AS CONTRIBUIÇÕES DA ESCOLA ITALIANA PARA OS ESTUDOS MORFOLÓGICOS URBANOS

O ato de investigação da forma nas cidades italianas tornou-se uma atividade decisiva desde o final da Segunda Guerra, quando a arquitetura estava sofrendo um grande impacto histórico, principalmente sobre os edifícios e monumentos destruídos pelos bombardeios ou os que sofriam modificações grotescas devido à retomada da civilidade urbana. As metodologias e ferramentas assumem um papel primordial no projeto arquitetônico, algumas com mais ênfase nos edifícios e outras buscando na forma urbana um campo de experiências no desejo de trazer a questão urbana de volta ao domínio da arquitetura: fazer a ponte entre a arquitetura e o urbanismo como disciplinas[1].

Saverio Muratori (1910-1973) foi um dos grandes nomes da metodologia, no âmbito da Università di Architettura di Venezia (IUAV). Arquiteto histórico e docente na universidade durante os anos de 1950 e 1955, conduziu uma pesquisa em aberto contraste com a cultura contemporânea, denunciando erros e equívocos nos vários setores, resultado de sua inquietação como profissional e docente. Seu método de ensino, pode-se dizer, transcendia os limites técnicos e científicos, porque tinha como objetivo atingir valores morais e sociais ainda não alcançados por seus colegas e menos ainda difundidos no campo acadêmico. De acordo com Muratori, ao longo da primeira metade do século XX, o planejamento urbano e a teoria de desenho urbano foram deixando de ser instrumentos culturais enraizados na história. Através de inspeções realizadas durante os diversos anos de docência, juntamente com os alunos, pode-se dizer ter construído um critério que deu às pesquisas uma certa coerência percebida em seu livro, “Studi per una operante storia urbana di Venezia”, que se constitui de uma análise que individua os diferentes tecidos em nível de “Parocchia” e suas respectivas características morfológicas de tecido, tipo e organismo. Ao mesmo tempo que lecionava, participou de concursos arquitetônicos e realizou importantes projetos em Roma, como o edifício do Partido Democrata Cristão e a incompleta igreja do quartiere Tuscolano; em Bolonha, com o edifício de escritórios da Ente Nazionale di Previdenza ed Assicurazione Sociale; e em Pisa, com a Igreja de S. Giovanni al Gatano, sempre preocupando-se em explorar técnicas modernas e soluções complexas com respeito às preexistências ambientais. Foram também temas de seus projetos o planejamento urbano na composição de praças italianas e complexos de edifícios habitacionais, envolvendo-se profundamente nos planos de habitação do Instituto Nazionale delle Assicurazioni (INA), lançados em 1948 e implementados em todas as grandes cidades italianas.

Em 1954, Muratori iniciou seu trabalho na Faculdade de Arquitetura de Roma, com a disciplina de Composição Arquitetônica. Tendo como base os estudos já realizados em Veneza, tinha como objetivo a renovação do ensino na Università di Roma em uma construção coletiva da descrição e estudos dos diferentes tecidos na capital italiana. Os temas propostos tinham em vista a compreensão dos diferentes valores inerentes às diferentes fases de formação urbana, incluindo as influências e as implicações dos novos projetos sobre os edifícios existentes, quer no centro histórico das cidades, onde o tecido é compacto, quer nos subúrbios, onde os territórios eram suscetíveis de acomodar um vasto leque de soluções. Desses trabalhos e de um esforço coletivo formado por uma equipe que incluía Bollati e Marinucci, Muratori publicou o notável atlas “Studi per una operante storia urbana di Roma”, concluído em 1963.

Em seu percurso profissional, de ensino e de pesquisa, diversos estudantes tornaram-se assistentes, amigos e disseminadores de seus trabalhos, como Paolo Maretto, Guido Marinucci, Paolo Vaccaro, Giancarlo Cataldi e outros.

Gianfranco Caniggia (1933-1987), um grande estudioso dos estudos de Muratori, continuou os ensinamentos e publicações, com uma leitura que pode ser chamada de leitura processo serial, que toma como elementos de análise as etapas de construção e modificação do solo urbano. Gianfranco Cannigia foi arquiteto e docente do curso de “Composizione Architettonica” na “Facoltà di Architettura di Firenze” e publicou obras essenciais ao entendimento das ideias de seu mestre. A série de livros intitulados como “Lettura dell’edilizia di base”, “Lettura della tipologia specialistica”, “Il Progetto nella edilizia di base” e “Il Progetto nella edilizia specialistica” procura simplificar seu sistema teórico, sublinhando os aspectos operativos de modo mais direto. A leitura em modo escalonar pode-se dizer a base e a essência da Escola de Morfologia Urbana Italiana, convencionada em quatro escalas, sendo elas a escala arquitetônica, a edilícia, a urbana e a territorial, consideradas como inseparáveis e dependentes entre si quando se trata da investigação tipológica. A análise, quando feita não compreendendo todas as escalas, pode se dizer equivocada no que se refere aos parâmetros italianos, uma vez que cada elemento é considerado como essencial no entendimento dos processos de construção e transformação do território.


[1] MENGHINI, 2002, pg.7


Karla Cavallari é mestre em Pianificazione e Politiche per la Città, Territorio e l’ambiente pela Università IUAV di Venezia (2020) e graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2018), com graduação sanduiche na Facoltà di Architettura na Università Sapienza di Roma (2015/2016). Colabora com o Studio ETB com sede em Treviso/IT e Sevilha/ES no âmbito da pesquisa na temática da Morfologia Urbana com o architetto Alessandro Tessari é atualmente Urbanista na Secretaria de Planejamento Urbano de Juiz de Fora.


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