A QUEM PERTENCEM AS ESTÁTUAS?

“Não há um documento da cultura que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie” (BENJAMIN, 2020, p. 74)

O debate público mundial dos últimos meses tem sido invadido por uma onda de ataques e derrubadas às imagens de figuras historicamente controversas. Conforme as recentes ondas de protestos globais se mobilizam em busca de prestações de contas com o passado, os monumentos públicos em homenagem à essas figuras estão sendo repensados. Durante algumas de minhas leituras no campo de teoria da história e história da arte, venho me perguntando sobre o lugar dessas imagens nos nossos espaços públicos atuais e a quem interessa mantê-las intactas, conforme foram imaginadas por seus idealizadores.

Edward Colston caiu na mão dos cidadãos de Bristol, na Inglaterra; a rainha Vitória do Reino Unido foi derrubada no Canadá; os colombianos fizeram cair o navegador Cristóvão Colombo; e nós brasileiros incendiamos Borba Gato. Colston foi um comerciante de pessoas escravizadas durante o século XVII na Inglaterra. Já a rainha esteve à frente e representou, ao longo do século XIX, o maior império colonial de toda a história humana. Colombo foi um dos pioneiros no processo moderno de conquistas, que se iniciou no século XVI e dizimou grande parte da população do segundo maior continente do globo. E Borba Gato participou do movimento das Bandeiras durante o século XVII, emplacando o extermínio das populações indígenas no interior brasileiro.

Percebam que estamos trabalhando com sujeitos situados em diferentes épocas, dentro de um escopo temporal que remonta até mais de quinhentos anos atrás. Porém, apesar de não compartilharem uma contemporaneidade, tais personalidades são ícones cujas mãos representam as violentas práticas cometidas pela humanidade, como o racismo, o genocídio, e a escravização de pessoas. Ao transitarmos pelo espaço público, encaramos essas figuras fantasmagóricas – sejam de ferro, mármore ou bronze – que habitam o nosso presente trazendo consigo as indeléveis marcas da barbaridade.

É interessante pontuar que a prática de erigir monumentos públicos com o intuito de proclamar e homenagear uma determinada personalidade tomou força no século XVIII, com a secular Revolução Francesa, e continuou a ornamentar praças e ruas de cidades ao longo dos séculos XIX e XX. Estamos falando de decisões tomadas por autoridades que pretenderam promover tais ritos de homenagens e celebrações. Dessa forma, compreendemos tempos que se conectam e realizam um movimento que vai da memória ao grande sujeito, passando pela época da concretização dessa memória até a nossa atual relação com a obra. Como diria o historiador da arte francês Didi-Huberman (2015), as imagens são essencialmente anacrônicas[1], elas não dizem somente da época em que foram criadas, mas sim das tradições humanas que atravessam as temporalidades.

Gostaria de chamar o historiador Arthur Avila[2] para uma reflexão sobre a nossa relação com o pretérito. O termo passados presentes (AVILA, 2016) nos permite pensar o passado não a partir da fórmula do distanciamento, mas sim da sua presença e contemporaneidade. Ao falarmos de populações negras e periféricas sucumbindo perante os massacres promovidos pelo Estado, ou de populações indígenas que lutam por ter o direito às suas terras, nós não estamos falando de um tempo específico e circunscrito, mas de um continuum temporal. As reivindicações de setores sociais do nosso presente partem do desejo de acertar as contas com esse passado, tanto através de novas políticas de memória, que deem voz aos silenciados, quanto de efetivas mudanças estruturais.

Para além da epígrafe deste texto, eu trago como pano de fundo as reflexões tidas a partir da leitura das Teses sobre o conceito de História[3], de Walter Benjamin, que formam um dos mais importantes manifestos sobre os usos do passado. Benjamin nos diz que os símbolos da cultura que perpetuam até o presente no informam sobre a história dos vencedores, construída sobre o escombro dos derrotados. Aqueles que hoje desejam manter intactas, no espaço público, as imagens dos vencedores coadunam com os projetos colonizadores levados a cabo ao longo da história.

Os monumentos pesam o nosso presente com a carga de um passado traumático, se materializando como espécies de buracos-negros, que densamente criam fissuras no tempo. O espaço público, um locus dessa carga, é alvo permanente de disputas por memórias e narrativas. Se, em um dado momento, sujeitos se apropriaram do espaço para perpetuar imagens vinculadas a um projeto de poder, isso não significa que devemos, hoje, ser condescendentes com tais projetos. O espaço público democrático é nosso, e ao falar de um “nós” no Brasil, digo de uma maioria herdeira daqueles arrefecidos nas mãos dos que venceram. Acredito que as estátuas dos vencedores não nos pertencem.


[1] DIDI-HUBERMAN, G. Diante do Tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015.

[2] AVILA, Arthur Lima de. Povoando o presente de fantasmas: feridas históricas, passados presentes e as políticas do tempo de uma disciplina. Expedições: Teoria da História & Historiografia, ano 7, n. 2, p. 189-209, agosto-dezembro de 2016.

[3] BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de História. São Paulo: Alameda, 2020.


Ícaro Assini é professor de História em formação pela UFJF. Bolsista do Laboratório de História da Arte, gosta de se aventurar pelas profundezas das artes plásticas dos séculos XIX e XX. Também se interessa por teoria da história, historiografia e literatura. É um dos membros do projeto @trinca.literaria no Instagram.


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