HISTÓRIA DO BRASIL PELO MÉTODO CONFUSO, DE MENDES FRADIQUE

Das minhas mais tenras e incipientes experiências com o acervo da Biblioteca do Museu Mariano Procópio, lembro-me perfeitamente do primeiro contato com a obra História do Brasil pelo método confuso, sobre a qual o recém-egresso da graduação nunca ouvira sequer algum comentário. A obra é de autoria de Mendes Fradique, que mais tarde descobri se tratar do pseudônimo de José Madeira de Freitas (1893-1944). O exemplar do Museu é a quarta edição da obra, realizada no Rio de Janeiro pela Livraria Leite Ribeiro, em 1922. E, originalmente, é parte integrante da coleção bibliográfica de Alfredo Ferreira Lage (1865-1944), o fundador da instituição.

Antes de se tornar livro, porém, essa publicação já havia alcançado grande sucesso na revista carioca D. Quixote, fundada em 1917 pelo humorista Bastos Tigre. Publicada primeiramente em folhetim, a obra de humor apresentava ao público uma paródia da história oficial brasileira, dessacralizando os manuais de história do Brasil e as narrativas cívico-nacionais, difundidas por escritores como Rocha Pombo, Afonso Celso, dentre outros. Este último, a propósito, escreveu Porque me ufano do meu país, publicado no início do século XX, para difundir o sentimento patriótico aos estudantes e à população em geral. Na Biblioteca do Museu Mariano Procópio, curiosamente, há uma versão em braile desse título, cujo conteúdo está distribuído em quatro volumes. Tanto a versão impressa, de 1901, quanto a traduzida para o braile, pertenceram à Viscondessa de Cavalcanti. A doação à instituição foi realizada por um professor do Instituto de Cegos Benjamin Constant, em 1946, segundo relatório institucional da ex-diretora, Geralda Armond, datado do mesmo ano.

Abertos e fechados os parênteses, voltemos agora ao método confuso… Nesse livro, D. João VI é chamado “D. João Cesto”, uma alusão à fama de “comilão” e “glutão” do monarca. D. Pedro I é representado como um menino de calça curta. E Pedro Álvares Cabral passeia de automóvel pelas ruas brasileiras. A obra, portanto, apresenta uma série de deslocamentos temporais e espaciais, bem como diálogos com os hábitos banais do cotidiano, para produzir efeitos de humor através dos personagens “célebres” da história.

Considerando que o auge de circulação dessa obra ocorreu no início do século XX, vale destacar que muitas das sátiras nela veiculadas estavam na contramão das representações nacionais construídas por ocasião dos eventos oficiais de celebração do Centenário da Independência do Brasil, em 1922. A exemplo de diversos periódicos humorísticos em circulação nessa época, o tom do discurso era de crítica ao “Brasil imaginário”, que, para se sobrepor ao “Brasil real”, apresentava um “simulacro” de modernidade e cosmopolitismo. Uma imagem baseada no lema positivista da bandeira nacional (“Ordem e Progresso”) e nos preceitos civilizatórios europeizantes, mas que não se sustentava diante dos contrastes sociais, das desigualdades e das mazelas políticas que nos assolavam.

José Madeira de Freitas, nascido em 1893 e falecido em 1944, era natural do Espírito Santo. O escritor chegou ao Rio de Janeiro para cursar medicina em 1910, profissão que exerceu ao lado de suas facetas artísticas. Estabelecido em terras cariocas, residiu em pensão na Lapa. Foi apresentado às rodas literárias pelo famoso humorista Emílio de Meneses, na Confeitaria Colombo, hoje considerado uma das grandes atrações turísticas do Rio de Janeiro. Com forte inclinação para o desenho, vivenciou o “período de ouro dos caricaturistas”, chegando a desenhar diversas caricaturas para periódicos da capital.

O pseudônimo Mendes Fradique – que é uma inversão do nome de um dos mais conhecidos personagens de Eça de Queirós, o Fradique Mendes – alçou Freitas ao status de celebridade nas revistas humorísticas e na imprensa periódica, tendo com este codinome assinado diversos textos.

Não obstante a irreverência e o humor de sua produção, muitos especialistas consideram seu perfil intelectual conservador. Suas sátiras se voltam contra diversos aspectos da modernidade e manifestações culturais, como o maxixe e os movimentos de vanguarda artística, como o cubismo e o expressionismo, por exemplo, considerados por ele expressões da “degeneração humana”.

