[EXPOSIÇÃO VIRTUAL] PURIFICAÇÃO

A pandemia de covid-19 nos impôs a realidade de uma vida em isolamento inédita. Exigiu de todos a adoção de métodos de sobrevivência e manutenção da saúde física e mental. Para algumas pessoas, como eu, os momentos contemplativos do mundo exterior pelas molduras das portas e janelas tornaram-se uma válvula de escape contra a ansiedade e a loucura. Uma contemplação que me fez conseguir ver os vizinhos alados – para além de simbologias e arquétipos associados à morte – como mensageiros de esperança e renovação. Uma legião de urubus.

Enquanto nos abrigamos da pandemia de covid-19 no enclausuramento dos nossos isolamentos em Parintins, nós, habitantes da ilha fluvial no interior do Amazonas, testemunhamos os voos, pousos e planagens cotidianas desses moradores nativos, populosos e adaptados à vida urbana. Fotografei por alguns meses, diariamente, o modo arredio com que eles correspondem aos olhares contemplativos entre as frestas das residências. Instantes que tensionaram minhas percepções e construções simbólicas sobre as mórbidas relações associativas com a imagem das aves.

No cotidiano pandêmico, entretanto, fotografando e pesquisando sobre a vida desses animais, minha percepção diante dos urubus se transformou. No Xamanismo, essas aves são consideradas animais de poder, símbolos da purificação e renascimento. Distante daquela imagem de animais que vivem à espreita da morte como alimento, passei a reconhecê-los como agentes, sempre vigilantes, de transmutação da morte em vida.

Passei a avistar não mais o prenúncio da finitude iminente, mas a natureza em vigília ensinando sobre o tempo. O tempo de espera. A espera da morte do que já não é, para o nascimento do que virá a ser. O tempo da vida que seguirá sempre em renascimento. De sentinelas do mal agouro a totens de expurgação. Do medo à resignação.


Marcelo Rodrigo é jornalista, ilustrador e fotógrafo. É coordenador e professor adjunto do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em Parintins (Icsez), e doutor em Estudos da Mídia. É líder do grupo de pesquisa Visualidades Amazônicas (VIA/CNPq) e coordenador dos projetos de extensão Panorama Ribeirinho (www.panoramaribeirinho.com.br) e Coletivo TABA (www.coletivotaba.com.br).    


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