DIA SEM PAIS

A minha perspectiva sobre o dia dos pais sempre foi, de certa forma, uma perspectiva de ausência. De falta, não; figuras masculinas não me faltavam, nem eventos para celebrar o “dia dos pais”, e é um tanto difícil alguém sentir falta de algo que nunca teve. Mas a ausência, essa estava ali – e o dia dos pais era só um lembrete a nível nacional de que ela existia.

Essa realidade está longe de ser exclusiva minha. Em um país em que existem mais de 11 milhões de mães solo (IBGE), a paternidade é assunto que ainda carece de muita reflexão. Sob a égide da ideologia patriarcal e compulsoriamente heterossexual que permeia as nossas estruturas sociais atuais, ter (ou ter tido, em algum momento) um pai não é condição sine-qua-non de ser filha. Perceba: não estou dizendo aqui de ser órfão, não; estou dizendo de progenitores que optam por não viver a paternidade. Confesso que isso me faz questionar mesmo se justifica a existência de um DIA DOS PAIS, já que a data é um lembrete tão desconfortável pra tanta gente… ou talvez isso contribua para que o dia dos pais seja ainda mais justificado, uma vez que, já que tantos abrem mão da função, os bravos heróis que assumem seu posto precisam ser celebrados.

Pessoalmente, eu fico com a primeira opção, especialmente quando o contexto é composto por uma maioria de progenitores heterossexuais em cujos relacionamentos, na maioria das vezes, a ausência de um pai é o fardo de uma mãe. Mais do que os desafios que o processo de criar um novo ser impõe em si mesmo, o fardo social não demora a dar as caras. Os sintomas de uma sociedade machista chegam em forma de ataque a essas mães, através do cerceamento de seu corpo, de seu tempo, de sua atenção, de suas prioridades, de suas vontades. A mãe que tem um pai presente já não pode mais ser outra coisa que não mãe; a mãe que não o tem, menos ainda. Nesse aspecto, felizes mesmo são as mães sáficas.

O fardo social do título de mãe não dá descanso nem quando o dia é dos pais. Me lembro bem de dias dos pais da minha infância, e que só posso imaginar o que minha mãe sentia ao me ouvir, aos cinco anos, dizer da ausência do meu pai com tanta naturalidade. Pois bem, era natural pra mim dizer “ah, o meu pai não vem, mas a minha mãe vem” quando me perguntavam quem vinha na celebração da data; mas sempre foi chato. E eventualmente, eu comecei a perceber o quanto esse e tantos outros aspectos decorrentes da ausência do meu pai eram socialmente chatos. Me tornei uma filha provida de amplo cansaço e profunda indiferença frente a qualquer questão paterna (ainda que me esforçasse contra isso).

Existe um provérbio africano, acho, que diz que “é necessária uma vila inteira para se criar uma criança”. Na minha vila, como na de inúmera crianças, não tinha um pai. E por mais que me alegre ver a relação de pessoas cujos pais estiveram em suas vilas, sinto que esse lance de ‘dia dos pais’ é só mais um jeito de exaltar quem não faz mais que sua obrigação, de transformar o que seria o mínimo em algo extraordinário.

Hoje, pela primeira vez em anos, um dia dos pais foi leve pra mim; quando se é orfã, o peso da obrigação social de celebrar alguém que não fez questão de fazer parte da sua vila some. Sempre me entristeceu, em algum nível, que eu sentisse tão pouco pelo meu pai; mas faz todo sentido: orfã ou não, a minha família permanece a mesma. Desenvolver sentimentos como os que eu gostaria de sentir por ele, como os que eu sinto pela minha ‘pãe’, demandaria que ele tivesse se proposto a ser família para mim.

No mais, penso que celebrar as pessoas que nos dão apoio e suporte e carinho é essencial. Se o seu pai é uma dessas pessoas, celebrá-lo não demanda uma data; todo e qualquer dia é uma oportunidade.


Carol Cadinelli é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama.


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