A SOCIEDADE DA VIGÍLIA E OS SUJEITOS DO PROCESSO

PRIMEIRO TEMPO

Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.” (KAFKA, 2005, p.7).

O livro “O Processo”, do escritor tcheco Franz Kafka, foi escrito entre 1914-1915, durante a Primeira Grande Guerra, e desde já ensaiava sobre o grande enfisema moral que as sociedades contemporâneas conhecem tão bem: o aprisionamento da consciência. Decerto, outras literaturas óbvias vêm à tona quando se pensa a questão do desencantamento do mundo, em especial aquelas que empunham as espadas da distopia. Contudo, acredito que a particularidade de Kafka, já demonstrada na célebre novela “A Metamorfose”, ganha ainda mais densidade em “O Processo”, uma vez que o autor irá pensar as maneiras como os sujeitos frutos da Modernidade passam a se relacionar com a sociedade da vigília panóptica (o projeto de Bentham).

Desse modo, em primeira mão é preciso demonstrar o que é o panóptico de Jeremy Bentham. Esse filósofo utilitarista do século XVIII descreveu um projeto de construção carcerária que seria orientado pelo princípio da vigilância contínua. A edificação seria construída em arquitetura circular, onde as celas dos presídios estariam dispostas, com uma torre de comando central, onde os guardas da vigília ficariam. O objetivo de Bentham era que os encarcerados não pudessem ver o interior da torre central, mas quem estivesse dentro da torre, poderia ver tudo que ocorria do lado de fora. Assim, os prisioneiros nunca saberiam quando estariam sendo vigiados, podendo ser vistos a qualquer instante. A obediência, portanto, se estabeleceria a todo instante.

Com efeito, na obra kafkiana, Josef K. descobre que está sendo processado, não se sabe por quem e não se sabe porquê. A trama agonizante se desenrola em um emaranhado de tensionamentos que não conseguem responder às perguntas de K., apenas o fazem aceitar paulatinamente uma culpa que lhe fora imputada. Assim, a grande sacada kafkiana surge quando aponta para o fato de que todas as personagens envolvidas na trama estão, constantemente, vigiando K. em serviço do Processo. Desse modo, Joseph se vê cada vez mais amarrado nas entranhas de uma realidade que não compreende, mas da qual sabe que jamais será absolvido.

Portanto, o que se pretende com esse ensaio é discutir como os mecanismos de controle e punição social são dilemas que arquitetaram as sociedades capitalistas contemporâneas em seus dinamismos culturais erguidos sob a face dos avanços técnico-científicos.

Pensar a forma com que, na contemporaneidade, as sociedades são formatados diante da liquidez e das descontinuidades, tendo como castigo de Atlas o altíssimo rigor punitivo e numerosas tecnologias de vigília frente aos corpos dos sujeitos sociais, essencialmente daqueles marcados pelos símbolos da marginalização, pode servir para compreender seus próprios Processos – individuais e coletivos.

O CAUSO E A CAUSA

Antes de tudo, é fundamental compreender as dissonâncias que separam o tempo socio-histórico daquela Modernidade, desse Capitalismo Flexível (ou Modernidade Tardia/Pós-Modernidade).

É no contexto social da Modernidade que se estende a racionalização da vida diante do avanço técnico, administrativo e burocrático, tornando a experiência social mais controlada do que nunca antes na história da humanidade. Esse tempo se ergueu sob o pilar de um projeto societário pautado em uma série de liberdades e autonomias que fortaleciam as dinâmicas subjetivas de transformações nas estruturas sociais – lutas antropofágicas!

Para Baldaia e Pereira (2019) se, por um lado, tais movimentos repensaram tradições estruturantes, por outro legitimaram as patologias da ambiguidade e da polivalência. É nesse sentido que, argumentam os autores, as sociedades pós-modernas se desenvolvem em meio às “crises dos modelos estatais, expansão dos hábitos capitalistas, ocidentalização do mundo e virtualização da vida”.

Com efeito, o que se torna mais evidente nos sujeitos frutos do capitalismo flexível é que, como marca de suas identidades, as necessidades de consumo são a faca de dois gumes que atravessam suas experiências subjetivas.

Assim, Zygmunt Bauman (1997) mostra que, aliado a isso, o capitalismo flexível é uma versão individualizada e privatizada da Modernidade, onde o peso da trama dos padrões e a responsabilidade pelo fracasso recaem principalmente sobre os ombros dos indivíduos. Nessa ordem, há um plano de estado que pretende desassistir os cidadãos, eximindo-se, inclusive, da sua própria função assistencialista.

Emerge a sociedade pós-industrial, pós-panóptica, em que o poder torna-se extraterritorial e em que as tecnologias de controle se pulverizam nas fronteiras dúbias entre Estados e grandes corporações privadas. […] A insegurança, o medo, o vício e o desempenho individual são as obsessões da sociedade pós-moderna. (SOUZA, 2010. p.81).

