SOBRE SER GORDO E TER DIFICULDADE PARA COMPRAR ROUPAS

Sei que meninas e mulheres sofrem com pressão estética e gordofobia muito mais do que nós homens. Enquanto homem, eu não sou a pessoa mais apropriada para falar sobre esse assunto; as próprias mulheres são as melhores para expressar como sentem as pressões lançadas sobre elas mesmas. Um exemplo de alguém que trata disso com propriedade é a filósofa Malu Gimenez. Em seu livro “Lute como uma Gorda”, ela trabalha, partindo também de sua própria experiência, as dificuldades e resistências de mulheres gordas.

Agora passo ao meu propósito bem menos abrangente. Quero apenas compartilhar com vocês as dificuldades que tenho para comprar roupas. Desde 2014 até agora, tem sido difícil comprar roupas; mais especificamente, camisetas e casacos. A maioria das lojas que já fui não têm opções acima do GG. Contando com minha moradia atual, já morei em quatro cidades, em dois estados e em duas regiões diferentes. O problema sempre se repetiu. Talvez alguém esteja pensando: “Ah, mas se você procurar tem umas lojas com roupas maiores. Tem até loja plus size”. Esse é o ponto. Eu preciso ficar procurando lojas específicas.

O problema é que, mesmo nas lojas que têm roupas maiores, a maior quantidade de opções entre cores e estampas está nas peças de tamanhos menores. Quem não é gordo tem muito mais opções de escolha.

Esta semana, fui procurar uma camiseta. Fui ao shopping e visitei duas lojas populares conhecidas, dessas com filiais em todo o país. Achei vários modelos de que eu gostei. Sabe quando você bate o olho em uma roupa e sente que vocês foram feitos um para o outro? Foi isso, várias vezes. Mas em todas essas vezes, não tinha nada do meu tamanho. Ah sim, eu uso extra G.

Num momento, chegaram três meninos magros – deviam vestir M, acho. Eles começaram a pular de alegria, a falar, todo animados, sobre os personagens dos animes que estavam nas estampas e como seria legal usar aquelas camisetas. Aquelas mesmas que eu tinha gostado, mas não me serviam. Eu, então, com a típica esperança que é rapidamente frustrada, fui até um vendedor e fiz aquela pergunta, que as pessoas gordas – ou muito magras – geralmente fazem: “Moço, só tem os tamanhos que estão aqui expostos ou tem mais no estoque?”. Resposta: “Só as que estão aqui mesmo. Mas talvez tenha algo na loja da internet, vamos dar uma olhadinha”.

Ele ficou mais ou menos uns dez minutos procurando algo acima do GG. Aí o cara entrou na sessão plus size do site. Não tinha roupa masculina, que no caso é o tipo de camiseta que uso. Ele ficou bem sem graça. Eu agradeci e, em seguida, disse há um daqueles meninos animados na compra das camisetas de anime: “deve ser bom sempre achar roupa do seu tamanho, né? Comigo isso quase nunca acontece”. Ele ficou com vergonha e deu uma risadinha inexpressiva. Depois percebi que não devia ter falado com ele daquele jeito, como se ele fosse o culpado; mas quando pensei em pedir desculpas, ele já não estava mais ali. Nesses momentos aqui relatados, senti tristeza e muita raiva ao mesmo tempo.

Já que nas lojas físicas próximas de mim as opções que eu compraria não têm algo que me sirva, tenho que recorrer constantemente às lojas online. E mesmo assim, muitas delas só têm até o tamanho GG. Naquelas que têm extra G, às vezes fico inseguro para comprar, com medo da roupa não ficar boa em mim. Tenho que ficar olhando as tabelas de medidas da camiseta e comparando com aquelas que eu já tenho.

Dias atrás, ficou aparecendo no meu instagram a propaganda de uma loja que estava vendendo uma linda camiseta. Na estampa, o desenho de um mapa e uma frase sobre a américa latina. Eu gostei muito! Quando fui olhar o preço, minha carteira quase esvaziou só de contemplar aqueles números na tela do celular. Uma loja que pensei ser inclusiva, já que exalta as lutas dos latino-americanos oprimidos, ironicamente tem preços que a maioria dos latino-americanos não podem pagar. Mandei uma mensagem, perguntando educadamente sobre preços e tamanhos. Faz dias, ainda não me responderam. Ah sim, falei do tamanho – porque essa loja aparentemente inclusiva só tem até a medida GG. E, mesmo na internet, não é só essa loja que deixa de oferecer opções maiores. Da última vez em que precisei comprar um moletom, pesquisei em dezenas de sites e dá para contar nos dedos de uma mão aqueles que tinham o meu tamanho.

Estava esquecendo de falar da outra loja a qual fui nesse dia do shopping. Nela até encontrei algumas camisetas extra G, mas não gostei de nenhuma. Todas as que gostei só serviam em gente magra. Parece que, se você é uma pessoa gorda, pelo menos para as várias lojas onde não encontrei o que precisava, não se tem o direito de vaidade. Assim, a satisfação e a liberdade, o aumento da autoestima por vestir-se de um jeito que se sinta bem, é subtraída por um funesto esquadrinhamento da moda.

Isso acontece não porque pessoas gordas são menos dignas de serem bem atendidas pelo mercado de vestuário, mas porque a maioria das empresas trabalha com o pressuposto de uma certa superioridade estética. O objeto, então, que deveria servir à necessidade humana, materializa-se como imperativo padronizador e, ao invés das roupas serem confeccionadas para adequarem-se aos corpos, os corpos são obrigados a esmagarem-se para entrar dentro das roupas.

Sei que há pessoas que têm mais dificuldade do que eu nessas situações – pois se é difícil para quem usa extra G, imagina pra quem precisa de tamanhos maiores que esses? Em homenagem a nós, fiz um poema, que escrevi triste e com raiva, logo depois de sair de uma dessas lojas.

NÃO TEM EXTRA G

Extra! Extra!
Não tem extra G!
Não tem pra comprar.
Não tem pra vender.

Nasça de novo 
ou tente emagrecer.
Assim é mais fácil
tudo acontecer.

Bem que um dia uma tia
chegou a me dizer.
"Tudo é mais difícil
quando você crescer".

Seja o ideal 
e não o que se vê.
Quase toda loja
não tem extra G.

Wudson Marcos é graduado em Filosofia pela UFMS, pós-graduado em Sociologia e Orientação Educacional pela Faculdade Dom Alberto. Trabalha como professor, faz mestrado em Estética e Filosofia da Arte pela UFSC. Também é poeta, autor do livro CGS, e futuro pastor excomungado, sendo que a excomunhão já foi efetivada.


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