A TRAGÉDIA NA FICÇÃO CLARICIANA

A ficção de Clarice Lispector apresenta um caráter autenticamente trágico, cujos traços a identificam com a tragédia moderna, caracterizada por ser acidental, conforme expõe Raymond Williams: “As tragédias vivas do nosso próprio mundo não podem de maneira nenhuma ser assimiladas, ou seja, ser vistas à luz daqueles sentidos de antes; elas são, por mais dignas de pena que sejam, acidentais”[1].    

O cunho acidental da tragédia contemporânea se manifesta ao se perceber que ela se baseia, com efeito, em acidentes do cotidiano, sem estabelecer laços com a temática ostentosa da tragédia antiga. À imprevisibilidade do cotidiano – às vicissitudes que se configuram no dia a dia – volta-se a tragédia moderna.

Embora o tema clariciano se enquadre no âmbito da tragédia moderna, a ficção de Clarice comporta elementos formais próprios da tragédia grega[2]. Dentre esses elementos, destaque-se, primeiramente, a hýbris, inerente à personalidade de Joana, conforme observa Benedito Nunes: “Obscuro desejo e força instintiva represada, sede de liberdade e de expressão, a inquietação de que falamos domina a personagem [Joana]: é a sua hybris, sua vocação para o excesso e a desmesura”[3].

A noção de desmesura caracteriza a protagonista de Perto do coração selvagem[4], envolvendo-a numa constante atitude de insolência: “Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave […]” (Perto do coração selvagem, p. 201).

A hýbris é a falha trágica, o gesto por meio do qual o herói exprime toda a sua insolência. Josse Fares enumera os três elementos estruturais da tragédia grega: “[…] a hamartia, o pecado; a hýbris, a insolência ou ultrapassagem do métron; e a moira, o fado”[5].

Presencia-se a hýbris, também, no ato criminoso de Martim, personagem principal de A maçã no escuro[6]: “E abolira o próprio crime. Tendo certa prática de culpa, sabia viver com ela sem ser incomodado. […] aquele homem se tornara um duro herói: ele representava a si mesmo. A culpa não o atingia mais” (A maçã no escuro, p. 35-36). Evidencia-se, assim, a falta de remorso da qual se imbui Martim, assemelhando-se, nessa perspectiva, a Raskólnikov: “[…] poderia arrepender-se, como antes, pelas ações estúpidas e odiosas que o tinham levado a prisão. Mas agora, no isolamento do cativeiro, refletia de novo sobre o seu procedimento passado e já não o achava tão odioso nem tão estúpido”[7].

As hýbris cometidas por Joana e por Martim não lhes custam a morte ou algum tipo de autoflagelação, moiras frequentes na tragédia grega. Nesse sentido, a ficção clariciana assume outro aspecto da tragédia moderna, na qual o pior fado é o de viver, o de existir em meio às contingências da vida e à inexorabilidade da morte. Tal situação aflige a protagonista de Perto do coração selvagem, como se nota neste excerto: “[…] eu só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso fazer e apenas assisto o meu esgotamento em cada minuto que passa” (Perto do coração selvagem, p. 198-199).  

Na tragédia moderna, a destruição do herói se renovou, manifestando-se por intermédio de outras formas, que não a morte. Raymond Williams verifica: “O herói é sem dúvida destruído em quase todas as tragédias, mas esse não é, normalmente, o fim da ação. Uma nova distribuição de forças, físicas ou espirituais, comumente sucede à morte”[8].

Essa reconcepção da destruição do herói se baseia num conceito moderno de existência, focalizado constantemente pela literatura e estabelecido pela Filosofia Existencial, para a qual existir é a mais pungente experiência do Homem, assinalada pela casualidade e pela angústia de se situar num estágio anterior à morte. Tal conceito justifica, de certa forma, o caráter epifânico da morte de Macabéa (personagem principal de A hora da estrela), cuja moira, ao invés de consistir numa punição, constitui-se uma salvação: “Então – ali deitada – teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte. A morte que é nesta história o meu personagem predileto” (A hora da estrela, p. 84). 

