NO INÍCIO, ERA O FRACASSO

A plena realização do fim infinito é somente suprassumir
a ilusão de que o fim ainda não foi realizado.
(Hegel)

Que significa fracassar? Enunciar essa pergunta em voz alta traz uma dose de estranhamento, num tempo onde a pergunta mais comum acaba sendo algo como “qual o significado do sucesso nos tempos atuais?”, “como ser uma pessoa de sucesso? (sucesso a seu modo, é claro, afinal, no mundo capitalista, cada um faz sucesso a sua maneira, pois isso aumenta a demanda e o mercado se pluraliza, etc.)”. Mas há uma questão ainda mais eloquente quando falamos das fantasias que estruturam aquilo que entendemos como nossos processos transformativos. Passar de um estado para outro, alcançar o “sucesso” (ou “fracassar”), todos esses sintagmas contém uma certa teoria da transformação que se estende até o horizonte como aquilo que pode ser experimentado sob uma forma totalmente nova ou mesmo que se põe como obstáculo ao movimento autenticamente transformativo, ordenador, emancipatório, e por aí vai.

Por exemplo: você pode imaginar que o sucesso de um sistema como o republicanismo pode ser medido em relação com sua capacidade de instauração e representatividade formal. Contudo, uma conclusão dessa natureza que se dê de forma positiva terá de se haver (ainda que lateralmente) com uma disjunção entre conceito e Meta muito característica de certos processos históricos, segundo o qual aquilo que acontece se distingue daquilo que fora prometido. O republicanismo cumpriu aquilo que fora prometido? Isso mede seu sucesso ou fracasso? Esse estilo de pergunta também se aplica como uma gramática (imprecisa) de medição de “sucessos” do par nazismo-stalinismo: o nazismo representa um fracasso ou um sucesso com relação aos seus objetivos? Podemos dizer o mesmo do stalinismo (?), ou estaria aí um ponto preciso em que descrever sucessos e fracassos passa por uma revisão ainda mais rigorosa dos termos, conceitos, ou, simplesmente da teoria de transformação adequada para avaliar processos como estes?

Mas voltemos à questão original – sobre em que consiste pensar “sucessos” e “fracassos”. Gostaria de defender aqui uma ideia provavelmente impopular a respeito da natureza de nossos processos transformativos, sobre aquilo que, quando atingido, modifica nossa leitura sobre o que aconteceu conosco, ou, quem somos. Trago novamente a pergunta que abre o ensaio: que significa o fracassar hoje? Como vimos, a valência de termos como “fracasso” ou “sucesso” depende necessariamente de certa gramática. Uma delas é a de que “sucesso” conceitua o momento em que o sujeito atinge um estágio Absoluto dentro de uma coordenada de possibilidades, e assim, se vê diante de um novo plano, com novas expectativas, desejos e sofrimentos (por que não?). Nesse sentido, e por outro lado, o fracasso é aquilo que é experimentado como errático no interior dessa progressão, onde a performance manca e modifica o próprio objetivo (ou em sua escala – na medida em que ele fica mais “longe” – ou em sua possibilidade – quando atingi-lo ganha caráter de impossível). Mas cabe destacar que esse sistema se baseia em um equívoco lógico, que somente uma hipótese de transformação suficientemente materialista poderia assinalar. A hipótese é a seguinte: embora pensar em “sucesso” (ou “fracasso”) seja tratado como medidor de como uma experiência foi (in)capaz de atingir a coisa-em-si, nunca estamos realmente em condições de afirmar a coisa-em-si – ela sempre nos escapa quando nos aproximamos dela, como se houvesse um lugar obscuro imanente à toda experiência Absoluta. Nunca estamos em condições de afirmar (de fora) onde está o momento de viragem, já que nós sempre estamos dentro dele.

Talvez essa percepção possa nos dar uma nova interpretação sobre a experiência de fato mais partilhada entre as pessoas e seus grupos – o fracasso. Falar do fracasso, normalmente é falar sobre as marcas do que não aconteceu. Mas essa é apenas uma versão fraca do conceito. O fracasso não é o signo da distância. O fracasso é a parte que constitui a própria noção de transformação. Pois a transformação não acontece a despeito do fracasso, uma vez que ele é, em-si, o que desaparece quando o sucesso se efetiva. Para recorrer a um conceito psicanalítico, acredito que é bastante conhecida a ideia de ato falho: quando a pessoa premedita dizer uma certa palavra (ex. “amor”) e outra aparece em seu lugar (“mãe”), o “grande Outro” autentica aquele fenômeno como da ordem do acontecimento, como se ali tivesse produzido um sentido, uma ideia. Ora, a grande sacada freudiana do ato falho é afirmar que o fracasso do sujeito em encaminhar um sentido – coerente com a fala, etc. – acarretou exitosamente em uma produção, na medida em que ele produziu um sentido de fundo inconsciente, totalmente “espontâneo”. Nesse sentido, o ato “falho” é um ato bem sucedido.

Diria o filósofo Alain Badiou¹ que esse é o mistério do Acontecimento, já que ele antecipa a existência de uma Ideia totalmente nova em relação a o que se esperava conseguir. Para o fracasso pode não ser diferente. Em cada experiência sentida como fracasso há uma transformação radical… uma necessidade concluída. Mas destaco que essa não é uma apologia ao fracasso como tal. O que acredito é que há algo no fracasso que não pode ser sentido como falho, mas como a cisão com algo que já aconteceu. Existe algo no fracasso que nos separa daquilo que vai sendo percebido como passado. Como destaca o hegeliano Zizek, “não realizamos o fim atingindo-o, mas provando que já o atingimos”². Assim, o fracasso não está no meio da progressão, mas em seu início. Ele marca o ponto de largada, de modo que só é possível partir se for de uma situação fracassada. Em outras palavras: quem fracassa, (re)começa, tem a chance de organizar novamente seu Nada. A partir daí, toda nossa fidelidade ao fracasso aparece sob a forma de novidade, um rompimento com o que nunca deveria sequer ter existido. Um Nada.


NOTAS

BADIOU, Alain. O ser e o evento (1996).

ZIZEK, Slavoj. O mais sublime dos histéricos: Hegel com Lacan (1991).


Micael Correia tem 22 anos e é um escritor não-autorizado. Faz graduação em Psicologia e nutre interesse por Psicanálise, Cultura e Religião.


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