IRA

A transparência nos fará livres?

Mais uma vez, nem o embaçamento de seus olhos ofuscou a cristalinidade das vidraças; de novo ela sorriu, discreta, franca. Desde que tinha chegado à Presidência do país, todo alvorecer de catorze de março era desse jeito.

As “células de supervivência” – projetadas para assegurar a qualquer custo a máxima sobrevida de seus ocupantes – eram cinco: uma para “O monstro” (ao centro), e uma para cada um de seus filhos (numeradas de 01 a 04, todas à volta da célula 00, do pai). Toda a estrutura era absolutamente transparente e assim permanecia, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, ano após ano.

“O monstro” e seus filhos foram levados para lá logo depois de serem declarados culpados por diferentes crimes contra a humanidade durante a pandemia de 2020. Diante do veredicto, o Congresso Popular de 2040 decidiu pela pena máxima: a supervivência exemplar coletiva. Os cinco seriam mantidos vivos a qualquer custo, enquanto fosse possível, e passariam todos os dias do resto de suas vidas nas células contíguas, mas separadas, em total isolamento acústico. E absolutamente transparentes.

Quando chegou a 00, “O monstro”, então já bem idoso, havia acabado de se recuperar de seu terceiro AVC. Fora trazido de volta de um coma para alegria geral da nação. Ele apenas vegetava, é verdade, mas não seria justo se ele morresse sem pagar por seus crimes. Foi essa a alegação da então deputada, agora presidenta.

Hoje, cinco anos depois daquela sessão histórica em que também fora aclamada mandatária máxima do país, ela se emocionava diante da perfeita translucidez do cristal das células de supervivência expostas vinte e quatro horas por dia à observação pública. Dentro delas, o ódio mortal (mas agora exemplar e inofensivamente pedagógico) nos olhos dos assassinos de sua avó.

Os dela, da neta sobrevivente presidenta, estavam embaçados.

(Texto finalista do Prêmio OFF FLIP/2021, integrante da antologia publicada pelo Selo OFF FLIP)


Luciano Nascimento é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo… mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto Dê Efiência.


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