O perfil trágico de personagens como Martim e Macabéa estabelece um vínculo entre a ficção de Clarice e o estilo dramático de Eurípedes, para quem a fonte da calamidade humana é a preponderância da paixão sobre a razão. Assinala Kitto: “[Eurípedes] Está a apresentar-nos a sua concepção trágica de que as paixões e a ausência de razão às quais a humanidade está sujeita, são o seu maior flagelo”[9]. A ficcionista também fundamenta nessa concepção o sentido trágico de vários enredos seus, a exemplo daqueles que regem os contos integrantes de A via crucis do corpo[10].

Eurípedes condensou sua concepção trágica em Medeia, personagem que, a fim de se vingar de seu marido (Jasão, que a abandonara, para desposar Creúsa), assassina os próprios filhos: “Ai! morrerem-me assim!… eles!… Morrerem! / E às minhas mãos!… Horrendo pensamento!… / A quem mais do que a mim tais golpes ferem? / Quem como eu sentirá a dor que intento?”[11].

A persona clariciana cuja passionalidade mais se aproxima daquela intrínseca a Medeia – numa proporção menor – é Leontina, personagem do  conto  Antes  da  ponte Rio-Niterói: “A mulher teve ciúmes e enquanto Bastos dormia despejou água fervendo do bico da chaleira dentro do ouvido dele que só teve tempo de dar um urro antes de desmaiar, urro esse que podemos adivinhar que era o pior grito que tinha, grito de bicho” (A via crucis do corpo, p. 58).  

O conto supracitado integra uma coletânea na qual o herói trágico é o Homem, sujeito ao domínio de suas paixões. Na denúncia dessa condição humana, baseia-se a tragédia de Eurípedes, consoante declara Kitto: “Eurípedes […] vê também que temos em nós, além da razão, emoções não-racionais necessárias, mas que podem degenerar intrometendo-se na nossa razão e trazendo a calamidade”[12].

O cunho trágico da ficção de Clarice incorre, embrionariamente, na ação de seus personagens, seres em constante movimento, à beira de uma resolução que lhes poderá alterar a vida, assim como se observa na tragédia grega. Jean-Pierre Vernant destaca: “[…] a tragédia apresenta indivíduos em situação de agir; coloca-os na encruzilhada de uma opção com que estão integralmente comprometidos; mostra-os no limiar de uma decisão […]”[13].

Dessa maneira, o herói trágico clariciano – a exemplo de Martim – concentra em si a progressão da trama, impulsionada pela decisão que o protagonista tem de tomar. Ao converter o percurso do herói em força motriz de suas narrativas, a escritora instaura um novo laço entre a sua ficção e a tragédia grega. Atente-se à afirmação de Vernant: “Colocado na encruzilhada de uma escolha decisiva, diante de uma opção que comanda todo o desenvolvimento do drama, o herói trágico se delineia comprometido na ação, em face das consequências de seus atos”[14].

A ação do herói trágico apresenta um caráter dual, conforme expõe Vernant: “[…] de um lado, é deliberar consigo mesmo, pesar o pró e o contra, prever o melhor possível a ordem dos meios e dos fins; de outro, é contar com o desconhecido e incompreensível, aventurar num terreno que nos é inacessível […]”[15].

Assim, a tragédia grega antecipara, sob a ótica mítica, a noção de desamparo, sobre a qual disserta Jean-Paul Sartre, ao qualificar a natureza humana como uma “condição temerosa, incerta e desamparada”[16]. Desse ponto de vista, frisa-se a eventualidade à qual o Homem está sujeito, na qual se pode imprimir o cunho de fatalidade, como no caso de Édipo: “Não sei como poderia defrontar-me, no Hades, com meu pai, ou com minha infeliz mãe, porque cometi contra eles crimes que nem a forca poderia punir! E o semblante de meus filhos, nascidos como foram, como me seria possível contemplar? Não!”[17].

Sobre o filho de Jocasta, pesa toda a casualidade inerente ao existir, sublimada em seu aspecto fatal, como se descreve na fala do Corifeu: “[…] em que torrente de desgraças [Édipo] se precipitou! Assim, não consideremos feliz nenhum ser humano, enquanto ele não tiver atingido, sem sofrer os golpes da fatalidade, o termo de sua vida”[18].