Charges do livro ‘História do Brasil pelo Método Confuso’.

Outro ponto importante sobre a trajetória intelectual do escritor: atribui-se a ele a autoria da frase “país da piada pronta”, imortalizada no imaginário brasileiro, para se referir à tênue relação entre realidade e humor em nossa sociedade. Para argumentar a respeito, o escritor do “método confuso” utilizou vários exemplos, como o pitoresco caso envolvendo a construção de uma grande avenida no Rio de Janeiro, na qual o único prédio que ruiu por erro técnico foi o do Clube de Engenharia.

No final da década de 1920, Freitas simpatiza-se com as ideias integralistas, tornando-se um ativista desse movimento conservador de extrema-direita, que arregimentou enorme contingente de brasileiros ao longo da década de 1930. Na medida em que se arraigava a essa ideologia, o pseudônimo Mendes Fradique foi sendo gradualmente deixado de lado, vindo a prevalecer seu nome de batismo, José Madeira de Freitas.

Para os leitores de hoje, parece inevitável o seguinte questionamento: não seria paradoxal a adesão de José Madeira de Freitas ao integralismo, tendo em vista que a ideologia desse movimento conservador de extrema-direita propagava ideais nacionalistas que, aparentemente, estavam na contramão de suas paródias dessacralizadoras? Para refletir sobre essa pergunta, sugiro a leitura de duas pesquisas que divergem sobre o assunto: de um lado, a dissertação de mestrado e o livro da historiadora Isabel Lustosa, publicado em 1993; de outro, a tese do pesquisador em estudos literários, Cleverson Ribas Carneiro, defendida em 2008, na Universidade Federal do Paraná.

Isabel Lustosa estabelece uma dicotomia entre a personalidade do autor, José Madeira de Freitas, e a do narrador-personagem ou pseudônimo, Mendes Fradique: para a autora, Freitas pensava de modo conservador e Fradique sentia a realidade à sua volta a partir dos pressupostos estéticos modernistas, afeitos à parodização dos costumes sociais e da história oficial. Cleverson Ribas, por sua vez, não enxerga essa polarização ou contradição: a paródia, não sendo sinônima de modernismo, não raramente desempenhou, ao longo da história, papéis moralizantes. Para Ribas, portanto, autor e pseudônimo são duas faces de uma mesma moeda. A paródia, nesse caso, ao invés de se mostrar sintomática de uma adesão quase que natural ou inconsciente à estética modernista, seria o recurso utilizado para ridicularizar as ameaças da modernidade aos princípios civilizatórios clássicos e europeizantes, considerados tão caros à visão de mundo do escritor, que evocava, assim, seu inconformismo diante da “tragédia” da mudança e ou da “decadência” dos valores ditos “universais”.

Lustosa e Ribas, a partir de concepções e momentos distintos, conseguiram sustentar suas perspectivas através de argumentos devidamente fundamentados na pesquisa histórica. Convido-lhes a conhecerem os trabalhos de ambos, e do próprio autor de História do Brasil pelo método confuso, para que tirem suas conclusões. Boa leitura!


REFERÊNCIAS

CARNEIRO, Cleverson Ribas. Mendes Fradique e seu método confuso: sátira, boemia e reformismo conservador. Tese de doutorado em Estudos Literários, Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Paraná, 2008. Disponível em: Acervo Digital UFPR

LUSTOSA, Isabel. Brasil pelo método confuso: humor e boemia em Mendes Fradique. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.


Sérgio Augusto Vicente é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.


Um comentário sobre “HISTÓRIA DO BRASIL PELO MÉTODO CONFUSO, DE MENDES FRADIQUE

  1. Li e reli atentamente. Só mesmo o humor, através da caricatura, podia expressar visões críticas das representações “oficiais” da História, considerando que isso acontecia na primeira metade do século 20. Sérgio, as informações são preciosas para os amantes da literatura associada à História, aos pesquisadores da nossa História e ao público em geral. Ajudam nas reflexões sobre o que é autor, personagem, sobre o poder da sátira, e a liberdade do humor em geral. Você abre ao leitor fontes importantes de pesquisa e de leitura. Parabéns!

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