A ARTE QUE MORA NO SEU GUARDA-ROUPAS

Em resumo, não seja escravo da Moda. Seja artista.

Mergulhando na hype do autoconhecimento (uma das estratégias adotadas pelo ser humano para suprir necessidades básicas, como de sentido, significado e expressão), me pergunto porque ainda temos um olhar para a Moda apenas como um movimento mercadológico e não como uma potencial ferramenta de investigação pessoal e autoexpressão.

Nesse mesmo perguntar, já que vestir é ato cotidiano (e eu gosto), venho me descobrindo e também como me manifestar através do vestir sem precisar ser refém das tendências vendidas pelo mercado, onde eu fico “querendo consumir consciente” ao mesmo tempo que desperdiçando meu dinheiro com uma peça de roupa que até duraria anos, mas “ficou ultrapassada em um mês”.

Suspeito que grande aliada da Moda como futilidade seja o modo automático com o qual nos conectamos no dia a dia e a nossa desconexão e/ou desconhecimento da História – de quem, quando, como e porque conceitos da atualidade foram construídos e desenvolvidos. Se observarmos a origem do vestir, chegaremos na pré-história, onde o ser humano inicia a vestimenta instintiva por necessidade de conforto e proteção do clima e das superfícies, bem como da mobilidade. Mais pra frente, com o fim da vida nômade, a evolução da vestimenta chega nos adornos/enfeites por necessidade de significado, onde passamos a usar elementos que simbolizavam sentimentos, poder, e status. E assim é, até hoje.

Trago essa breve contextualização histórica, que mereceria uma matéria apenas para o assunto (onde poderíamos entender que muitos índios não andavam pelados, como é dito por aí), apenas para compreensão de que a vestimenta existe para suprir necessidades do ser humano. Conforme fomos evoluindo, nosso leque dessas necessidades básicas foi aumentando: além de proteção e significado, o vestir foi se tornando estratégia que também supre necessidades, por exemplo, de apreciação, atenção, pertencimento, autenticidade, autoestima, liberdade, e expressão.

Conforme a valorização da vestimenta, as profissões de costureiras, alfaiates e estilistas foram surgindo. Sempre influenciadas, diretamente, pelo período histórico e geográfico (que ditava o tecido e a modelagem apropriada para a época). Assim, foi se formando o conceito de Moda: um sistema expressivo que integra o simples vestir do dia-a-dia a um contexto maior (social, econômico, cultural e político).

Foi assim, também, que a Moda ganhou espaço no mercado e hoje é a segunda indústria que mais polui o planeta. E é aqui que entra a relevância da História: nossos movimentos enquanto sociedade vieram transitando de estratégias para suprir necessidades básicas para estratégias que alimentam exageros e acumulações. Para sustentar esse modelo de vida, cada setor de mercado foi descobrindo sua forma de estimular o consumo inconsciente. Na alimentação, o comer por prazer, somado à infinitas atualizações de sabores e informações nutricionais. No educacional, a todo momento uma promessa bem argumentada sobre uma nova habilidade que vai resolver problemas. Na tecnologia, a obsolescência programada. Na moda, as tendências.

“Aquilo que leva alguém a seguir determinado caminho ou agir de certa forma”.  Que estará disponível para o consumo do próximo mês. Um conjunto de roupas e acessórios em determinados modelos, cores e estampas, que estarão sendo vendidos nas ruas e postados no Instagram. Tendência é um dos aspectos da Moda: aquele que traduz criações de um pequeno grupo (estilistas) para consumo da grande massa (nós, os consumidores).

Falando assim, parece que as tendências são as grandes vilãs da Moda, e não são. Pelo menos, não só. A questão é a velocidade com que estamos consumindo e as referências visuais que permitimos ser construídas e fixadas na nossa mente. E, portanto, chegamos ao “fast fashion”, que vem para lançar tendências a cada estação do ano, a cada mês e, hoje, a cada semana, garantindo assim a manutenção do consumo.