Nesse contexto, o Estado assegura o controle do corpo e das especificidades dos conjuntos populacionais para manter sua sobrevivência dócil, se preocupando apenas em garantir que não haja experiências individuais que se distanciem da subserviência. É nesse sentido que os aparelhos de governabilidade e as instituições punitivas estabelecem sua vigilância nas sociedades contemporâneas.

Para Theodor Adorno (2002), é nessa sociedade que a indústria cultural retira da arte seu sentido de sublimação do desejo, ao passo que a medida que separa aqueles que podem acessar as expressões da cultura dos que não podem, está predeterminada pelo dinheiro. Desse modo, o trabalhador redireciona sua energia de sublimação não-gasta para o próprio trabalho. Assim, o que decorre é que a indústria cultural, com sua imensa rede de propagandas, cria necessidades para o trabalhador que ele nunca vai poder sanar. Daí é que a força motriz para o trabalho incessante tem sua gênese.

Sob a perspectiva adorniana, o indivíduo fruto do capitalismo flexível está, portanto, constantemente frustrado. Desse modo, seu único alívio eventual é consumir – primeiro o consumo da indústria cultural, depois o consumo material. Com efeito, o consumo surge como uma espécie de anestesia, onde ao mesmo tempo que serve como momento de relaxamento, injeta a mentalidade do trabalho sob a face de um suposto entretenimento.

Se por um lado a sociedade da vigília panóptica acompanha a revolução tecnológica (ou é acompanhada por ela), projetando a experimentação mais flexível e, em alguma medida, intercultural da vida social, por outro dualiza os conceitos de público e privado, em uma constante observância das relações e de suas profundas fragilidades.

ÚLTIMAS PALAVRAS

As civilizações pós-modernas subscreveram-se sob os signos da racionalidade, pautando-se na configuração sistêmica da hermenêutica, sendo responsáveis por modular o arquétipo do sujeito autocentrado, antropomórfico e normatizado.

É sob a égide de tais engrenagens que o indivíduo pós-moderno estabelece uma nova maneira de se relacionar com o real, apoiado na crença de que as forças humanas são capazes de dominar e subjugar o curso das relações sociais: as sociedades se desenvolvem como o criadouro de mecanismos e muletas para acompanhar um novo modelo de desamparo existencial.

Dessa forma, são as sociedades contemporâneas que, em domínio do poder das consciências individuais, desenvolvem as ferramentas de alienação sob a face da vigilância irremediável.

Nesse contexto, não somente as instituições do Estado servem para reproduzir violências e violações sistemáticas, mas os próprios sujeitos, submergidos até às cabeças com os papéis de seus Processos, realizam a função de reguladores da moral social, uma vez que assumem a face do agente-duplo: na mesma medida que são vigiados, são também formatados para vigiar.

Portanto, é preciso pensar a maneira como as tecnologias e as técnicas de vigília contemporâneas têm formatado a subjetividade dos sujeitos e alterado o processo das suas experiências individuais e coletivas, tanto no que tange a formatação da sua consciência moral quanto no que se refere ao seu agenciamento enquanto atores do capitalismo flexível. Assim, não me resta nada senão perguntar: estamos caminhando para assumir nossa mea-culpa irrefletida, tal qual Josef K., ou estou sendo muito pessimista?


REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor. A Indústria Cultural. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

BALDAIA, F. P. B; PEREIRA, V. H. O Ciclope Polifemo da Ódisseia e a Consciência Sociológica Contemporânea. In: Revista Café com Sociologia, v.8, 2019.

BAUMAN, Zygmunt. Ética Pós-Moderna.São Paulo: Paulus, 1997.

BAUMAN, Zygmunt. O Mal Estar na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

BURAWOY, Michael. Por Uma Sociologia Pública. In:Revista de Ciências Sociais – Política & Trabalho, v. 25, 2006.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: história da violência nas prisões. São Paulo: Vozes, 2001.

FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade: curso no Collège de France. São Paulo: Martins Fontes: 2005.

FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. São Paulo: Penguin, 2011.

GIDDENS, Anthony. As Consequências da Modernidade. São Paulo: Editora UNESP, 1991.

GRAMSCI, Antonio. Americanismo e Fordismo. São Paulo: Editora Hedra, 2008.

HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Editora Lamparina, 2006.

JEFFRIES, Stuart. Grande Hotel Abismo: a Escola de Frankfurt e seus

personagens. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

KAFKA, Franz. O Processo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SOUZA, Luís Antônio Francisco de. Dilemas e Hesitações da Modernidade Tardia e a Emergência da Sociedade de Controle. In: Mediações – Revista de Ciências Sociais, v.1, 2010.


Victória Henry é graduanda no Interdisciplinar em Humanidades pela UFBA, digital marketer, pesquisadora em Ciências Sociais e poetisa.


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