O SER BREVE E AS CRIANÇAS DE CABUL (MINHA SEGUNDA CARTA PARA ISABELA)

Quem pode ficar impassível às crianças de Cabul? Entre todos os espasmos recentes dessa humanidade que vai convalescendo e delirando dia após dia, talvez o sentimento se aproxime, para mim, apenas daquele que senti quando, em 2015, vi a imagem do menino sírio morto, afogado, em uma praia da Turquia. O sofrimento de uma criança é dolorido e angustiado, porque é a dor de um inocente social, quase sempre marcado pela cicatriz de existir pobre – o que é geralmente um crime pago com a morte, que pode ser de doença, de fome, de fuga ou de tiro. Existem pessoas que sequer se deram conta das crianças afegãs sendo lançadas através dos muros entrincheirados do aeroporto, aos braços de oficiais americanos completamente desconhecidos. Mas eu hoje sou pai de uma bebê. Minha filha naquele muro, e o mundo inteiro ruindo. A morte de uma criança não se justifica pela religião nem pela moral. É o tilt de uma divindade. A brevidade suprema diante do existir animal, exatamente naquela encruzilhada em que nos fazemos humanos. Aquele bebê sobre o muro diz do que passa e do que pode permanecer. Eu hoje quero escrever de novo a você, Bebela. Mas agora uma carta de dor.

Me lembro bastante de Albert Camus nesses tempos, filha. Muitas coisas não fazem sentido. É da própria ordem da peste transportar tudo da esfera do privado – que é humano, sensível, intimista – a uma outra – aquela das medidas de estado, da celeridade, da urgência e do protocolo. Sentado na cadeira do meu consultório, eu escrevo pensando que, até agora, mais de 575 mil pessoas morreram de uma doença para a qual já existe vacina no nosso país. Dia sim e dia também, um boçal ameaça a tão jovem democracia do Brasil, cercado por macacos de circo que aplaudem a barbárie, e a inflação aumenta, fazendo a pobreza sofrer ainda mais. Você não sabe o que é inflação, meu amor, ou o que é fome, ou o que é morte, mas seu pai que escreve tem uma sensação meio amarga sobre o que fica para o seu futuro. Antes daquele dia 14 de abril, havia um mundo racional e instrumentalizado para mim; mas na madrugada do seu nascimento, essa razão foi atravessada pelo afeto. Você nascer meu deu à luz, ao mesmo tempo que me fez sentir um pouquinho pai de todos os bebês do mundo, e consideravelmente mais tolerante com os adolescentes. Aqui está a metafísica do corpo, da espécie, do desejo e do amor.

Dedico três noites semanais a dividir com sua mãe os cuidados do seu sono, do seu mamar e da sua brincadeira. Cada uma delas carrega consigo a manhã do dia seguinte e nele, um eventual passeio ao supermercado, ao parque, à feira, à pracinha. Tenho meus rituais com você dormindo e com você acordada. Quando chego do trabalho à casa da sua mãe, quase sempre te encontro já no sono. Espero você acordar a primeira vez para te ver e sentir seu cheiro de bebê. Como isso costuma acontecer em um universo de possibilidades entre a meia noite e as duas da manhã, te ofereço aquela insônia que é minha, e espero, seja lendo ou só vendo você dormir. Contemplo cada traço do seu rostinho bochechudo e penso como está mais linda hoje do que era na semana passada. Aprendi a te admirar assim, como deve ter se sentido orgulhoso um pintor que termina um quadro, mas com a diferença estruturante de que você é um quadro vivo. Pintei metade do começo, sem a menor ideia de como será o meio ou o final.

Quando você acorda de manhã – por volta das 5 horas – nós brincamos, ouvimos fado, descobrimos as primeiras notícias do dia. Troco sua fralda, fazemos café e escutamos juntos alguns podcasts. Inicio minha rotina em grande estilo e bem animado quando isso acontece. Às vezes, me pego pensando na falta que faz ter você ao meu lado mais tempo, de mais jeitos. Imagino você perguntando, quando chegar essa hora, sobre o porquê de seu pai não estar na mesma casa que você e sua mãe, os motivos dele sempre ir embora e sempre voltar, mas não permanecer. Te prometo que, quando esse momento chegar, não vou te responder que isso seja coisa de adulto – porque, na realidade, se trata de assunto de crianças. Crianças que adulteceram de uma forma não tão boa, mas que possuem certos consensos já definidos, outros nem tanto. Mas de todos eles, Bebela, você sempre foi o mais poderoso e o melhor. Tá certo que você tem ainda quatro meses, mas é importante que isso fique registrado aqui.

Na última quarta-feira, nós fomos a um parque caminhar e percebi o quanto você me fez desacelerar. No tempo em que eu normalmente faria duas ou três voltas em torno do lago, caminhamos uma só. Eu com dor nos joelhos e você apagada no sling. Depois me sentei ao lado da Val – fique tranquila, eu também não tenho a menor ideia de quem seja – mas que estava como babá da pequena Manu, linda. Conversamos sobre amamentação, sobre sono, marca de carrinho de bebê. Você, no colo, faz sempre do pai um centro de atenções. Aquela manhã foi incrível, como muitas delas têm sido, mas chega sempre a hora em que é preciso deixar você em casa, seguir. Ali tem nascido em mim uma consciência fulminante em torno da brevidade da vida.

É tão rápido o tempo que tenho contigo, quando ele já passou e eu olho para trás. Ao mesmo tempo, é tão grande estar ao seu lado e sentir que está pertinho. O paradoxo de existir mora no espaço de um abraço, um cheiro e um beijo na testa. Está tudo ali. A isso, damos o nome de amor – o que um astrólogo me disse uma vez ser o sentido dessa minha vida. Vejo você cochilando, gritando, dando gargalhadas com sua avó. Penso em todos os sacrifícios que faria por você, e quando isso acontece, filha – não se sinta mal – não consigo deixar de lembrar das crianças de Cabul e da Síria. É sempre quase certo que te verei novamente, e posso sentir nesse meu coração de pai o que significou aos outros pais – dos quais você também deveria ser um pouco filha – abrir mão de seus bebês porque tinham medo da violência e da morte…

Resgatei um antigo sonho de viver até os meus 117 anos, mas pode ser que as coisas não aconteçam assim. Vai que a existência capota em uma ou outra curva do caminho, e que o pai precisa ir antes da hora, seja de fatalidade, de doença ou de resistência a um governo autoritário que ameaça destruir o Brasil? Tudo isso pode acontecer, Isabela, e nós devemos ser fortes.

É provável que a vida te reserve oportunidades incríveis de estudo, de trabalho, de afetividades. Cercamos você de muitas coisas boas, para que possa crescer e escolher com o máximo de consciência. Mas o pai te pede que não se esqueça das crianças de Cabul do seu tempo, ou das afogadas no desamparo de existir sem colo. O mundo do pai, e também o de seus avós, faliu. Nos esquecemos como se faz literatura e coragem. Compramos tudo. Dormimos mal. Já não se sonha. Deixo a você a herança da boa revolta que espero poder viver contigo.

A arte existe, para lembrar de novo Camus, – você vai ouvir muito falar dele – em algum lugar entre o sofrimento e a beleza. Este texto, por exemplo, deveria ser uma crônica, da qual te fiz uma carta. No espaço entre te sentir aconchegada no meu colo e tudo que queima ao redor, brota uma flor. Manterei ela viva, meu amor, para que você faça dela sua arte de existir, vivendo e defendendo o direito que todos têm de também viver.

Amo você.


Vinícius Lara é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.


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