ESTAMOS NO VESTÍBULO, CARO AMIGO

Aconteceu exatamente desse jeito que vou contar. Quando ainda não havia mundo do jeito que o conhecemos, no momento em que Lúcifer sentiu inveja de deus e toda criação foi fendida, algo mais relevante do que a própria queda se passou. É fácil compreender que o criador não pudesse tolerar um assessor invejoso entre os seus, sob o risco de que assim colocasse a perder o respeito dos demais. Era preciso, mesmo necessário, que no teatro daquela ruptura, o Opositor fosse exemplarmente punido. Deus sempre soube que no seu universo existiam defeitos, mas era melhor não dizê-los, sobretudo porque ele sabia bem que era capaz de criar dizendo palavras. Ele sentiu medo de estar nu, sabia que a um deus nunca é dada beleza genuína, senão aos olhos de quem o cultua. Nu e se sentindo pouco atraente, ele traçou uma linha no chão e pediu para que todos da firma se reunissem e escolhessem um lado. Quem concordasse com Jeová, ficasse à direita, e quem escutasse o Outro, fosse à esquerda. Debates ocorreram, e todos eles muito calorosos. Não estava clara a punição para o galante causador da cisão. Deus, por ser deus, não poderia punir efetivamente, afinal, não seria racional que uma infinita bondade criasse de si a maldade sem fim. O mais baixo que poderia lançar seu adversário era na condição de ser humano, e sabendo que Ele esculpiu as pessoas à sua imagem e semelhança, o tribunal era de mentirinha. Um giro de 360 graus.

Seria isso, se o fato de tornar-se ofendido não fizesse dali surgir uma categoria não imaginada: a dos indecisos, dos indiferentes. Alguns daqueles anjos não se importavam com a briga do patrão e do gerente. A eles mudaria pouco. Sabiam das falhas, mas gostavam de estar ali, usufruindo do que podia ser gozado. Entretanto, se há uma linha, há dois lados, não três. Os indiferentes foram a genuína criação de Deus, porque estavam no meio. Nem tinham a energia do mal, nem a do bem. Eram anjos indiferentes, nem à imagem de deus, nem à do diabo, talvez à imagem dos homens, porém com um defeito. Os indiferentes formam bandos, sem jamais criarem laços. Por uma estética contabilística estavam ali, naquele lugar onde não se é nem de um, nem de outro, possivelmente dos dois, provavelmente de ninguém. Onde colocar esses?

Após a contagem dos votos a sentença: os questionadores seriam deportados para o mundo humano onde criariam um reino próprio, o inferno – a ironia está aí, deus pune seus anjos como a justiça brasileira pune seus juízes corruptos, ou seja, oferecendo aposentadoria, mantendo-se o salário. Os indecisos constrangiam o Pai. Não eram próximos o suficiente de deus para permanecer no céu, ou distantes o necessário para construir o reino do hades. Foi daí que surgiu a ideia vaga, de alocar os indecisos em um vestíbulo do submundo. Ali, sobre o portão dos infernos, antes que se desça aos círculos do pecado voluntário. Como indiferentes e sem laços, não sei dizer se gostaram da decisão, mas é fato que não tinham capacidade de discordar. Gostavam igual dos pelejadores. Dizem que eles habitam ainda hoje sobre os muros do reino inferior. Anjos, bons amigos, folgadores, retos, mas condescendentes. Nem quentes, nem frios o suficiente. Se quiser conferir está no texto de Dante, não com os mesmos detalhes, mas está lá.

O que quero com isso? Ora meu amigo, quero acusar todos eles. Se falo de política? Claro que não, te pareceu? Acredito que a política é feita pelos indivíduos à imagem de deus, cheios de linhas e de suscetibilidades. É a terra dos homens, semelhantes a anjos, que por sua vez são semelhantes a deus. Uma sucessão ininterrupta de tradição. Eu não falo da política te contando como surgiu tudo isso. Estou falando sobre a sina de ser esse sujeito do meio. Quanto mais o tempo escorre dos relógios, tenho certeza maior de que a nossa geração não é descendente de Adão, mas de Pedro.

A mulher não goza porque teme o amor. Ao mesmo tempo, o homem não deseja vínculos, porque receia a liberdade. Diante de um divórcio, os amigos todos sobem no muro, se vestem de vento, enviam mensagens motivadoras à distância. Nada que interrompa um passeio, uma novela, a ida ao circo. Tente o sujeito se matar, então, para ver se os amigos aparecem ou não. Quase sempre batem na porta, implicam com o cigarro, apontam os dedos, conferem os argumentos e depois sobem no muro outra vez. É assim com a amante, e com os filhos em certa idade. Cobram o tempo inteiro honestidade, quando gostariam de pedir, se não corassem de vergonha, mais tempo sem notícias, independência emocional, poliamor, e menos intensidade.

Deus opera no campo da propaganda, e por isso a imagem é importante. “Que tudo corra bem”, “tenha paciência, já vai passar”, “você é forte”, “seja você mesmo”. Pessoas compram esse produto como água, e ele é bom para quem tem gosto de água. Uma vez uma editora de vídeos com quem trabalhei numa campanha eleitoral me chamou de blasé. Logo eu, sardônico e autoproclamado nudista moral? Blasé é não se magoar, é a propaganda de margarina assistida na casa de um espancador de mulheres. deus é blasé.

O diabo é prático, é a formiga da fábula. Te diz: “olha, faz o que quiser, tem refrigerante na geladeira e às quartas é quintes o ifood não cobra taxa de entrega.” Claro que existe uma espécie de troca, a corvéia do desejo. Se não te irrita, te chamam de sem gosto; mas se deixa que as veias dos olhos saltem e a respiração ofegue, é óbvio que está perdendo o controle. Nunca se é suficiente, mesmo que por algum milagre ou sorte consiga transar por horas, ou seja capaz de encostar a língua no cotovelo. Vivemos no tempo do insuficiente, meu caro. Estamos no vestíbulo, vivemos ali.

Você entendeu errado, em nenhum momento eu disse que a vida é ruim. Receio que em algum momento a minha explicação foi deficiente. Penso exatamente o contrário. Deus criou Júlio Cesar, que por sua vez, aprendeu que a melhor forma de conquistar é dividindo. Deus dividiu seu reino em dois, criou três, e hoje sofre na inadimplência de seus fiéis. O Outro, por sua vez, não é necessário. Foram os homens que colocaram pedras debaixo das pontes, para evitar que mendigos durmam ali. Também foram eles os criadores dos campos de concentração, da inquisição, do apetite maior que a fome. Na melhor das hipóteses o diabo é irrelevante, na pior, já cometeu suicídio.

O império da realidade é o capital anônimo. Limpo. Irrastreável. A indiferença solene e caprichosa daquele tanto faz que oscila sendo cinza desde o pior crime até a bolada lotérica. Nem o céu nem o inferno estão aqui, a Terra é o muro. Mas ele é vasto, ele é colorido. Se dança sobre o muro, sem a necessidade de ter um lado, compreende? De tempos em tempos surgem acusados e condenados, no entanto, sem laços, nunca somos nós os culpados. Melhor ainda, não existem culpados. Corrijo mais uma vez, somos todos culpados. Vê aqui a ironia? Não faz a menor diferença! O ser humano é a secreção da falta de gosto angelical.

Não me lembro exatamente porque comecei essa história, na verdade… Acho que me lembrei de certa amiga adúltera que julgava meu divórcio enquanto sugeria frases motivacionais. Lembrei com afeto dela. O vestíbulo é isso. A indiferença, meu caro, é o novo Jeová destronando Júpiter.


Vinícius Lara é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.


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