ARTE AFRO-BRASILEIRA: O SURGIMENTO DOS TEATROS NEGROS NO BRASIL

“… Instrumento de redenção e resgate dos valores negro-africanos”
(Abdias Nascimento)

Sabemos que a formação da cultura afro- brasileira é fruto de uma rica mistura de outras culturas que se instauraram aqui em nosso país, seja pelo contato com as culturas originárias (culturas indígenas), pelo contato com a cultura européia e pela cultura vivida pelo africano escravizado que permanece grafado em sua memória e corpo. Filosofias, ciências, danças, rituais e saberes foram então reestruturadas pelos descendentes de africanos em nosso país, reconstruídos por consequência do sequestro do Atlântico, período de escravatura.  Nessa relação, os africanos tiveram um impacto profundo e importante para o que conhecemos hoje como cultura afro- brasileira, alimentando o vasto campo da arte afro- brasileira, como por exemplo: o teatro.

No ano de 1855, emerge discussões na sociedade brasileiras relacionadas a suas problematizações e as relações humanas nos seus sentidos mais aflorado, assim surge o teatro realista no Brasil, depois disso, houve um salto importantíssimo para o movimento artístico, o acontecimento da Semana de Arte Moderna no ano de 1922. Essa Semana, foi importante para o Brasil, pois buscava consolidar uma nova estética para as produções de arte, rompia com o academicismo e buscava abandonar os conceitos tradicionais europeus presentes em quase todas as obras artísticas, possibilitando um novo sentido de produção de arte que valorizasse a identidade nacional, a liberdade de expressão, a fusão de influências externas aos elementos brasileiros, experimentações estéticas, a aproximação dos saberes orais e temas cotidianos.

Logo depois, entre 1926 e 1927, existiu no Rio de Janeiro a Companhia Negra de Revistas. Nessa época, bombava no país o teatro musical, tendo em foco o gênero Teatro de Revista, que se caracterizava pelo entretenimento, por aspectos espetaculosos, exótico e inédito. Assim, começa a surgir o teatro negro no Brasil, manifestado por De Chocolat (João Cândido Ferreira), a Companhia Negra de Revistas, estréia foi em 31 de julho de 1926 e a Companhia teve duração de apenas um ano, infelizmente por conta da dificuldade de se manter um teatro majoritariamente composto por pessoas negras em um horizonte de guerra no mundo. A Companhia foi responsável por uma efervescência no RJ e conseguiu rodar com seus espetáculos em outros estados, sendo alvo de críticas destrutivas e também construtivas, quebraram barreiras com seu teatro negro (embora ainda embebido por uma estética branca e contando com um público de elite), pois nessa época atores e atrizes negras não tinham espaço nenhum de fala nos palcos. Concluindo, a Companhia abriu nossos caminhos, embora com pouco tempo de existência, foi responsável por ocupar o espaço do teatro de revistas e afirmar sua negritude.

O grupo que deu continuidade aos caminhos abertos pela Companhia Negra de Revista, foi o Teatro Experimental do Negro, por Abdias do Nascimento. Pois bem, observando esse resumo do teatro no Brasil, reparamos que não há nenhuma ênfase, sobre a figura da pessoa negra/ afrodescendente/ preta no cenário teatral, ou seja, percebemos uma desigualdade no meio teatral,  isso é fruto do racismo estrutural e a supervalorização de uma cultura branca hegemônica . Em 1944, no Rio de Janeiro, movido por um calor de indignação (sustentado por tantos outros) originou- se o Teatro Experimental do Negro. O TEN é a maior referência de teatro negro que temos no brasil, imprime um conceito político em suas ações teatrais. Usufruindo das palavras de Renata Felinto, escrito para o site da Omenelick 2 º ato:

O TEN surgiu como um coletivo de artes cênicas constituído por atores negros selecionados entre operários, empregadas domésticas, pessoas sem teto, sem posição de prestígio social ou profissional. Além de refletir e investir em espetáculos que tivessem atores negros como protagonistas e que tratasse desta realidade em cena, o TEN também erguia a bandeira de uma conscientização sobre a situação da população negra dentro e fora dos palcos. Os seis meses de ensaios com o grupo de trabalhadores/atores renderam-lhes elogios e boa aceitação do público em suas primeiras apresentações no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Isto demonstrou que existia sim, no Brasil, uma parcela da população interessada em discutir questões étnicas e raciais.

