DESCARTÁVEL

Eu não me lembro bem quanto tempo ela trabalhava lá.
Quando fui aluno da escola, ela já era a supervisora.
Pouco tempo depois, quando retornei para lecionar, nos reencontramos.
Era diferente a nova relação: não era mais o aluno, e sim o colega de trabalho.

Ela apadrinhava um aluno da escola que, às vezes, se valia disso.
E foi quando eu dava aula pra ele que nos aproximamos.
Conversávamos sobre tudo: porque ajudava, o carinho pelos pais, fofocas do trabalho...

Certo dia, relatou um desconforto.
Eu e outro amigo falamos para ela ir ao médico.
“Que horas?!”, ainda ouço ela falando, arredia.
A rotina dela era aquela escola, supervisora em dois turnos.

Era o “terror” dos alunos.
Aí de quem insistisse em ir sem uniforme.
Confesso que não via muita atualização pedagógica no seu trabalho, mas ela fechava com gente.
Principalmente com quem ela tinha uma boa relação… era meu caso.

Ela então aguardou o período de férias para investigar seu incômodo.
Foi avassalador.
Em questão de dias, descobriu um câncer em metástase.
Não houve muito tempo.

A última lembrança que tenho é de uma ligação que fizemos.
Já não era a mesma voz ativa e forte, transmitia a insegurança de quem iria para uma cirurgia sem saber se retornaria…
Retornou, mas não por muito tempo.

Quando retornamos das férias, era quase torturante passar em frente a sua sala.
Lá já havia outras duas para seu lugar; uma para manhã e outra para a tarde.
Em sua homenagem, a escola colocou seu nome na sala dos professores.
O tempo passou, poucos lá ficaram.
Seu nome já não se nota; se perguntar, quase ninguém saberá.

Dessa história ficou a lição:
Trabalho é meio e não fim.
É uma parte, não o todo.

Mesmo assim, insistimos no contrário.

Somos peça de uma engrenagem, descartáveis e substituíveis.

Até Faustão foi.


Calma, não é para abandonar o trabalho ou executá-lo de qualquer jeito.

Mas lembrar que não devemos doar para o trabalho mais do que doamos em nossos relacionamentos.

Assim, independentemente do trabalho, deixaremos nossa marca.

Mas cuidando para que o trabalho não leve tudo o que somos.

Pois no final, de uma forma ou de outra, seremos reduzidos

a uma placa
um nome
duas datas.


Iverson Silva é professor de História da Rede Pública, Historiador e Escritor.


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2 comentários

  • Iverson, lembrei-me de duas pessoas maravilhosas que marcaram a minha vida: uma na Escola Estadual Dr. Garcia de Lima, e uma no Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. A supervisora do Garcia já se foi há tantos anos… 20, 25, não sei ao certo… Em sua memória há uma placa sobre a porta de uma sala. E duvido que haja mais que uma mão cheia de pessoas naquela escola que ainda saiba quem ela foi. A chefe de Serviços Gerais do ICB-UFMG se foi há menos tempo. Muita gente ainda se lembra dela, com certeza. Mas as pessoas que se lembram também se vão. E sobram apenas a placa, o nome e as duas datas…

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