Esse movimento, sutilmente, foi transformando a relação das pessoas com o vestir: estimulando constante sentimento de frustração e insegurança ao olhar para o próprio guarda-roupas, ao mesmo tempo que tornando possível e acessível a breve sensação de “empoderamento”, quando compramos “a roupa da moda”. Em primeiro momento, isso pode até parecer equilibrado, pois o mercado supre as necessidades do ser humano. Porém, necessidades que o sistema mesmo criou, para continuar lucrando. Isso sem contar a anulação da nossa capacidade de autoexpressão, uma vez que as tendências fast fashion entregam, já pronto, aquilo que é bonito e maneiro, construindo a imagem do que é belo para a sociedade e desestimulando nossa criatividade e autonomia.

Resultado disso: a Moda como ferramenta de manobra da sociedade, ou seja, apenas um movimento mercadológico. Enquanto isso, vamos consumindo inconscientemente e conceituando o “consumo consciente”. Nos descobrindo em terapia e usando da roupa para nos sentirmos pertencentes aos nossos grupos de interesse. Nos manifestando no Instagram e com déficit de expressão autêntica.

Numa busca por melhorar esse cenário, fica a primeira dica: entendimento da História que nos fez chegar até aqui e como isso conecta com o dia a dia de cada um. Simultaneamente, o desenvolvimento, ativo e intencional, da nossa autoexpressão: manifestação daquilo que é autêntico, genuíno. Independente da forma: fala, gestos, decisões, movimentos, culinária, música, desenhos, vestimenta, e várias outras.

Tal desenvolvimento, sendo particular de cada pessoa, envolve uma investigação pessoal e o reconhecimento daquilo que foi descoberto. Por isso, toca em pontos profundos de auto aceitação, auto confiança, competências sociais, e rede de apoio (um ambiente seguro para ser quem se é).

Nesse processo, a Moda pode e deve ser aliada. Por nos vestirmos todos os dias, temos a oportunidade de materializar conscientemente as mensagens que desejamos comunicar através do nosso corpo, que é um veículo de comunicação verbal e não verbal. A construção da nossa imagem (que não é estática) é um treino prático da autoexpressão, e a roupa que usamos é um recurso disponível pra isso. Ao optar por utilizá-la, seguem algumas premissas, dicas e opiniões.

A formação da imagem é a expressão do auto conceito, e isso se distingue em três espectros: visão real (como eu me percebo), visão ideal (como gostaria de ser percebido), e visão social (como me apresento para o outro). Nos atentarmos a isso pode cuidar de sentimentos não-identificados de insatisfação com quem somos e como pertencemos.

Deixemos as tendências de lado, ou usemos só para dar um agito na criatividade quando necessário (ou seja, quando já tiver esgotado o saco criativo). Construirmos nossas referências, dos nossos gostos e preferências, e usar como um manual de criação é a libertação da ditadura da moda. Pode ser uma pasta de itens salvos no Instagram ou Pinterest. E, também, pode ser umas fotos ou desenhos muito loucos que a gente curta fazer.

Os desafios do vestir são incontáveis e pessoais, porém agrupados em: auto conexão e autoconhecimento, oferta de tamanhos das peças, identificação com o estilo, acesso financeiro, criatividade no uso. Vale a pena identificar quais são nossos desafios e criarmos estratégias que cuidem diretamente de cada um.

Os fatores que influenciam o vestir, de praxe, são: clima/temperatura, situação/ocasião, humor/vibe do dia, pessoas ao nosso redor e o que elas vão pensar da nossa roupa. Sabendo disso, escolhemos os que fazem sentido e comecemos por eles ao vestir. Os outros (ou melhor, o último), a gente descarta.

O nosso guarda-roupas já tem toda matéria prima necessária para nossa expressão através do vestir. Vale a pena fazer uma investigação aí, e conhecer bem as peças que temos. Se elas não nos representam, é hora de começar uma transição. Se elas nos representam e não aguentamos mais olhar pra elas, uma tática muito boa é criar/manifestar/expressar novas formas para o que já existe.

Aumentar o ciclo de vida das nossas peças é coerente com o planeta mas, acima de tudo, é barato, original e autêntico. Cuidar bem delas, fazer manutenção e pequenos consertos, transformar uma calça em uma jardineira, usar um vestido como saia. Fazer da Moda uma manifestação artística cotidiana que expressa quem você verdadeiramente é e quer ser.


Beatriz Galil é artista independente, em processo de investigar o universo da moda através da costura e da reconstrução de roupas que já existem.


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