O Bando de Teatro Olodum, criado em 1994 em Salvador (influenciado pelo grupo carnavalesco de Afoxé, a Banda Olodum), que age há 30 anos no cenário teatral negro, sendo atualmente a grande referência de todos nós, iniciou seus trabalhos pensando a teatralidade dos rituais sagrados e das festas de rua da Bahia e ao longo de sua trajetória começou a  realizar tanto ações teatrais, quanto eventos, fóruns e a ministrar oficinas em comunhão com a perspectiva educacional, política, artística e contemporânea da cultura negra, exercendo um grande impacto na sociedade  como por exemplo: conscientizando, informando e buscando combater o racismo na sociedade.

Artista Negra
por: Bárbara Quintino

Começar a escrever sobre teatro negro é começar a escrever sobre algo que não tem uma resposta/ uma definição, pois o teatro negro é amplo, complexo, lindamente diverso, poético e rico. O teatro negro age em uma constante expansão, como bem afirma a professora Leda Maria Martins. Portanto, existem teatroS negroS, e não teatro negro, no singular, tais como: o próprio Bando de Teatro Olodum, Grupo Clariô, As Capulanas – Cia de Arte Negra, Os Crespos, NATA – Núcleo Afrobrasileiro de Teatro de Alagoinhas, Grupo de Teatro Cabeça de Fitas, Teatro Negro e Atitude, Cia Os Comuns, Companhia Negra de Teatro, Grupo Caixa Preta, Coletivo Abdias Nascimento, Companhia de Teatro Popular Cirandart, Grupo de Teatro Beje Eró,  Grupo O Negro em Cena, Grupo teatral Irawo, Cia Quadro Negro, Coletivo Artístico Saravá, NEGR.A – Coletivo Negras Autoras entre tantos outros grupos e artistas independentes  pretos. Os teatros negro podem assumir várias categorias, descrevo cada categoria a partir dos conceitos da professora Evani Tavares de forma resumida:

Performances Negras: Abarcam formas expressivas, de modo geral, e não precisa necessariamente de público para acontecer, como por exemplo, folguedos populares (bumba meu boi, maracatu, congada, congo, tambor de mina, samba rural, entre outros), formas expressivas como a capoeira, o samba e expressões religiosas afro brasileiras (Umbanda, Candomblé, Folia de Reis, Lavagem do Bonfim e etc). 

Teatro de Presença Negra: Faz parte dessa categoria, produções que utilizam elementos da cultura negra como fonte de material e inspiração, ou contam com elenco composto em sua maioria por pessoas negras.

Teatro Negro Engajado: Diz respeito a um teatro de militância, de postura assumidamente política e posicionamentos críticos, em defesa e afirmação de sua identidade e cultura.

Ressalto que essas categorias não, necessariamente, estão separada entre si, pois partindo do pressuposto que é um teatro negro os sentidos de identidade, posicionamento crítico, linguagens simbólicas e culturais se relacionam, ou seja, conversam. Sobretudo, o teatro negro discute questões da negritude, é produzido, realizado e dirigido para a comunidade negra.

Concluo com um fragmento de Evani Tavares onde ela afirma que:

A emergência do teatro negro no Brasil é uma bandeira que se levanta contra as barreiras da natureza racial, que historicamente vem relegando a população e a cultura negra brasileira às esferas e denominações mais ínfimas de nossa sociedade.


REFERÊNCIAS

“O Teatro do Bando: Negro, Baiano e Popular”, de Marcos Uzel;

“Um olhar sobre o Teatro Negro do Teatro Experimental do Negro e do Bando de Teatro Olodum”, tese doutorado de Evani Tavares;

Revista OMenelick 2º ato: COLETIVOS DE ARTES CÊNICAS: ALTERNATIVAS PARA AS AFROBRASILIDADES EM CENA;

Podcast: A importância da arte e dos teatros negros.


Iasmim Alice é congadeira, multiartista e graduanda em Teatro pela Universidade Federal de São João del Rei, desenvolve pesquisas com ênfase em performance negra, corporalidade e cena autobiográfica. Formou-se pelo Curso de Preparação para atores do Teatro da Pedra, foi atriz e co-fundadora do Coletivo Camaleão. Estudou na Escola de Dança da UFBA e foi integrante do grupo de pesquisa e criação coreográfica Rapadura, Urucum & Dendê. Atualmente, é professora de dança afro no grupo Dideori e participa do projeto de extensão TUGUNÁ: História e Cultura Africana e Afro-brasileira.


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