MARCAS DA TRANSIÇÃO

Eu estava levando meu navio até as docas quando vi que uma das bandeiras estava descosturando. Gritei minha mãe e ela me perguntou o que era. Depois costuro para você, filha. Ela me acalmou da cozinha. Pelo cheiro que me alcançava junto à resposta, imaginei que teríamos batata frita para o jantar. Peguei Renata no colo e a coloquei no carrinho para dormir. Um dos olhos já não fechava, talvez porque eu tinha a levado para a piscina mesmo mamãe falando que boneca e água não combinam. Não me importei: dorme assim mesmo. 

Os legos estavam espalhados pelo chão e eu comecei a recolhê-los com meus braços imitando escavadeira. As mãos em formato de garras, os rugidos bem grossos. Acho que é assim que as escavadeiras fazem. Senti um calor no meio das pernas, meu corpo gelou e eu coloquei a mão por baixo da saia para ver se eu tinha feito xixi. Pensei na fala da vovó quando me viu com os palitos na boca do fogão. Até tinha brincado com fogo… Mas não estava na cama. Meus dedos saíram secos e eu voltei à tarefa até sentir o calor descer. Estava na minha coxa direita aquele fiozinho vermelho se camuflando na minha pele. Passei o dedo e cheirei: sangue. 

 Eu devo ter me machucado quando estava passeando na selva cheia de leões, foi o que pensei. Até o banheiro, fui espiã, me juntando às paredes, deixando os olhos espiarem a lateral da minha mãe abrindo a geladeira. Com um pedaço de papel, limpei o que tinha escorrido e fiquei esperando por mais, mas pareci seca. Mamãe diz que os machucados leves param rápido de sangrar e este era um deles. Para jantar, coloquei duas calças, uma em cima da outra porque não queria que meu pai soubesse que eu estava correndo por aí ao invés de ler o livro que ganhei no Natal. 

Não senti nada além da barriga completamente lotada de batatas fritas e algumas folhas de alface que comi por um acordo. Primeiro a salada, depois a fritura, ou não come nada. Papai me perguntou da escola e eu menti e depois mamãe me mandou escovar os dentes. No corredor, senti uma dor me atravessar a barriga e lembrei dos pesadelos que tenho com as facas. Doía sem cansar e achei que precisaria de ir ao médico para ver onde estava o corte que sangrava mais cedo. Gritei minha mãe, de novo, e ela veio correndo. Enquanto eu contava, ela me empurrava para o banheiro e olhava para o meu pai. Um olhar que eu não tinha flagrado antes. Dizia que ela sabia mais do que ele e ele, também com olhar inédito, reconhecia isso sem orgulho. 

Você virou mocinha, ela me disse, eu com as calças nos pés e a calcinha no joelho. Ela abriu a gaveta mais alta do armário e me entregou um embrulho de plástico. Me ensinou a abrir, a prender no tecido, tinha uma cola que ficou no meu dedo, ela me disse para trocar sempre que estiver vermelho, eu perguntei se eu estava machucada. Filhinha, você virou mulher! Ela me sorria enorme, eu me senti tirando um dez em matemática. E doer é normal? Descobri que sim, que para cólica, o nome da dor, tem bolsa de água quente e remédio forte. 

Eu quis deitar mesmo sem sono: aquele absorvente era grande e me fazia andar esquisito. Papai não quis me dar um abraço, eu bem reparei, ele colocou as mãos nos meus ombros quando eu estendi os braços a ele. Você cresceu, ele me disse, e eu respondi que não tinha percebido olhando no espelho. Depois entendi que não era sobre a altura — era sobre o sangue. 

Sangrei sete dias e depois fui ao médico que, diz minha mãe, fez o meu parto. Ele ficou feliz em me ver, bem mais do que eu a ele, ele tinha uma simpatia irritante que me doía os ouvidos. Eu não quis que ele me examinasse, pedi a minha mãe para falar que não precisava, ela não disse nada e eu precisei tirar a roupa. Eu estava com uma calcinha nova e nem com ela fiquei. Ele olhou, não senti encostar, disse que estava normal. Depois, comigo vestida, ainda tremendo, me falou das espinhas e das dores e o resto eu não me lembro. 

Aquele sangue que escorreu e depois jorrou limpou meu quarto — minha mãe me disse que mulher não brinca de boneca e eu precisei doar praticamente tudo: os navios e os carrinhos, as bonecas de pano e os peões, eu só pedi para ficar com a Renata, recordação, mamãe, eu mentia. 

Meu pai fez um churrasco num final de semana que eu sangrava pela segunda vez, dizia minha mãe que ela também estava naqueles dias, eles brigaram porque ela não queria ver ninguém. Os homens vieram mesmo assim, uns cinco ou seis colegas do trabalho, alguns eu me lembrava dos meus aniversários. Mamãe me mandou trocar o vestido, colocar um mais longo, aquele já estava na hora de doar. Eu cumprimentei os amigos do papai, ele anunciou que a filha dele era mulher e eu não me senti cabendo na expressão — filha mulher. Todos levantaram seus copos para mim, falaram alguma coisa, eu abaixei os olhos e voltei para brincar com a Renata no canto do quintal. O futebol na televisão estava cada vez mais alto, os gols frequentes e eu impaciente. Não queria ir para o quarto porque gostava daquele pai extrovertido tão incomum nos dias de semana, mas estava tudo barulhento demais. Quando ia levantar para voltar ao quarto, reparei que Oliveira me olhava enquanto os outros conversavam. Era um amigo novo, não me lembrava daquele cabelo esquisito. Os olhos demoraram em mim e eu cobri as pernas com o vestido. Foi a primeira vez que eu lembrei da mamãe dizendo: Filhinha, você virou mulher.


Fernanda Zeloschi é estudante de Psicologia, escritora teimosa e acredita nas faíscas do afeto através do @fazerafetar


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