BRASIL: (DES)ALENTOS NOSSOS DE CADA DIA

Não parece, mas a vida ainda nos oferece pequenas e gostosas surpresas. Nesse final de semana, apareceu lá no sítio da minha família um menino, de mais ou menos oito anos. Não é a primeira vez em que ele dá o ar de sua graça por lá, acompanhado do pai, caminhoneiro, e do amigo do pai. Curiosamente, adora conversar com minha mãe e minha irmã. O motivo? Ambas, assim como ele, amam plantas.

“Vocês têm a planta tal?”

“Não!”

“Oba! Vou trazer pra vocês! Posso?”

“Que planta é esta? E aquela? A senhora me dá uma muda pra levar?”

“Ai! Minha mãe vai me matar! Não gosta de me ver chegar em casa com plantas!” Comentou sorrindo.

Resolvi interpelá-lo: “Você está estudando?”

“Sim!”

“Em qual escola?”

“E faz diferença?… Em casa…”

“Acho tão bonito o amor e carinho que você, tão novinho, revela sentir pelas plantas, pela natureza…”

“Eu gosto mesmo! Quero ser paisagista e botânico quando crescer!”

A conversa foi fluindo, até eu dizer que ele era a esperança de um país melhor, e que tinha muito a ensinar a vários marmanjos por aí, inclusive ao Presidente da República.

“Por quê?”

“Porque ele é inimigo da natureza. Você não sabia disso?”

“Você sabe que eu até acho ele meio metido mesmo?!”

“Pois é! É um absurdo votarem nele novamente, né?!”

“Mas o Lula é comunista!” Respondeu-me abruptamente, com uma espontaneidade e uma ingenuidade infantis, de quem, toda noite, antes de dormir, ouve ameaçadoras estórias de terror, em que um monstro, vermelho, aparece com uma faca na mão para esquartejar e devorar criancinhas.

Expliquei-lhe que essa estória de “comunismo” era uma mentira criada para fazerem as pessoas sentirem medo do Lula. Disse ainda que não precisamos gostar ou concordar com tudo o que o Lula fez, faz, foi ou é, mas não podemos acreditar nessa mentira de que ele é comunista.

“Daqui a um tempo, quando você estiver maior e, continuando estudioso como é, saberá o que é comunismo.”

“Mas se o Bolsonaro não gosta da natureza, já vou pedir pra minha mãe e o meu pai não votarem nele mais!”

Há metros de distância, sem fazer ideia do teor da conversa, o pai grita: “Menino, vamos embora, anda!”

Hoje de manhã, outra surpresa. De volta à cidade, após o feriado do 7 de setembro, chego à portaria do meu prédio e vejo duas senhoras conversarem atrás de mim sobre a bandeira do Brasil com que envolveram a imagem de Nossa Senhora Aparecida, na igreja.

“Fulana, posso estar pecando… Mas você sabia que eu fiquei até cismada?!”

“Por quê?!”

“Uai! Depois daquela manifestação de ontem…”

“Ah, mas a gente não pode confundir as coisas…”

Eu, intrometido que só vendo, fui logo metendo o focinho aonde não fui chamado:

“Te entendo, minha senhora! A gente fica desconfiado mesmo quando alguém aparece com uma bandeira do Brasil… Conseguiram até roubar os símbolos nacionais da gente, né?! Muito triste isso!”

“Pois é, moço! Mas tenho fé em Deus de que vamos reaver nossa bandeira. Eles não são maioria!”

De repente, o elevador apareceu.

“Verdade! Tamo junto! Tchau e boa semana!”

De dentro do elevador, pude ainda ouvir a senhora comentar com a outra: “Que coisa boa ouvir isso a essa hora da manhã!”


Sérgio Augusto Vicente é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.


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