O FIAR DA MEMÓRIA

As nornas, na mitologia nórdica, são três anciãs fiandeiras que moram nas raízes de Yggdrasil e tecem o tecido do destino e da realidade. As parcas, na mitologia romana, são filhas da noite e controlam o fiar da vida humana, e nem mesmo Zeus consegue controla-las. Na mitologia grega, moiras são as responsáveis por essa mesma função. A arte de tecer a história, na mitologia, é extremamente poderosa e isso não é um mero acaso. Lembrar é um ato de poder. Apenas os seres humanos vivenciam e produzem lembranças de forma tão poderosa. E como uma arte a ser produzida de forma complexa, precisamos de múltiplas ferramentas.

Pense como um bordado a ser construído: inicialmente precisamos do material, da matéria a ser consumida. Um tecido branco ou um tecido previamente colorido. Pela oralidade, é instruído sobre como fazer o desenho, como delinear o bordado de acordo com a experiência prévia de um outro alguém. Assim me lembro do outro mesmo não estando no outro, e lembro de como era antes mesmo de ser, de nascer e de reconhecer a mim e ao mundo. Lembro-me de desejar tudo intensamente: nasci num parto sem anestesia, na sala de espera, mamando – e desejo tudo com intensidade ainda hoje. É o saber do outro inserido em mim.

Depois vem a linha e o ponto. Cada um tem apenas uma linha de apenas uma cor e, com calma, pequenos detalhes são colocados no tecido. Não é possível trocar de cor, contudo o bordado nunca será apenas uno, ou então não será visto: passamos para outros tecidos, nossa cor é inserida em outras cores e uma figura começa a ser traçada. Halbwachs (1968) defende que a experiência é evocada de forma vivida quando observada por diversos pontos de vista. A lembrança é coletiva e inserida no social, se constrói com afinco porque tem-se muitas cores. Minhas cores se misturam, desde criança, com as cores de meus amigos de infância e das pessoas que conheci muito cedo e que ainda mantenho em vida: os detalhes são vívidos porque para eles, também são.

Uma vez que os bordados estão delineados, conectamos os desenhos a outros, desenhamos um plano maior: uma linha vermelha se conecta a uma linha verde e em diversas tonalidades criamos uma rosa. Outra planta será inserida, e outro desenho será ligado a unidade. Construímos um sentido, um objetivo. Uma história. Tenho mais memórias, em determinado ponto da vida, com colegas de trabalho e de escola do que com a família ou quando em solidão. O sentido e o objetivo que marcou a minha vida definiu o desenho que construí com mais afinco, enquanto em outros deixei apenas alguns pontos feitos.

Alguns materiais adicionais fortalecem o desenho a ser definido, como a oralidade e a memória coletiva. Esses materiais complementam o desenho final com mais definição, e uma camada de detalhes rica: diários, fotografias, livros. Um objeto pode contar muitas histórias, pode conectar. São elas as memórias superficiais que se transformam em efemérides, pequenas celebrações datadas.

O bordado pode ser comparado com o fiar em aspectos mais escuros da memória também. Quando fiamos um único caminho é traçado e, apesar de suas conexões e das ligações que faz, cada fio possui seu caminho e sua sequência, podendo ser encerrado apenas quando cortado. Ao fiar ou ao bordar, com ou sem intencionalidade, podemos repetir a mesma coisa duas vezes ou bordar várias vezes a mesma coisa, criando um motivo. Falhando na construção do todo. Desfazendo o bordado anterior. Essas são as memórias que, de acordo com Santayana (1905) nos coloca em um estado infante perpétuo. Que nos fada a repetir o passado. Memórias da história que se repetem pois são contadas por quem venceu, com benefícios em se fazer de tal forma. Nietzsche (2003) em sua segunda consideração intempestiva conclui de que somos históricos e que o homem pode apenas tomar plena consciência de si conhecendo suas raízes, dominando e se apropriando, conhecendo através do antes o agora. 

A memória pode ser vista em inúmeras nuances: em pequenos gestos, em pequenas palavras. Em grandes contos e feitos. Nas nuances de outras nuances, passadas em gerações. Elas se debruçam sobre nós, fazendo do agora um ponto, do antes uma linha, do todo um desenho. Evoca emoções, provoca questionamentos e produz mais, sempre mais, para logo depois se apagar em si. São históricas e a-históricas. É mitologia e fato. Cotidiano e conto. É arte por si só. E como toda arte é nova, complexa e vital. É superfície e símbolo. É admirada intensamente.


REFERENCIAS

DALCASTAHNÈ, Regina. Pela superfície do mundo: objetos e memória na literatura brasileira contemporânea. Letras de Hoje, v. 53, n. 4, p. 463-468, 30 dez. 2018.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 2006.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.

SANTAYAMA, George. The life of reason: os the phases of human progress. Londres: Archibald Constable, 1906. Disponível em: https://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.93625/page/n3/mode/2up. Acesso em: 08 jul. 2021.


Dryelle Müller é discente de Licenciatura em Biblioteconomia pela UNIRIO. Estagiária na Coordenadoria de Acesso a Informação (COOAI) no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), membro do grupo de pesquisa “Estudos sobre práticas inovadoras de ensino-aprendizagem em Biblioteconomia” pelo CNPq/UNIRIO, Monitora de fundamentos teóricos da Representação Descritiva e Bolsista e Projeto de Extensão “Oficina para o desenvolvimento de colaboradores de sala de leitura e unidades de informação”. Atuou como membro no Laboratório Multidimensional de Estudos em Preservação de Documentos Arquivísticos e participou da ação “Documentos Arquivísticos: o que, por que e como preservar?”.


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