TEORIAS E REFLEXÕES ATRAVÉS DOS TANQUES DE FORMOL DE DAMIEN HIRST: A VIDA, O VIVER E A MORTE

Em ti principiam o mar e o mundo.
-Herberto Helder

Durante alguns de meus estudos cotidianos acerca da Arte Moderna e Contemporânea, deparei-me com um artista de obra familiar, que provavelmente já havia estudado brevemente ao longo de minha graduação em Artes Visuais, ou talvez já tenha encontrado em algum outro livro de história da arte. Entretanto, ao parar e olhar mais de perto, confesso que senti o mesmo arrepio, incomodo e mix de sensações quanto a primeira vez que “coloquei meus olhos” nestas obras, mas é claro, com uma diferente mentalidade e interpretação poética se compararmos ao meu tempo de universitária.

Damien Hirst (1965), como na maioria dos artistas contemporâneos, ignora completamente os gloriosos estilos admirados e eternizados pelas Belas Artes, trazendo obras que mais possam conversar com o público, abordar conceitos e ideias e compartilhar processos criativos, prática iniciada pelos artistas Dadaístas. Além disso, podemos notar nas obras de Hirst, uma grande influência proveniente de Duchamp (1887-1968), artista pioneiro dos ready-mades.

Nascido em Bristol, Inglaterra, Hirst se mudou para Londres em 1986 para estudar Artes, onde não muito tempo depois, organizou uma exposição titulada Freeze para promover seus trabalhos e aos trabalhos de seus colegas, despertando o interesse de colecionadores de arte e tornando-se impulso para o então movimento Young British Artists (Jovens Artistas Britânicos).

No entanto, não falaremos disso hoje. O presente artigo, trata-se de uma grande paixão de Hirst quanto às suas principais e mais conhecidas produções: seus tanques de formol que na maioria das vezes, são apresentados com cadáveres de animais, tais como ovelhas, vacas, tubarões e até unicórnios, que carregam não apenas títulos, mas poéticas, reflexões e teorias entre a vida, o viver, a morte e suas inúmeras e eternas conexões.

Damien Hirst já havia dito em outras oportunidades, seu prazer em abordar sobre a morte em suas obras, assim como trazer conceitos em volta dela e transformá-los em trabalhos artísticos. No entanto, a primeira coisa a qual nos perguntamos ao depararmos com estas obras, são coisas como “por que este animal?” ou então “por que um tanque de formol?”,o que de fato é algo curioso a se questionar.

Para começar com este breve ensaio sobre os tanques de formol de Hirst, falo sobre a obra Distante do Rebanho (1994), que constitui-se a nada mais e nada menos que um cadáver de uma ovelha, que mostra-se paralisada, assustada ou até mesmo, angustiada olhando para cima, o que segundo o artista, reflete-se  às inúmeras analogias de Jesus Cristo representado como um cordeiro na Bíblia, no entanto vale reforçar, que por a ovelha está sozinha e com um “aspecto” desnorteado, Hirst também traz reflexões sobre a solidão e/ ou quando nos afastamos de nosso rebanho, o que pode ser muita das vezes, sinônimo de angustia e desafios, enquanto buscamos em nós mesmos, nossas próprias respostas, nosso próprio caminho, nossa própria história (nem que isso seja doloroso).

Em seguida, descrevo aqui a obra Mãe e Filho Divididos que se trata de uma vaca presente em um tanque e seu filho bezerro em outro, ambos “cortados” em metade e com seus tanques aproximados uns dos outros. Em especial, Hirst deixou um espaço entre os dois tanques para que os visitantes pudessem passar entre os animais, reforçando a ideia de distanciamento entre mãe e filho. Desta obra, falo com olhar crítico e pessoal, mas que podem trazer análises diante a todas as mães que perdem seus filhos (e vice-versa) todos os dias por inúmeras razões, e como um para sempre estará ligado ao outro, assim como esta separação pode deixar eternamente um buraco enorme no peito.

Seu mais famoso animal em tanque, trabalho titulado A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo, trata-se exclusivamente de uma análise que pode ser por si só assustadora. O cadáver de tubarão que reforça a ideia de estar cara a cara com um ser que caso estivesse vivo, poderia lhe matar, provocando inúmeras sensações como o medo, a impotência, a sensibilidade, a agonia e a fragilidade- Fatores como a provocação e o jogo das emoções, são sempre buscados por Hirst.

Além destes, temos muitos outros animais como a zebra, o crânio de uma vaca, um porco e uma espécie de touro, mas certamente não poderei falar de todos eles. Finalizo este pequeno passeio pelos animais de Damien Hirst com a obra O Sonho e a obra O Sonho Quebrado, que consiste em um unicórnio no tanque de formol e a cabeça de um unicórnio cortada ao lado de um facão.

De certo modo, podemos ter uma associação clara entre os dois trabalhos de Hirst, que se inicia com o belo, o fabuloso e o ingênuo que pode ser nossos sonhos, planos e/ ou objetivos, aqui representados por um unicórnio branco, símbolo da pureza. Mas quando nos deparamos para o próximo trabalho, vemos o mesmo unicórnio com sua cabeça degolada por uma faca, o que pode simbolizar a morte deste sonho ou a desistência dele, muitas vezes interrompido pelo amadurecimento, pelas dificuldades, pelas experiências, por terceiros ou por nós mesmos. O unicórnio é a beleza de um sonho, e a sua morte, a renúncia, o que me faz questionar “quantas vezes já matei os meus sonhos?”

Finalmente, ideia de Hirst para o uso do formol como por ele mesmo citado, veio através do seu “medo da vida ser tão frágil”. A atração reforça-se principalmente pela sua comparação à água, pois são dois elementos extremamente parecidos visualmente, mas que se diferem quando confrontados, visto que a água é essencial e indispensável para a sobrevivência e o formol nos sufoca até a morte. Os presentes animais, a meu ver, referem-se a diferentes momentos entre a vida e a morte, ora de nós mesmos, ora de nossos sonhos, paralisados e eternizados pelo artista. Ao mesmo tempo em que vivemos, morremos como o formol de Hirst, mas que ainda assim, marcam a beleza de viver.


REFERÊNCIAS

Breve História da Arte Moderna, SUSIE HODGE (2019)


Yasmin Cabral Gomes é licenciada em Artes Visuais pela Universidade da Amazônia (UNAMA) e pesquisadora em crítica de arte, processos criativos e poéticas da arte.


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