Contra essa natureza desamparada do Homem, insurge-se a narradora de Água viva[19]: “Eu é que sou doente da condição humana. Eu me revolto: não quero mais ser gente. […] Quem tem piedade de nós? Somos uns abandonados? uns entregues ao desespero? Não, tem que haver um consolo possível. Juro: tem que haver” (Água viva, p. 84-85). Tal insurgência conduz a narradora à hýbris: “Recuso-me contra ‘Deus’. Vamos não morrer como desafio? Não vou morrer, ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde” (Op. cit., p. 85-86).

No trecho anterior, sobreleva-se a oposição entre os planos humano e divino, fundamental para a ação trágica, segundo Vernant: “Para que haja ação trágica, é preciso que se tenha formado a noção de uma natureza humana que tem seus caracteres próprios e que, em consequência, os planos humano e divino sejam bastante distintos para oporem-se […]”[20]. Essa oposição designa o aspecto místico da tragédia, notório, particularmente, no âmbito da culpabilidade trágica, a qual, na concepção teórica de Vernant, constitui-se “num constante confronto entre a antiga concepção religiosa da falta, polução ligada a toda uma raça, transmitindo-se inexoravelmente de geração em geração sob a forma de uma átē, de uma demência enviada pelos deuses, e a concepção nova, posta em ação no direito […].[21]

Nessa perspectiva, percebe-se que a tragédia une o sentido religioso da culpa à ação mítica do herói, ser que se aventura, que existe em meio ao desconhecido e ao imprevisível. Faz-se nítido, portanto, que na tragédia coexistem o místico e o mítico, coexistência que se inscreve na ficção clariciana.


NOTAS

[1] WILLIAMS, Raymond. Tragédia moderna. Tradução de Betina Bischof. São Paulo: Cosac & Naify, 2002, p. 76.

[2] Ressalte-se que tais elementos, na ficção clariciana, nem sempre se mostram interligados ou dispostos numa sequência rigorosa, como na tragédia grega. A essa, são intrínsecos devido ao tipo de ação trágica que denotam, e não exatamente em função do lugar que ocupam na ordem sequencial da trama.

[3] NUNES, Benedito. O drama da linguagem:uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1989, p. 20.

[4] LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

[5] FARES, Josse. O Entorno da serpente: um discurso do imaginário tecido em verbo e imagens. In: NUNES, Paulo; FARES, Josse. Pedras de encantaria. Belém: UNAMA, 2001, p. 21.

[6] LISPECTOR, Clarice. A maçã no escuro. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

[7] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e castigo. Tradução de Luiz Cláudio de Castro. Rio de Janeiro / São Paulo: Ediouro / Publifolha, 2003, p. 560.

[8] Williams, op. cit., p. 80.

[9] KITTO, H. D. F. A tragédia grega: estudo literário (Volume II). Tradução de José Manuel Coutinho e Castro. Coimbra: Arménio Amado, 1972, p. 26.

[10] LISPECTOR, Clarice. A via crucis do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

[11] EURÍPEDES. Medeia. In: Tragédias. São Paulo: Edições Cultura, 1943, p. 196-197.

[12] Kitto, op. cit., p. 23.

[13] VERNANT, Jean-Pierre; VIDAL-NAQUET, Pierre. Mito e tragédia na Grécia antiga. Tradução de Anna Lia A. de Almeida Prado et al. São Paulo: Perspectiva, 1999, p. 21.

[14] Idem, p. 49.

[15] Idem, p. 21.

[16] SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Tradução de Vergílio Ferreira. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 25.

[17] SÓFOCLES. Rei Édipo. Tradução de J. B. Mello e Souza. São Paulo: Ediouro, s/d, p. 62-63.

[18] Idem, p. 66.

[19] LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

[20] Vernant; Vidal-Naquet. op. cit., p. 23.

[21] Idem, p. 50.


Saul Cabral Gomes Jr. nasceu em Belém (PA) e graduou-se em Letras (Licenciatura em Português e Inglês) pela Universidade da Amazônia (2001). Possui mestrado (2006) e doutorado (2011) em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Em 1998, obteve o 4º lugar no Concurso Nacional de Contos “Cidade de Araçatuba”. A produção do ensaio O romance regionalista: do panorama ao perfil lhe valeu o prêmio “Carlos Nascimento”, concedido pela Academia Paraense de Letras em 2002. Em 2020, publicou o livro Entre a História e o discurso: olhares sobre a obra de Gladstone Chaves de Melo.


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