VASSOURAS

I’ve still got the scars that the sun didn’t heal
– Bob Dylan

I

Era uma noite como as outras. Leandro sentado de baixo do lustre da sala com as luzes acesas – não só a do cômodo em que ele se encontrava, mas todas as luzes de toda a casa. Tinha acabado sua tarefa de trocar as lâmpadas antes de elas queimarem e agora descansava, sentado no tapete da sala. Olhando ao redor, as paredes e mobília da cor branca, sentia-se mais calmo e preparado para atravessar a noite depois do trabalho concluído. Sem mais o que fazer, Leandro caminha até o quarto e encara o guarda-roupa, calcula se consegue entrar dentro dele. Pensa que sim, tira as pantufas, se senta encolhendo as pernas para dentro do móvel e, então, fecha as portas. Depois de 30 segundos, começa a sentir dor no peito e não consegue mais segurar os gritos.

II

Com o fim da noite, vem a manhã, e as luzes da casa de Leandro se apagam. A chegado do sol representa a vitória contra a noite, contra o toque da noite, tanto para o mundo quanto para Leandro. Dos seus 42 anos, ele lembra de dormir tranquilo até os 6. Depois disso, começou aquilo que ele chamava de “escuridão total”, hoje conhecida como nictofobia. Para o menino de 6 anos, diagnosticado apenas aos 25, “escuridão total” dava conta de explicar o medo que tinha não só do escuro, mas do que poderia acontecer dentro dele.

Porém, durante a manhã, nada daquilo era lembrado. O que existia era o sol, astro rei, iluminando cada canto da rua para a tranquilidade de Leandro que, finalmente, abria as janelas sabendo que escuridão alguma iria lhe tocar. Café feito, dentes escovados, roupa colocada para o trabalho, luzes acesas, cada coisa organizada para que o retorno para casa não fosse envolto pelo escuro. Seu medo de faltar energia fez com que quatro luzes de emergência fossem instaladas pela casa. Elas eram fracas e espalhavam sombras, mas aliviavam um pouco os tremores causados pela “escuridão total”.

III

Leandro estava no fim do seu expediente de trabalho e já sentia as mãos suarem em resposta à chegada do fim de tarde. Assim que o relógio atingiu a marca de 18:30, Leandro pegou suas coisas (que já haviam sido organizadas previamente), bateu o ponto e saiu, sem uma palavra de despedida para o escritório.

Dentro do carro, era hora da corrida contra a noite. Morando no centro da cidade, local sempre iluminado, Leandro demorava apenas 15 minutos para chegar em seu apartamento, garantindo alguma luz do dia durante todo o percurso nos fins de tarde do verão. O problema era o inverno, em que escurecia mais cedo e amanhecia mais tarde. Durante a fria estação, ele sempre dirigia com a luz interna do carro acesa, fazendo com que sua visão da rua ficasse um pouco prejudicada; isso, porém, garantia proteção contra as sombras que o cercavam. O abrir do apartamento e o encontro da luz do corredor já acesa era como um grande respiro depois de um tempo debaixo d’água, um alívio quase gozo. A respiração de Leandro começava a normalizar, o suor diminuía e os músculos relaxavam. Deitado no chão, exausto demais para se arrastar até o banheiro, ele sentia a luz banhar seu corpo e até conseguia expressar um sorriso.

IV

Dos 36 anos convivendo com o medo, Leandro começou a tocá-lo apenas agora. Desesperado pela solidão extrema que dormir com todas as luzes acesas causa ou já disposto a enlouquecer totalmente, a verdade era que, todas as noites, ele entrava em seu guarda-roupa e tentava ficar lá o máximo que conseguisse. Algumas noites eram mais fáceis do que outras.

O foco era a respiração (dica do psiquiatra). O movimento do abdômen ao inspirar e expirar, inspirar e expirar, até que a pressão em seu peito se tornasse forte demais e ele precisasse pular direto para o chão com tremores por todo o corpo. Em outras noites, era como se ele estivesse de volta naquele quarto de vassouras escuro, tentado por uma falsa mão amiga a ir ver o coelho que havia se escondido lá, portador da inocência infantil que é arrancada ao longo do tempo, confiando no rosto humilde do zelador da escola… apenas para ter a inocência arrancada de uma vez só.

V

As coisas estavam progredindo. O tempo dentro do guarda-roupa ficava cada vez maior, o trajeto trabalho/casa já não era tão amedrontador e o tempo deitado no chão, recuperando as forças, diminuía. Nesta noite, Leandro pensou que poderia ser a melhor das noites, que conseguiria ficar mais tempo dentro do guarda-roupa e, que se estivesse num espírito desbravador, apagaria a luz de algum dos cômodos em que não estivesse.

Preparou tudo que precisava. Colocou suas roupas brancas, acendeu todas as luzes da casa, descalçou as pantufas, encarou o guarda-roupa. Como se o mundo de Nárnia estivesse do outro lado, ele pensou se não se perderia ali dentro esta noite. Se sua vida não regredia por cada vez mais ele entrar no guarda-roupa, não sair dele.

De cabeça baixa, sentou-se dentro do seu caixão caseiro, puxou uma porta, depois a outra. Começou a respirar lentamente e tentou pensar no seu café da manhã iluminado pelo sol. Perdendo a noção do tempo, Leandro também se perdeu nas memórias de dias ensolarados, nos passeios pelo parque, na feira de domingo, na praia antes do almoço. Cada memória sua ia e voltava num caleidoscópio de passado e desviava os olhares do escuro. Até que nessas andanças imaginárias, ele lembrou dos 6 anos. Lembrou que o dia do quarto de vassouras era um dia ensolarado, que as crianças brincavam no parque, que os pais estavam longe no trabalho e ele, só ele, estava na escuridão sujeito ao toque. O sol abandonou-o nesse dia, não o salvou das trevas e não importava a quantidade de tempo que ele ficasse dentro daquele guarda-roupa, o quanto lutava para enfrentar o medo… O abandono já tinha acontecido a muito tempo.

Leandro gritou. Gritou o mais alto que pode sem sair do guarda-roupa. Como Edward Munch coberto em trevas, seu grito transfigurou seu rosto e corpo, as lágrimas molhavam seu peito, seus tremores aumentavam e, mesmo assim, Leandro não vinha para a luz. Tremeu lá dentro cada vez mais rápido, mais rápido, mais rápido, mais rápido, até que não tremeu mais. E as lâmpadas ficaram, para sempre, acesas.


Caio Henrique Borges tem 22 anos e é acadêmico do curso de Letras Português e suas Respectivas Literaturas na Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). Fez pesquisas na área de literatura sobre a obra de Veronica Stigger e Caio Fernando Abreu, e também manteve um projeto de escrita ficcional na forma de microcartas no Instagram chamado “In.Box: Conficcções”, que se tornou um minicurso de escrita criativa na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


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