares, no sentido de quem a transporta e, segundo Nora, o transporte da memória para seus lugares de refúgio seria a própria história, não os grupos, mas a história que, por sua vez, é construção eternamente incompleta. Os lugares de memória são, por consequência, restos. Arquivos, museus, cemitérios, coleções, enfim, são ilusões de uma eternidade findada cuja potência se relaciona aos rituais comemorativos que nos fazem crer que nada surge espontaneamente, assim, é necessário organizar celebrações, comemorar aniversários, etc.

Tudo o que é chamado hoje de memória não é, portanto, memória, mas já história (NORA, 1993, p. 14). Havendo o rasto, a distância e a mediação, não falamos mais da memória, pois já estamos dentro da história. Ainda que a memória seja experimentada no interior, ela demanda suportes exteriores e referências para lograr êxito em sua própria existência e, nesse movimento em que a história surge como transporte a memórias ela as coloca sob tempos e contextos, isso em si, já indicava um movimentação na historiografia dos anos 90, a rigor, um desenvolvimento para além do capital experimentado na intimidade das memórias, mas uma ampliação para uma história através de reconstituições. A medida em que a história relativiza memórias, ela também a materializa como testemunho de um passado desconhecido pois, ainda que não diga respeito a uma representação irrefutável e absoluta (dentro da metodologia e disciplina histórica), faz parte do vestígio, é característica sem a qual não chegamos ao passado.

Pensar o contexto em que Nora escreve em 1993, é refletir acerca das densas produções historiográficas realizadas sobre a 2º Guerra Mundial que, diretamente, dizia respeito a memória do Holocausto. Para os judeus, o Holocausto é uma marca irrevogável em sua história e, ainda que existam memórias individuais, elas são construídas através de memórias coletivas, portanto, é um passado que não passa para esse grupo, segundo Temístocles Cézar. A memória seletiva e negociada de uma Nação no Terceiro Reich só pode ser analisada tendo em vista as políticas de extermínio a judeus e outros grupos minoritários, por exemplo. Ao futuro não pertence a memória ou não deveria pertencer a narrativa das “boas intenções” de Hitler e, por isso, a história transporta memórias quando já colocadas sob o escopo de cada tempo, com a interface dos diversos sujeitos imersos no processo histórico. Ao fim e ao cabo, ainda que exista a construção de memórias relativas aos “vencedores”, cabe a história entender não apenas os que não “venceram”, mas também os que não estavam travando diretamente os confrontos. A memória pode tentar justificar barbáries como também significar a inclusão de grupos outrora marginalizados e silenciados na própria história, falei um pouco sobre isso no meu último texto. Para uns, a história irá significar a quebra da relação de veneração com os outros do passado e, para outros, um grito potencializador após séculos de silêncio e, sempre, será uma forma contínua de reimaginar a si no presente.


REFERÊNCIA:

NORA, Pierre. “Entre memória e história: A problemática dos lugares”. In: Projeto História. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História. São Paulo: PUCSP, vol. 10. dez. 1993


Gyovana Machado é cristã, formada no Seminário Rhema Brasil, graduanda em História pela UFJF, bolsista no LAHES, interessada nas grandes áreas de teologia, política e feminismo.


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