O AR QUE FOR PRECISO

Ao amanhecer, levanto o corpo carregando o desejo de permanecer na cama e logo as sandálias estão se segurando nos pés e o café queimando a língua no movimento apressado do atraso diário. O ônibus cheio, meia dúzia de pessoas com suas máscaras, com sorte consegui me sentar perto da porta de saída. O sol fermentando o dia, o silêncio diante do mistério de escrever mais vinte e quatro horas iguais por um papel potencialmente diferente. 

No prédio, os elevadores fazem viagens lotadas e a fila para subir espreme o saguão. Na minha frente uma senhora, um homem careca e o resto não vejo porque prefiro observar nossas solas sujas fazendo trilhas no chão recém lustrado. Entram no cubículo uma, duas, cinco pessoas quando eu levanto meu olhar e reconheço um corpo lá dentro. Os ombros caídos, o cabelo comprido, a mesma jaqueta: o primeiro homem para quem falei de amor. Antes que eu fuja para as escadas, o porteiro me convida, ainda cabe você, pode vir e enquanto entro, quero dizer que nunca me coube nada ali.

Meu peito esquenta e eu finjo que é raiva de estarmos tão apertados. Quero dizer ao zelador para voltar a limitar a entrada de pessoas, embolo uma reclamação na boca querendo soltá-la ali mesmo, minha gente, é pandemia ainda. As palavras, com sorte, não saem. A falta de espaço faz minhas pernas se lembrarem da angústia de não conseguirem fugir. Minha pele arrepia numa tentativa de levantar espinhos ao meu redor. São claustrofóbicos os segundos subindo no silêncio da negligência, paralisada pelo medo de ser inconveniente. Escondida na ausência dos meus desejos e impulsos, sinto o corpo tomar sua forma pequena e transparente — aquela que aprendeu tão bem para ser capaz de ouvir do amor na relação com aquele homem. 

O elevador estaciona no sétimo andar e ele sai dos fundos da minha memória, esbarra no meu ombro pedindo passagem e ganha o corredor. Não me olha, naturalmente não pede desculpas, e no vazio lateja no meu peito a re-vivência do não-lugar. 

Atravesso o dia sem saber: não me lembro de bater o ponto, não me interesso pelas fofocas entre as outras secretárias, não abro minha marmita e não finjo a mesma surpresa para o mesmo pote de comida. Meus braços se arrepiam sozinhos lembrando das roupas compridas, meu rosto passa o dia derretendo a maquiagem da época. E meus dedos, insatisfeitos em digitarem o dia inteiro, insistem que há ali um anel sufocando os movimentos.

Pouquíssimas vezes imaginei encontrar Tadeu. Nesses ensaios, eu usaria palavrões e vestiria o melhor ar de superioridade. Diante da espiada clandestina e despretensiosa que fiz durante aqueles segundos da vida dele, me vi esquecida no não-olhar. No dele e no meu. No sopro de liberdade que tive quando finalmente rompemos, me concentrei tanto em fazer vento e depois brisa contínua que não tive fôlego para perdoar meu corpo por tamanha falta de ar. Eu me abandonei. Para Tadeu bastou meu último respiro de raiva antes do esquecimento e da indiferença, mas a mim ainda é pouco. Quando meus ombros soltarem a culpa, tomando o ar que for preciso, serei a refrescante certeza de que no pulmão cheio mora o mundo.


Fernanda Zeloschi é estudante de Psicologia, escritora teimosa e acredita nas faíscas do afeto através do @fazerafetar


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