DIA 418

Quarentena, dia 418: 06/05/2021

dia em que mamãe foi vacinada
dia da chacina no Jacarezinho

Acorda, amor – diz a canção de Chico de 1974 e o álbum de 2020 de várias cantoras foda que leva o nome da canção, sem, porém, contê-la -, mas agora você dorme um sono de quem luta pelos próprios sonhos e pratica as causas que advoga, de quem vive com as vísceras do lado de fora e isso cansa demais, além do dizível quando se é brasileiro em 2021. Será que Chico, naqueles outros anos de chumbo, sonhava viver nestes atuais e por isso pedia para o amor acordar? Será que nesses anos de “democracia” só vivemos a mesma coisa de antes, coberta por um véu que agora caiu? Essa “democracia” tem quase a tua idade, amor, mas histórias tão diferentes, não? Diria que até mesmo antitéticas, salvo as partes dela que são de fato democráticas, como o SUS, que hoje, em especial, enalteço, porque hoje mamãe vacinou-se contra essa praga – a parte do vírus, não do governo.

Sabia que “Acorda, amor” é a música de Chico de que ela mais gosta? E minha mãe gosta muito de Chico! Eu lembro dela cantando-a para mim quando eu era pequena, já explicando a letra, como uma mãe alemã que leva sua filha ao memorial num antigo campo de concentração, onde a visita termina em uma lápide escrito “nie wieder”, “nunca mais”. Ela me ensinou muito bem sobre os “nunca mais” nacionais, amor, a sua também, e é por isso que nós estamos juntos: porque estamos do mesmo lado da justiça, o do povo, pudemos nos encontrar e daí tudo o mais. 

Tem sido pesado ser brasileiro, às vezes confundo se me confino para fugir do vírus ou do Estado. É claro, eu e você, brancos para a leitura brasileira e residentes de certo CEP, poderíamos nos livrar de qualquer hipotética queixa, se é que ela seria hipoteticamente prestada, mas a nossa consciência nos impede de nos aconchegar nessa segurança, ainda que sim, haja. Os tiros que mataram vinte e cinco pessoas pretas e pobres hoje no Rio de Janeiro nos dói fundo, porque nossos corações só pulsam do lado de fora do corpo e valorizamos a alteridade mais do que qualquer coisa. Ainda assim, em meio a esse caos todo, sem nem falar nas batalhas pessoais, você conseguiu dormir, enquanto guardo vigília.

Não vou te acordar, amor. Quem sabe você, ao contrário de Chico, sonha um sonho bom.

A crônica “Dia 418” é parte do livro Dolores, ainda a ser lançado.


Erika da Mata é artista visual mixed media, escritora e cientista da saúde da cidade de São Paulo. É parte do coletivo Sinestéticas, já tendo dois volumes publicados com o grupo, e está iniciando o processo de edição de seu primeiro livro solo, o ‘Dolores’. 


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